quinta-feira, 14 de março de 2019

80 anos de Glauber


Morto por uma doença chamada Brasil, os 80 anos do nascimento Glauber Rocha traz  exibição do seminal Terra em Transe

Glauber ainda persevera

O Brasil de 2019 é terra em transe

Por João Paulo Barreto

Há oitenta anos, a 14 de março de 1939, nascia Glauber de Andrade Rocha, em Vitória da Conquista, cidade baiana. Em homenagem ao diretor, o Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha exibirá, hoje, às 20h30, cópia restaurada do marco do Cinema Novo, Terra em Transe, obra de 1967. O mais simbólico dos cineastas brasileiros morreu cedo, aos quarenta e dois anos, vitima de complicações decorrentes de sérios problemas pulmonares que se agravaram durante sua estadia em Portugal, em agosto de 1981. Para dona Lucia Rocha, sua mãe, a causa da morte do filho, no entanto, foi outra. “Meu filho não morreu da vontade de Deus; morreu de uma doença chamada Brasil”, disse a matriarca em entrevista. Dona Lucia faleceu em 2014, aos 94 anos, lutando para manter preservado o legado do filho através do Tempo Glauber, espaço localizado no Rio de Janeiro onde manteve o acervo do cineasta durante anos, mas que, por falta de suporte financeiro, foi fechado em 2017. A doença Brasil ainda se alastra mesmo tantos anos após levar embora o diretor.

Gênio precoce e breve, Glauber abandonou o curso de Direito para se dedicar ao cinema, tendo atuado como crítico e estreando aos vinte anos com o curta O Pátio, filme com influências do movimento concretista brasileiro, bem como do cinema soviético e do expressionismo alemão. Aos 21 anos, lança outro marco, Cruz na Praça, também curta. Em 1962, aos 23 anos, lança seu primeiro longa, Barravento, filme exibido na Europa e no Festival de Cinema de Nova York. Em 1963, dirige sua primeira obra prima, Deus e o Diabo na Terra do Sol, que o levou a concorrer à Palma de Ouro, em Cannes no ano seguinte. Não que todas essas nomeações lhe importassem algo. Glauber estava interessado em um cinema não de premiações e glamour, mas como força de expressão política e que viesse a traduzir um Brasil que fugisse de ingerências imperialistas e das forças manipuladoras diante da fé de seu povo. Não teve em vida todo o reconhecimento que merecia. No começo da década de 1970, durante os anos de chumbo do autoritarismo militar, deixou o Brasil, se exilando no Chile e, em seguida, em Cuba. Filma neste período O Leão de Sete Cabeças, rodado no Congo, além de Cabeças Cortadas, filmado em Barcelona, trabalho que ele mesmo chamou de “continuação metafórica de Terra em Transe”. Retornou ao país em 1976, quando filmou um doc sobre Di Cavalvanti utilizando seu velório como pano de fundo, e iniciou a produção daquele que viria a ser seu último filme, Idade da Terra, de 1980. Paupérrimo e doente, Glauber seguiu para Portugal em 1981 afirmando que aquele seria seu segundo e final exílio, o que confirmava algo que dissera na adolescência, quando chegou a escrever que morreria aos 42 anos, idade inversa da morte de Castro Alves, que partiu aos 24. Assim, Glauber acabou vitima da causa mortis que dona Lucia pontuou no seu desabafo pela perda do filho.

Paulo Autran em cena de Terra em Transe

TRISTEMENTE ATUAL

Em certo momento de Terra em Transe, Paulo, jornalista e poeta interpretado por Jardel Filho, profere aquela que seria uma das mais marcantes linhas do clássico de Glauber, e que define plenamente o elo entre a fictícia Eldorado de 1967, e o triste e infelizmente real Brasil de 2019. “Não é mais possível esta festa de medalhas, este feliz aparato de glórias, esta esperança dourada nos planaltos, não é mais possível essa marcha de bandeiras com guerra e Cristo na mesma posição. Ah, assim não é mais possível a ingenuidade da fé, a impotência da fé”. A fala é proferida pelo homem no momento em que, mesmo quase abatido por policiais, segue em sua fuga após perceber a fraqueza moral daquele que apoiara como representante, e entender que apenas indo às armas poderia mudar algo da injustiça social e miséria que assolam Eldorado. “Não se muda a história com lágrimas”, afirma ao ser lembrado pela companheira e ativista Sara, vivida por Glauce Rocha, do sangue consequente de uma guerra. O Cristo e guerra na mesma posição de influência política da Eldorado fictícia se confundem com a perda da razão em nome de dogmas religiosos quando, em tempos atuais, se misturam Estado e crenças religiosas de forma a manipular opiniões. Os resultados parecem se repetir mesmo com mais de meio século do lançamento de Terra em Transe.

O filme, que chegou a ser censurado no Brasil por ter sido considerado subversivo e desrespeitoso perante a igreja católica como instituição, teve trajetória marcante em festivais como o de Cannes, no qual Glauber foi agraciado com o troféu Luis Buñel e com o prêmio da crítica, além de ter sido exibido em Locarno e no festival de Havana. Obra pilar da filmografia mundial, chegou a ser citado por cineastas como Martin Scorsese, que o definiu como algo que nunca tinha visto igual em sua combinação de estilos. O ítalo-americano, além de diretor, é preservacionista e criou a The Film-Foundation, organização dedicada à preservação de diversas obras fílmicas oriundas de várias partes do mundo. “A humanidade e a paixão do filme eram muito poderosas. Eu fui dominado pela interpretação visual e paixão política, especialmente no fim de Terra em Transe. Junto com Barravento e Antonio das Mortes, são filmes que não saem da minha cabeça e eu gosto de vê-los todo ano ou a cada dois anos”, afirmou Scorsese em entrevista acerca da experiência de se aprofundar na obra de Glauber, na qual se iniciou em uma mostra especial dedicada ao Cinema Novo no Museu de Arte Moderna de Nova York no final dos anos 1960.

Esse poder da obra de Glauber persiste e poderá ser testemunhado hoje, às 20h30, no Espaço Glauber Rocha de Cinema, na Praça Castro Alves. O Brasil atual é terra em transe.

*Matéria originalmente publicada no Jornal A Tarde dia 14/03/2019

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