sábado, 15 de maio de 2021

Endless Arcade - TFC

 Teenage Fanclub
e
a energia sem fim do pop




NOVO DISCO  Com Endless Arcade, décimo segundo  álbum de estúdio, banda escocesa  apresenta seu pop puro em melodias e letras que nos fazem respirar com mais calma em um presente no qual isso se faz urgente

Por João Paulo Barreto

Há um texto escrito há vinte anos por Nick Hornby no qual ele aborda o lançamento do Howdy!, o então novo disco da banda escocesa Teenage Fanclub. Nele, o autor de Alta Fidelidade, Um Grande Garoto e Febre de Bola fala sobre a proposta de um disco "quase insanamente feliz", e, também, sobre o direcionamento cínico, ressentido e repleto de uma falta de interesse da crítica especializada em relação ao "ensolarado, alegre e entusiástico" Songs from Nothern Britain, álbum anterior da grupo de Glasgow, lançado três anos antes. No texto em questão, publicado na revista Mojo em 2000 e, no ano seguinte, no site Scream & Yell (com tradução de Claudia Ferrari), o escritor referencia Brian Eno quando este reflete sobre como as sensações de alegria, entusiasmo, curiosidade e fascinação presentes na rotina de criação esbarravam no acima citado áspero direcionamento da crítica para com o produto finalizado. E olha que estamos falando de um período no qual a Internet engatinhava e as maldades levianas oriundas das redes sociais ainda ficavam restritas às mentes perigosas dos trolls que as criavam. Reler este texto, hoje, confirma como o Teenage conseguiu escapar de todo sarcasmo e cinismo de uma sociedade marcada por pessoas que acham que essas duas características rimam com inteligência. "Não tenha medo desta vida", canta o refrão da faixa título do novo disco. Quer algo mais direto do que isso?

Neste abril  de 2021, o TFC lançou seu décimo segundo disco de estúdio em 32 anos de carreira. Endless Arcade é um álbum no qual o Teenage Fanclub faz jus à sua premissa de pureza lírica do pop. Mas não confundir tal pureza com ingenuidade ou manuais de autoajuda. O otimismo notório de sua letras se faz presente aqui, mas há as asperezas que nos incomodam. Há o reflexo da dor, também. Logo em sua abertura, uma canção intitulada "Lar" nos faz imaginar se tratar da calorosa sensação de se sentir bem vindo, de se sentir abraçado. Mas, na real, não é sobre isso. É, sim, sobre a noção da perda. A letra, de fato, canta sobre a incerteza de voltar a ser feliz e toda angústia atrelada a essa desesperança. Porém, mágico e belo, o set instrumental de mais de três minutos que encerra a música a partir de sua metade em diante nos acalenta após a pancada inicial de realidade.

Veteranos com energia adolescente: 30 anos de estrada

MUDANÇAS

Duas décadas se passaram desde Howdy!, sétimo álbum da banda citado por Nick Hornby em seu texto para a Mojo. O Teenage Fanclub lançou ainda mais quatro discos (sendo um deles chamado Words of Wisdom and Hope - quer mais provas das intenções positivas desta banda?). Além disso, passou pela saída de Gerard Love, baixista e vocalista, em 2018, mas manteve seus outros membros fundadores de 1989 (e vozes inconfundíveis) Norman Blake e Raymond McGinley nas guitarras, bem como Francis Macdonald na bateria. No lugar de Gerard Love, o já tecladista e guitarrista, Dave McGowan, assumiu o contrabaixo, com a banda dando boas vindas a um novo tecladista, Euros Childs, a partir de 2019.  Chegamos à terceira década do século XXI e a sonoridade otimista somada a letras que, distante da plasticidade falsa e de tons furados de discursos de coach, nos fazem escapar um pouco do peso de uma realidade pesarosa e trágica que vivemos.

FOCO NO SIMPLES

Sim, admito. É verdade que soa clichê citar a simplicidade do pop que sobressaí em uma canção de 2min ou de 2min e meio. Soa clichê, também, citá-la como sendo um clichê. Mas é preciso pedir licença para este pontuar da capacidade singular que tal tipo de canção pode lhe causar. Ao ouvir The Sun Won't Shine On Me, com sua letra composta com apenas seis frases (sendo uma delas o título e o refrão), em uma valsa que te convida a bailar abraçando a si mesmo (sim, pode me chamar de cafona) enquanto ouve nos fones de ouvido o personagem te dizer que "à deriva como gelo no mar, enquanto, com a mente problemática, estou em declínio e percebo que o sol não mais brilhará sobre mim", é impossível não se cativar por tal poder presente na canção. Exagero ao dizer que dá para sentir as ondas de tal mar gelado? Talvez. Mas, no fundo, creio que não.

Norman Blake e Raymond McGinley: três décadas de parceria

Do mesmo modo, as mensagens diretas nas faixas seguintes, I'm More Inclined e Back In The Day, fazem o ouvinte perceber como a música pop é capaz de te embalar por momentos de introspecção (ou de perigosa nostalgia), mas sem deixar de te divertir. Afinal, é para isso que levantamos de manhã, não? Em algum momento do seu dia, você precisa sorrir. E sendo um ateu (ou a toa, como já fui chamado em mais uma fracassada tentativa citada lá no começo de fazerem sarcasmo rimar com sapiência), uma letra no qual o personagem diz que "não encontrou a religião e que nunca precisou dela" por ter colocado sua fé na pessoa que ama... bom, a música fala por si. O que é mais importante do que depositar a fé no amor concreto por alguém para além de qualquer foco em dogmas ou supostas vidas eternas? A vida é apenas uma. Faça-a valer.

E sobre o perigo de se idealizar e romantizar tempos passados, ao final de Back In The Day não surge uma solução para este processo de superar o que ficou para trás, desanuviando a angústia atual. Mas, do mesmo modo, você sorri por perceber a mensagem clara de identificação. E aprende a dar mais um passo à frente, ansiando por um futuro tão bonito quanto este passado que você idealiza.

Ainda dá para sorrir e renovar sua fé e energia positiva a partir do simples ato de colocar uma música nos fones de ouvido. E não é para isso que Música serve? Sim. E não há cinismo, sarcasmo ou menosprezo que tire a verdade disso. Ainda bem.

ENDLESS ARCADE /  TEENAGE FANCLUB
MERGE RECORDS /
VINIL (IMPORTADO) R$230,00  / CD (IMPORTADO) R$110,00 /
DISPONÍVEL EM PLATAFORMAS DE STREAMING


 *Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 08/05/2021


sábado, 24 de abril de 2021

Oscar 2021

 


Streaming 

OSCAR

CINEMA Após quase um ano sem estreias em salas, premiação foca nos lançamentos de plataformas digitais, refletindo período com pouco a oferecer em termos de qualidade, mas ainda com obras que impactam ao refletir tempos atuais e o resgate de fatos históricos

Por João Paulo Barreto

Acontece hoje, a partir das 20h, a 93ª cerimônia de entrega dos prêmios do Oscar. Em um período atípico, a Academia de Artes Cinematográficas e Ciências precisou se adequar. E tais mudanças, em decorrência da pandemia da COVID-19, trouxeram adaptações tanto nos critérios da escolha dos filmes indicados, quanto na forma como se dará a festa. Em relação aos critérios, o ponto principal é a abertura de indicações de obras lançadas unicamente em streaming (plataformas digitais como Amazon, Netflix, etc), o que não era permitido até a edição de 2020. Vale frisar que indicados como Roma, de Alfonso Cuarón, e O Irlandês, de Martin Scorsese, apesar de produções bancadas e lançadas por tais plataformas, tiveram o até então obrigatório período de exibição em salas de cinema naqueles longínquos e, agora, nostálgicos, 2018 e 2019.

A importância do distanciamento social não foi esquecida pela organização da festa do Oscar. Pelo menos em teoria, claro. Assim, em uma não inédita situação, a cerimônia acontecerá simultaneamente em dois lugares distintos. Mas diferente do período ainda nos anos 1950, quando a festa acontecia tanto em Los Angeles quanto em Nova York (um pesadelo logístico para a época), este ano a cidade na costa oeste estadunidense contará com os dois pontos de realização. O primeiro é o habitual Dolby Theatre, onde a entrega dos prêmio já ocorre desde 2002. E, inovando para um período de mudanças essenciais, a premiação também acontecerá na tradicional Union Station, terminal de transporte ferroviário construído em 1939 e que, no decorrer das décadas, se tornou cenário de diversos filmes, além de, atualmente, abranger galerias de arte e restaurantes.

Union Station, Los Angeles

Diante dos baixos índices de audiência observados nas premiações do Globo de Ouro e do Grammy neste começo de ano (sim, a festa só acontece porque anunciantes bancam e eles querem audiência para suas marcas), o Oscar optou por não utilizar transmissões via Zoom (aplicativo de vídeo-conferência) para a entrega das estatuetas, trazendo a reunião para um âmbito presencial reduzido apenas aos indicados e seus acompanhantes. Segundo carta co-assinada e divulgada pelo cineasta Steven Soderbergh, um dos  produtores do evento,  os protocolos anti-COVID trazidos pela Academia prevêem tratar a cerimônia como um set de filmagens, com testes feitos na hora e equipes médicas com instrumentação necessária para exames PCR, bem como toda preparação prévia para evitar aglomerações. Em resumo, com vacinações atualmente na faixa etária dos 16 anos de idade, não é deslocado citar Ed Mota ao dizer que "se eu fosse americano, minha vida não seria assim".


Longas indicados a Melhor Filme


INDICADOS

Mas em uma matéria sobre o Oscar, comentar seus indicados também é importante. Ao citar na linha fina o tal reflexo de um período com pouco a oferecer em termos de qualidade na sua  lista de selecionados, confesso certa dureza na fala. Mas é somente por observar um ano anterior, no qual obras eternas como Parasita O Irlandês foram premiadas e indicadas, que não pude deixar de transparecer tal sensação de desânimo com o quadro geral de indicados.

Neste propósito de definir filmes cujos impactos que justifiquem uma indicação ao suposto "maior prêmio do Cinema", em alguns deles não são encontrados, ao subir dos seus créditos finais, tal percepção. Cito como exemplo Bela Vingança, um até eficiente thriller com raízes no subgênero exploitation da década de 1970, rape and revenge. A obra escrita e dirigida pela britânica Emerald Fennell traz urgente denúncia contra casos de misoginia e feminicídio, mas ao terminar, a sensação de um filme apenas "ok" é inevitável. Importante em sua abordagem, claro, mas não a ponto de figurar entre as supostas oito melhores produções do ano. Do mesmo modo, O Som do Silêncio, longa que retrata um músico que perde sua audição e busca se adaptar àquela nova realidade, constrói para o espectador um apelo naquele drama pessoal que rima efeitos sonoros e a criação de um ambiente diegético para seu público, porém, falta-lhe o impacto necessário que outras obras oferecem.


Frances McDormand em cena de Nomadland


Dentre tais outras obras, cito aquelas cujas sessões confinadas em casa, distante da saudosa sensação de uma sala de cinema, conseguiram causar uma reflexão acerca dos nossos tempos. Dentre elas, Nomadland, filme de Chloé Zhao, que tem Frances McDormand como protagonista (e indicada a Melhor Atriz) a representar o desmoronar de uma vida perdida diante do esmagamento econômico de um país que vende a ideia de "terra da liberdade", mas que, na real, existe para poucos. No papel de Fern, uma viúva que perdeu casa, emprego e o direito de fincar raízes, a atriz duas vezes oscarizada entrega em sua expressão o peso de um século XXI regido pela "uberização" das condições de trabalho e da perda de uma dignidade humana perante a busca pelo capital cruel e crucial para sobreviver.

Em proposta semelhante na ideia do cinema calcado no real, Minari traz Steven Yeun, o primeiro ator asiático a ser indicado ao Oscar, no papel de um agricultor sul-coreano que, nos anos 1980, tenta se firmar com sua família no estado do Arkansas. A obra foca em uma narrativa de introspecção, oferecendo para a audiência a possibilidade de refletir sobre os aspectos da personalidade daquela família, seus rumos dentro de uma rotina na qual sobrevivem como imigrantes em um país altamente xenofóbico, bem como os ecos da perseverança dessa mesma família em nossa própria realidade.

Viola Davis e Chadwick Boseman: preferidos

DUPLA PERFEITA

Nos filmes cujos resgates de fatos históricos e suas recriações norteiam de maneira primorosa suas narrativas, pontuo a força da atuação de LaKeith Stanfield e Daniel Kaluuya no potente Judas e o Messias Negro, obra baseada em fatos reais e que reconta a tensão da luta dos Panteras Negras contra um sistema opressor no racista Estados Unidos do final dos anos 1960. Em uma narrativa que impressiona por sua intensidade e atuações, Kaluuya entrega aquela que pode lhe garantir o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Do mesmo modo, Mank, retrato indefectível da Hollywood clássica da década de 1930, traz um Gary Oldman inspirado (como sempre) na criação do roteirista responsável por Cidadão Kane, e os perrengues que a produção de Orson Welles precisou passar. Sob a batuta de um perfeccionista David Fincher, o filme, para estudiosos da história do cinema, é um delicioso mergulho no glamour plástico e frágil de uma época que não existe mais.

Mas como dupla perfeita na atuação entre os indicados este ano, é imprescindível falar de Chadwick Boseman e de Viola Davis em A Voz Suprema do Blues. Boseman, infelizmente derrotado por um traiçoeiro câncer em 2020, não poderá receber em vida a consagração da quase certa premiação pela sua atuação na pele de um atormentado trompetista que tenta sobreviver de sua música em um mundo de exploração. E Viola Davis, na pele da deusa Ma Rainey, cria para a audiência a percepção exata de quão gigante era aquela voz suprema do Blues, em um título nacional mais do que adequado. Prêmio mais do que concreto, aliás. Façam suas apostas! 

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 25/04/2021






sábado, 17 de abril de 2021

O Amor Dentro da Câmera


Tempo Rei  



CINEMA O Amor Dentro da Câmera, de Lara Beck Belov e Jamille Fortunato, registra o afeto de uma vida inteira compartilhada nas artes e na celebração do amor entre Conceição e Orlando Senna

Por João Paulo Barreto

A casa nos convida a entrar e a nos sentir à vontade e confortáveis. Aconchegante, a luz do sol toca os cômodos do mesmo modo vagaroso como nossos olhos tocam aquele ambiente anfitrião de boas vindas. As paredes, com quadros, livros e memórias vivas, nos abraçam. Memórias vivas, aliás, define o caráter tenro como as lembranças afetivas de duas almas gêmeas serão desnudadas e compartilhadas com a audiência. Tempo e memória. Tempo não linear, mas circular, como define Orlando Senna ao falar de sua relação com a passagem dos anos. Passar das décadas que é ilustrado pela lente das diretoras Lara Beck Belov e Jamille Fortunato, que, a partir da rotina de Conceição Senna e seu companheiro de vida, surge em uma colagem de momentos marcantes em fotos antigas. Registros que destacam a cumplicidade de ambos tanto no aspecto pessoal, quanto dentro da identidade de cinema brasileiro que ajudaram a construir. É nesta brecha que revive momentos que adentramos.

Conceição e Orlando Senna rememoram suas vidas


Orlando Senna, ao aprofundar essa impressão do transcorrer do tempo como um modo circular de passagem, relembra um momento familiar. "No último almoço que eu tive com a minha mãe, pouco antes dela morrer há alguns anos, quando estávamos todos festejando seu aniversário, ela disse, de repente: 'A vida é curta.' E aí, imediatamente, ela repensou e disse: 'Aliás, não. A vida não é curta. A vida é longa, mas é muito veloz.' É essa sensação que eu tenho com relação ao tempo. É que ele é de uma velocidade incrível para a gente. Jovens não notam isso, por exemplo. Para os jovens, o tempo é uma coisa que tem uma velocidade, digamos, normal", explica o cineasta, às vésperas de completar 81 anos de idade, no próximo 25 de abril.

O documentário O Amor Dentro da Câmera permite essa constatação de uma maneira cuja velocidade citada por Orlando se faz perceptível, mas a placidez com que a audiência absorve tal trajetória, nos momentos de revisitas pelo próprio casal, suaviza tal fugacidade dos anos. Orlando e Conceição Senna se conheceram em 1961, quando ele gravava seu primeiro curta-metragem, Feira. A paixão imediata os levaram a uma vida juntos. Nesta vida, participaram de movimentos como o Cinema Novo, o Cinema Marginal, o Nuevo Cinema Latino Americano. Cultivaram amizades com nomes como Fernando Birri e Gabriel Garcia Marques, com quem Orlando co-fundou a Escola de Cinema de Cuba, da qual foi diretor. Nos anos 1970, Orlando co-dirigiu, ao lado de Jorge Bodanzky, Iracema - Uma Transa Amazônica, além de Gitirana, outro marco. Conceição atuou em obras fundamentais do cinema baiano, como O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreira, de Glauber Rocha, e Caveira my Friend, de Álvaro Guimarães. Como diretora, tem três documentários na sua filmografia, além de dois livros, tendo atuado, também, como apresentadora na TV de Cuba, além de lecionado na escola cubana.  

O casal ainda nos anos 1970
 

DESPEDIDA

Conceição Senna, infelizmente, faleceu em maio do ano passado, aos 83 anos. Com sua partida, o filme de Lara e Jamille passa a carregar ainda mais importância como o registro de momentos que se tornaram os últimos da atriz e diretora captados por uma câmera. Em um deles que, por conta dessas coincidências inexplicáveis, se tornou o ultimo registro tanto de todo o processo de produção quanto a última cena na montagem final do longa, o casal se abraça, sentados no sofá de sua casa, pouco depois de Conceição brincar sobre a sensação de, "como peteca", ser jogada para o passado e para o futuro em sua trajetória de vida.

Para Orlando, revisitar, sem Conceição ao seu lado,  O Amor Dentro da Câmera foi uma tarefa difícil, mas que ele, após um tempo, conseguiu fazer.  "São as artimanhas da vida que constroem isso na gente. No início, logo quando ela se foi, eu não conseguia nem ver o filme, porque me emocionava muito. Mas agora eu já posso vê-lo com tranquilidade. E exatamente essa cena... Não só a cena, mas também essa informação que está no filme. Informação que está lá de uma maneira muito sutil. No momento em que ela aparece, agora que eu já consegui ver o filme sem toda a melancolia em cima de mim, eu acho uma coisa muito bonita que tenha acontecido. Principalmente isso (de ser) a última cena do filme, a última cena gravada, a última cena da vida dela," salienta Orlando.

O casal junto às diretoras Lara e Jamille

DOC INTIMISTA

O Amor Dentro da Câmera passou por um processo de construção delicado até se consolidar como um trabalho que capta com esmero a intimidade e a cumplicidade de seus protagonistas. Contemplado pelo edital Rumos Itaú Cultural, o filme recebeu Menção Honrosa Especial na edição desse ano do BAFICI. Mas quando ainda era apenas um embrião, o projeto representou um desafio para Lara e Jamile em se lançarem no registro da vida de Conceição e Orlando. Amigas de longa data do casal, elas se propuseram a captar aquela trajetória, mas sabiam que a história de ambos (que passou por décadas e diversos países, além de nomes de peso do cinema, literatura e teatro), se seguisse por uma estrutura convencional de documentários, poderia se tornar uma tarefa árdua e quase impossível de captação. Além disso, tal mergulho em uma história de vida tão repleta de profundidade poderia trazer para elas, que já tinham uma amizade com ambos, certa insegurança.

Jamille explica: "Nós nutríamos a vontade de fazer um filme sobre eles. Só que as histórias que ouvíamos dos dois, sabíamos que passavam pela América Latina, por outros países, por diversas pessoas e personalidades. Era muita gente e muitos lugares.Ficávamos nos perguntando como iríamos fazer um filme sobre eles tendo que falar com tantas pessoas e ir para tantos lugares. E até que em 2016, ao invés de ficar pensando em como, decidimos começar fazer. Falamos: 'Vamos começar a fazer? Vamos dar um ponta a pé inicial? Acho que quando a gente começar, vamos entender qual filme temos que fazer'", relembra a co-diretora e acrescenta: "(Decidimos) fazer do particular para o geral. Fazer um filme só com eles dois dentro da casa deles. E se formos sair dali, saímos através de imagem de arquivo, de memória".

Lara aborda esse possível sentimento: "A insegurança faz parte da vida. É uma mistura de vontade e medo ao mesmo tempo, mas que, nessa equação, a vontade é muito maior. Então, existe um frio na barriga no fazer. Acho que não só no fazer desse filme, mas é algo do próprio viver, mesmo. Na vontade de realizar, de fazer algo na vida. E, na vida, decidimos contar a história de Conceição e de Orlando. Essa história de amor, essa história do cinema. Para mim, uma coisa que eu sinto, é que essa insegurança e esses medos possíveis foram resolvidos a partir do afeto. A partir do amor. Eu sinto que, para mim, este foi o caminho de resolver isso", finaliza Lara.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 18/04/2021





sábado, 3 de abril de 2021

É Tudo Verdade 2021


 A Função da Lembrança


DOCUMENTÁRIOS  
Com homenagem a Caetano e a Chris Marker, Festival  É Tudo Verdade começa na quinta-feira  sua 26ª edição (e segunda virtual) trazendo
leva preciosa de visões do cinema real

Por João Paulo Barreto

Começa na próxima quinta-feira, dia 08, e segue até o dia 18 de abril, totalmente gratuita, a 26ª edição do Festival É Tudo Verdade. Pelo segundo ano consecutivo, a tradicional mostra com foco no cinema documental acontece de forma virtual, respeitando a necessidade urgente de se manter o isolamento social no sentido de conter o avanço da pandemia. Em 2020, o evento chegou a ser anunciando para o primeiro semestre,  mas foi adiado, acontecendo on line entre setembro e outubro. Neste ano, apesar do formato ainda virtual, sua seleção de 69 filmes será apresentada agora em abril, apenas seis meses após a última edição.  

Amir Labaki, fundador e diretor do festival, pontua a necessidade da realização em meios digitais e salienta o momento de dificuldade econômica do país. "Nós estamos realizando, agora, o segundo festival em streaming por conta da pandemia. É o segundo festival em que sabemos que a crise econômica que atingiu de maneira geral o país, mas, particularmente, a produção cultural, é avassaladora", explica Labaki. Nesse sentido, o diretor da mostra fez questão de citar os nomes de parceiros como o SESC São Paulo, o Spcine, o Canal Brasil e o selo Itaú Cultural, que tornaram possível, financeiramente e de maneira logística, realizar as edições. "O selo Itaú Cultural faz frente a esse esforço  com uma série de projetos muito amplos e muito importantes para apoiar os artistas do país inteiro. E atividades cultuais como o É Tudo Verdade é um deles", frisa.

Animação Fuga, filme vencedor de Sundance, abre festival


ANIMAÇÃO NA ABERTURA

Vencedor do Grande Prêmio do Júri na edição deste ano do Festival de Sundance, Fuga (Flee, 2020), animação documental dirigida pelo dinamarquês  Jonas Poher Rasmussen, traz a história de Amin, nome fictício dado a um amigo do diretor. Amin é um refugiado de origem afegã, que, para salvar a sua vida, precisa sair do Afeganistão em direção a Rússia e, de lá, para a Dinamarca. A opção de se contar tal história através de uma animação fica evidente no sentido de priorizar a segurança e a vida do protagonista. Sobre a importância da dimensão política de um documentário de animação abrir o É Tudo Verdade desse ano, Amir Labaki explana sobre a escolha pontuando que "uma das coisas mais interessantes que está acontecendo no cinema nos últimos tempos é essa porosidade na fronteira entre os gêneros. E a utilização da animação em narrativas documentais tem essa marca, também. E tem várias estratégias que levam cineastas a escolherem fazer uso da animação em documentários", salienta Labaki e completa: "tem essa dimensão política, sim, mas tem, também, uma dimensão de colocar um documentário animado na abertura do É Tudo Verdade, sinalizando essa amplitude do campo documental, que é muito importante fazermos sempre".

 

Cena de Cartas da Sibéria (1958), de Chris Marker - homenagem

HOMENAGENS  E CURTA BAIANO

O título dessa matéria faz referência a uma frase atribuída ao cineasta francês Chris Marker, cujo centenário de nascimento é comemorado em 2021. A citação vem do clássico de 1983, Sem Sol (Sans Soleil), quando a leitura de uma carta creditada a Sandor Krasna (um pseudônimo de Marker) aborda a função da lembrança não como um oposto do esquecimento, mas seu avesso, afirmando que a memória é recriada da mesma forma que a história. Na obra de Marker, essa recriação da memória, as imagens marcantes do passado, é uma construção constante. 

"Era incontornável celebrarmos o centenário de nascimento de um dos raros grandes revolucionários do documentário. Diretor do Carta da Sibéria (1958); Le Joli Mai (1963); O Fundo do Ar é Vermelho (1977); do grande curta La Jetée (A Pista, de 1962), que influenciou tanta gente. Ele que veio da fundação, mesmo. Do estabelecimento do cinema chamado de documentário ensaístico", explica Amir Labaki. Focado na trajetória de Chris Marker, o É Tudo Verdade trará nesse ano a 18ª Conferência Internacional do Documentário, nos dias 7 e 8 de abril, através do site do Itaú Cultural. O evento on line contará com a participação do crítico francês, Jean-Michel Frodon (Le Monde, Cahiers du Cinéma).

Outro nome de peso a ser homenageado é o nosso ilustre santo-amarense, Caetano Veloso, cuja mostra Caetano.Doc trará diversas obras sobre e/ou com a participação do cantor e compositor. "Não precisamos de maiores justificativas para homenagear, celebrar e louvar Caetano Veloso. A mostra desse ano é uma declaração de gratidão a ele. Caetano, neste ano tão duro, tão difícil para todos nós na pandemia, tem cumprido um dos seus papéis históricos mais importantes. Esteve conosco nos alegrando, nos iluminando, se entristecendo junto com a gente de várias maneiras. Das lives que ele fez. Da forma corajosa como ele lembrou, no lançamento de Narciso em Férias, da cruel maneira como foi tratado pela ditadura militar instalada em 1964. É um filme que muito nos honra poder exibir dentro dessa mostra", celebra Amir Labaki.

Cena de Coleçaõ Preciosa, de Rayssa Coelho e Filipe Gama 

Também dentro dessa proposta  de valorização da memória, será exibido um documentário em curta metragem oriundo de Vitória da Conquista que ilustra bem, em tempos nos quais cinematecas perdem investimentos e acervos correm o risco de serem descartados, como a lembrança é crucial para a construção de um futuro rico em Cultura. Coleção Preciosa, filme de Rayssa Coelho e Filipe Gama, aborda a trajetória de Ferdinand WillI Flick, que, durante 52 anos, reuniu uma coleção de itens cinematográficos e, hoje, fazem parte do Museu Pedagógico - Casa Padre Almeida, em Conquista. Rayssa Coelho aprofunda essa valorização. "Na relação da preservação da memória no Cinema e o fazer do sr. Flick, é importante observar que o colecionador visa a preservação. É o objetivo dele. Ele não é um acumulador. Existe uma tentativa de uma prática muito intuitiva de cuidado e, também, de organização dessas coisas que efetivamente ficam sob guarda desta pessoa. Este é o papel do individuo na sua relação com as coisas que, para ele, têm significado e para as quais ele também dá importância. Deveria ser este, também, consideradas as escalas, o perfil da guarda da memória institucional. Afinal de contas, essas instituições são justamente para que não apenas guardem os itens e assegurem a sobrevivência, a possibilidade de existência deles por mais tempo, mas, a guarda de uma memória. Que é muito maior do que os itens que elas podem assegurar alguma garantia", explica Rayssa.

ENCERRAMENTO

Após a consagração do seu filme anterior, Ex Pajé (2018), o cineasta Luiz Bolognesi retorna ao É Tudo Verdade, na sessão de encerramento, com A Última Floresta (2021), longa exibido na Mostra Panorama, do Festival de Berlim 2021. Para Amir Labaki, "trata-se de um filme hibrido que combina documentário e ficção de uma maneira muito harmônica e coesa. E que chama atenção para a tragédia nacional que está acontecendo. Mais uma que está acontecendo nestes dias que estamos, infelizmente, a acompanhar e precisamos combater: a extrema vulnerabilidade das tribos indígenas. Destes que são os primeiros brasileiros. É um filme com um sentido de urgência para exibição e um exemplo do grau de excelência na realização de documentários no Brasil", finaliza.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 04/04/2021








terça-feira, 30 de março de 2021

Liga da Justiça, de Zack Snyder

Foi feita Justiça!

CINEMA Zack Snyder retorna ao filme cuja direção precisou abandonar em 2017 e entrega obra de quatro horas com uma sensação de esmero que confunde-se com a superação do seu próprio luto
 
Por João Paulo Barreto

Cineastas retornarem às suas criações com intenções de corrigir falhas, exorcizar fantasmas internos, sanar comichões individualistas ou por pura e simples vaidade que um envelhecimento na indústria cinematográfica lhes traz, tornou-se algo bastante comum. Vide Ridley Scott que, à época,  sem a autoridade diante do corte final de Blade Runner (1982), retornou à obra anos depois, já consagrado, para inserir novos elementos. Ou George Lucas a alterar elementos em Star Wars (1977); Spielberg fazendo o mesmo em E.T. (1982) ou Coppola recriando sua obra mais insana com duas novas versões para Apocalypse Now, sua imersão infernal de 1979, (e, recentemente, com o terceiro Godfather, de 1990). Do mesmo modo, versões estendidas se tornaram um novo mercado de entretenimento doméstico quando uma mais completa (e ainda mais excelente) trilogia O Senhor do Anéis (2001-2003) foi lançada em blu-ray. Com Liga da Justiça (2017), a situação foi um pouco mais além dos exemplos e das situações citados. Mas, ainda assim, os mesmos cabem dentro de um processo reflexivo não somente como crítica da obra em sim, mas para entender os percalços de sua criação e necessidade de sua recriação pelo seu autor original.


Victor Stone: personagem do Cyborg melhor desenvolvido


Lançado em 2017, após uma série de problemas de âmbitos criativos e pessoais, a continuação imediata do tão esperado encontro visto em Batman v. Superman (2016) passou por diversas refilmagens e outros problemas de produção que tornaram seu orçamento quase inviável. Acrescente a isso a tragédia familiar sofrida pelo diretor Zack Snyder, cuja filha, Autumn, cometera suicídio enquanto o cineasta se dedicava às gravações do longa. Tal fato o levou a abandonar o projeto e não finalizá-lo. O posto foi, então, ocupado pelo diretor de Vingadores (2012), Joss  Whedon. O resultado, bem aquém do esperado, trouxe além de problemas visuais constrangedores (como a já notória face digitalizada de Henry Cavill); entraves narrativos em uma história mal desenvolvida, repleta de gags que tornavam seu humor rasteiro, bem como personagens cujos arcos dramáticos incompletos  incomodavam (no caso, o mais evidente era o do personagem de Victor Stone, o Cyborg vivido por Ray Fisher).

Durante os três anos seguintes, uma corrente virtual de fãs criou um movimento em prol do lançamento do filme inicialmente pensado por Snyder. Após o período de luto pela perda da filha, o cineasta se debruçou sobre o material captado e decidiu, com o aval da Warner Bros. e o suporte do Canal HBO, dar vazão a uma versão de quatro horas que, agora, estreia no canal por assinatura. E a impressão de um trabalho realmente bem feito não poderia ser melhor.


Outro personagem a ter sua história melhor desenvolvida é o Flash


LUTO RESPEITADO

Ecoando, talvez, a sua própria tragédia pessoal, Snyder traz na história que acompanha os imediatos acontecimentos da morte do Super-Homem, um tom de pesar que desenha visualmente, a partir de um grito de dor, todo o significado para a perda do maior herói daquele universo fantástico. Tal grito, e os resultados oriundos dele, dão inicio, em uma elipse surpreendente que aborda diversos núcleos narrativos da trama,  à história da busca de Bruce Wayne (Ben Affleck) pelos integrantes do super grupo de pretende criar. Neste ponto, é válido citar como o desenvolvimento mais parcimonioso do roteiro assinado por Chris Terrio (de Argo), diante de uma metragem mais alongada, permitiu ao diretor de 300 um aprofundar nas relações de cada herói. Assim, conseguimos perceber como a presença de Arthur Curry (Jason Momoa) no vilarejo da congelada Islândia tem contornos ao mesmo tempo mundanos (coleta do dinheiro de Bruce) e de teor sagrado perante sua aura heróica (cânticos proferidos pelas mulheres do lugar).

Do mesmo modo, todo citado arco centrado no personagem vivido por Ray Fisher, o Cyborg, aqui, tem sua trágica história desenhada de maneira mais detalhada, o que colabora para a profundidade de sua participação na trama. Tal trama, inclusive, apesar de manter o mesmo narrativamente frágil  vilão de CGI  da versão de 2017, tem sua brutalidade multiplicada em um contexto de invasão que, em um ritmo de ação empolgante, torna o longa assinado por Joss Whedon quase que em um trailer mal feito. Vide, por exemplo, toda cena  da chegada do Lobo da Estepe ao lar das Amazonas, cuja sequência de fuga e batalha já inicia a obra em um só fôlego. A mesma impressão encontramos na narração de um flashback contado pela personagem de Diana Prince (Gal Gadot), a Mulher Maravilha, acerca da primeira tentativa de invasão do notório vilão dos quadrinhos Darkseid, aqui, efetivamente inserido como uma possível (porém improvável) continuação da história. Toda a sequência é de uma beleza visual impar, que remete bem aos arcos desenhados por George Pérez nos clássicos quadrinhos da DC.

O clássico uniforme negro da saga O Retorno do Super-Homem 


VOLTA DOS MORTOS

E já que falamos da presença de um respeito ao luto pela morte do Super-Homem (desculpe a grafia antiquada do nome  - sou leitor dos anos 1990), Zack Snyder consegue criar na inevitável questão de trazer um herói à vida (algo já clichê nos quadrinhos) uma emotividade genuína ao abordar o luto de Lois Lane (Amy Adams) pela perda de seu amado Clark Kent. Assim, em todo o contexto experimental que o grupo de heróis coloca em prática na busca pelo ressuscitar de Kal-El, a conveniente presença da personagem da repórter do Planeta Diário no local perde a artificialidade e banalidade trazida na versão anterior (trazer as "big guns", como disse Batman) para uma questão voltada ao superar da perda e da negação de uma vida que a mulher buscava  esquecer.  E, convenhamos, ver o kryptoniano surgir com um rosto sem as constrangedoras inserções digitais do anterior já é um alivio. Estão lá, ainda, claro. Mas bem mais sutis.

Na percepção do longa como um trabalho construído com um apuro paciente diante de detalhes na evolução das peças vivas do roteiro, o espectador dessa nova versão trazida por Snyder (seja tal pessoa iniciada nos quadrinhos ou não) vai se sentir, finalmente, recompensado diante um filme cujo aspecto obrigatório da diversão casa de foma exata com o tom trágico que o Universo DC no cinema parece querer carregar sempre consigo. Na surpreendente sequência final, inclusive, um vislumbre muito empolgante de como tal abordagem utilizando a liberdade criativa e visual dos quadrinhos pode seguir em paralelo ao cinema.

Zack Snyder iniciou a projeção agradecendo pessoalmente pelo afinco dos espectadores em pedir pela existência de seu corte final para o filme. Optou pela divisão de sua trama em capítulos, como na leitura de um livro (ou como um passar gradativo do tempo em sua ação de superação da dor). Ao final, inseriu um epílogo e uma dedicatória a Autumn, a filha que perdera tão precocemente. A impressão é a de um trabalho que serviu ao diretor como exatamente o fechar de uma página dolorosa de sua vida. E ainda fez a alegria de muitos apreciadores do gênero.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 30/03/2021



sábado, 13 de março de 2021

7º Festival de Cinema Baiano (FECIBA)

 

Bem-vindo de volta, 

FECIBA!


AUDIOVISUAL  Após hiato de cinco anos, Festival de Cinema Baiano retorna em sua sétima edição celebrando, com 50 filmes entre longas, médias e curtas,
a produção do estado na última meia década

Por João Paulo Barreto

Inteiramente gratuita e on line, começa amanhã, e segue até o dia 26 de março, a sétima edição do Festival de Cinema Baiano (FECIBA). Mas hoje, domingo, às 18h30, já tem a abertura  oficial no youtube.com/feciba, com show da cantora e compositora Eloah Monteiro.  O evento, que retorna depois de cinco anos sem acontecer, traz em sua sétima edição um importante revisitar de parte da filmografia baiana realizada nesse período. Com dez longas, dez médias e trinta curtas-metragens na grade de filmes selecionados, o festival idealizado pelos cineastas Edson Bastos e Henrique Filho se reinventou. Para Edson, o período sem acontecer, além da necessidade de uma adaptação por conta da pandemia, serviu como uma forma de formatar o festival.


O produtor-executivo Edson Bastos
"O FECIBA, presencial ou on line, quando ele retornar presencial, não pode mais ser da forma como era antes por diversos motivos. Porque já surgiram várias problemáticas, vários outros anseios que precisávamos arcar neste evento. E um deles é a representatividade. A pessoa se enxergar nas telas e na organização de uma forma geral", explica Edson. Uma das mudanças atreladas à versão on line do festival está na composição da equipe de curadoria.  "A diversidade e a quantidade de pessoas na curadoria foi um dos pontos mais positivos. Foram onze de todo o estado. Pessoas diversas, de faixas etárias diferentes. Pessoas de classes sociais diferentes, de raças diferentes e de sexualidades diferentes. Porque a realidade da gente era  observar esses olhares. A Bahia é muito ampla, muito múltipla. Assim como o cinema baiano, também. Nada melhor do que colocar essas pessoas para dialogar, para entender o recorte que poderia dar dos filmes que foram lançados nesses últimos cinco anos", salienta o produtor-executivo do festival.

ATIVIDADES E SELEÇÃO

Dentre os destaques de longas-metragens, Diários de Classe, de Maria Carolina Silva e Igor Souza, filme de 2017, ainda impacta bastante sua audiência na reflexão oriunda do acompanhar de três mulheres em seus processo de alfabetização já na fase adulta; Àkàrà - No Fogo da Intolerância, urgente documentário de lançado em 2020, traz em seu cerne a denúncia dos crimes de perseguição e intolerância contra religiões de matriz africana em um Brasil, infelizmente, neopentecostal, refém politicamente de igrejas, e racista. No resgate da memória de Caymmi, Dorivando Sarará - O Preto que Virou Mar, de Henrique Dantas, é um importante registro da trajetória desse músico que cantou não só a Bahia, como, também, seus credos, amores e as raízes africanas.


Dela, curta dirigido por Bernard Attal


Na seleção de médias e curtas metragens, Entre o Céu e o Subsolo, média de 2019 dirigido por Felipe da Silva Borges, relata o peso esmagador da especulação imobiliária no bairro da Vitória, metro quadrado mais caro de Salvador, e local onde o extinto Colégio Estadual Odorico Tavares sofreu por anos as ameaças de fechamento para cessão do seu terreno. O média, hoje, funciona como um epitáfio simbólico para o valor dado à educação pública de qualidade. Nos curtas, destacam-se três produções recentes. Rebento, curta dirigido por Vinicius Eliziário, que traz o encarar precoce das responsabilidade da vida adulta a partir de uma paternidade inesperada, bem como uma análise da ausência desse afeto paterno na vida de um jovem; 5 Fitas, trabalho dirigido por Vilma Martins e Heraldo de Deus, que trazem um olhar sobre a tradição da Lavagem do Bonfim a partir de um foco infantil em encontro às origens do cortejo pela experiência matriarcal;, e Dela, curta de 2018 dirigido por Bernard Attal, que, além de uma singela homenagem a Nelson Mandela, é uma tenra, porém direta, reflexão sobre a autoestima infantil e a identificação com ideais definidores de caráter. 


Rebento, curta Vinicius Eliziário

Nas atividades, com variado leque de oficinas e debates, o sétimo FECIBA, evento realizado em conjunto pela Voo Audiovisual e pelo Núproart - Núcleo de Produções Artísticas, com o suporte financeiro da Lei Aldir Blanc, trará a presença do veterano diretor Orlando Senna em uma oficina de Roteiro; a produtora Solange Lima ministrará oficina voltada para Desenho de Produção; a cineasta Cecília Amado ministrará a oficina Direção e as Sete Artes do Cinema; e fechando o ciclo de oficinas, o ator, roteirista e diretor, Thiago Almasy, participa com Produção Audiovisual para a Internet.


5 Fitas, curta de Vilma Martins e Heraldo de Deus


FUTURO


O produtor executivo Henrique Filho pontua o quanto esses encontros presenciais em debates e oficinas eram importantes para o FECIBA nas suas seis edições anteriores. Além disso, o cineasta observa, também, a edição virtual como uma oportunidade de reinvenção, mas, ainda, esperançoso para futuras edições presenciais. "Com o contexto da pandemia e a possibilidade dos eventos online, se tornou uma oportunidade muito boa para o FECIBA de fazer uma retomada em um formato diferente. Acho que o nosso desejo para o futuro vai muito na perspectiva de voltar à essência do festival. As mostras que a gente executava antes e que não conseguimos realizar agora, e que é muito a cerne, a cara do FECIBA. E principalmente o fato de ser (anteriormente) um evento presencial. Ter se tornado um ponto de encontro de cineastas e realizadores para trocar ideias, fazer contatos, network, para ter contato com o público. Isso é um desejo que se potencializa agora nesse momento", explica Henrique.


O produtor-executivo Henrique Filho


Como parte já tradicional do calendário cultural da cidade de Ilhéus, onde o festival acontecia antes de seu hiato de cinco anos, o FECIBA cumpria um papel importante no fomentar e propagar da produção baiana. Sobre voltar a essa posição nos próximos anos sem pandemia, Henrique é esperançoso. "Não temos muito como prever politicamente os próximos acontecimentos, por que estamos vivendo uma novela louquíssima, com vários acontecimentos que estão mudando os rumos. Não sabemos o que vai acontecer ainda em relação à pandemia, à vacina, aos eventos presenciais, e como ficará a história do FECIBA com isso daí. Mas essa edição, visualizando esses 50 filmes que estão representando esses últimos cinco anos sem o FECIBA, já traz na gente todo o desejo de voltar a fazer o evento presencialmente. E de voltar a ser calendário de Ilhéus", finaliza Henrique.


De qualquer modo, bem-vindo de volta, caro Feciba. Fez falta!


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 14/03/2021



sábado, 6 de março de 2021

Transamazônica - Uma Estrada para o Passado


Rumos Perdidos


TELEVISÃO Com a série Transamazônica - Uma Estrada para o Passado, Jorge Bodanzky revisita a rodovia que serviu como pano de fundo para Iracema, bem como simbolizou o desastre brasileiro na ditadura militar

Por João Paulo Barreto

No Brasil do "passar a boiada", país da exploração irracional e desenfreada da Amazônia em nome de um  "progresso" que só existe para poucos, a História se repete de maneira sempre trágica. Jorge Bodanzky, que dirigiu, em 1975, ao lado de Orlando Senna, o clássico Iracema ­- Uma Transa Amazônica,  conhece essa repetição e a aborda de maneira ímpar, junto ao co-diretor Fabiano Maciel, em Transamazônica - Uma Estrada para o Passado, série em seis episódios atualmente em  exibição pelo canal HBO Mundi.  

Em sua cena de abertura, Transamazônica - Uma Estrada para o Passado, traz uma fala de Bodanzky sobre o aspecto faraônico da obra iniciada no governo do sanguinário Médici. Obra esta que ligava o nada a lugar nenhum, "conectando os famintos do nordeste aos miseráveis do norte". Na sua fala, o cineasta aborda o revisitar a alguns dos pontos daquela estrada inacabada, desde seu quilometro zero, em Cabedelo, na Paraíba, passando por diversos outros locais simbólicos daquele trajeto em direção ao Norte do Brasil. A constatação trazida pelo diretor na entrevista exclusiva ao jornal A TARDE é de que, após diversos retornos seus à Amazônia, à frente deste novo e de outros trabalhos anteriores, aqueles problemas que o seu filme de 1975 destacavam permanecem os mesmos quase meio século depois.

Jorge Bodanzky - Foto de Marcus Leoni - FolhaPress


 "Eu visitei a Amazônia muitas vezes nesse período todo. São 45 anos. E o que eu observei, a partir da primeira vez, é que o os problemas que o Iracema coloca, todos, todos sem exceção, só aumentam. A questão do menor de idade na prostituição, o trabalho escravo, a questão da ocupação do solo, a questão da madeira, os grandes projetos. Todos os temas que o Iracema aborda só cresceram. Eles só aumentaram e continuam aumentando", explica Bodanzky.

PERSONAGENS

Para além do asfalto e do barro que se encontram nos trajetos de suas construções tanto narrativas quanto geográficas, Transamazônica - Uma Estrada para o Passado carrega boa parte de sua força em seus personagens e no modo como seus encontros se apresentam para a audiência. Desde o equilíbrio entre a questão pragmática e científica do registro dos fatos a partir de um historiador que detém vasto acervo tanto material quanto imaterial em sua ligação histórica da estrada, até as questões de fé de um padre e sua congregação em um dos municípios existentes na região, esse encontro com tais figuras enriquecem a série e denotam o denso trabalho de pesquisa. 

"Foi um longo, longo trabalho de preparação. Foi uma equipe de preparação, com o produtor Nuno Godolphim, que viajou durante um bom tempo para achar esses personagens. Nós queríamos mostrar a história da Transamazônica com o testemunho das pessoas que vivem lá. Não adianta falar as coisas pela a gente, apenas. Queríamos que a estrada falasse por ela mesma. E quem é a estrada? A estrada são as pessoas que moram lá. Então, foi um longo e minucioso processo de se escolher esses personagens. Achávamos que cada um, da sua maneira, poderia contar um aspecto dessa história", pontua o diretor.



Depoimentos: Equilíbrio entre pessoas regidas pela fé e pela razão

O produtor Nuno Godolphim apresenta, também, um pouco desse processo, trazendo uma estruturação de cada um dos seis capítulos da série. "Nos três primeiros episódios, ela apresenta essa relação com passado, esses grandes problemas históricos. A partir do quarto, ela dá uma virada  Começamos a sair da estrada e nos aproximar dos problemas de perto. Ela vira quase um thriller. Já no quinto episódio, ainda fora da estrada, conhecemos as populações indígenas. A série vai ter uma coisa mais lírica para lidar com essas populações. E o sexto é esse encerramento lá no fim da estrada onde a floresta não deixou que os militares seguissem a construindo até o Peru, como eles gostariam", explica o produtor.  

PASSADO E PRESENTE

Na série, a citada reflexão histórica em relação ao modo cíclico como os fatos se repetem, torna-se evidente quando observamos todo o planeta olhar com indignação para a destruição amazônica, exceto aqueles que dizem nos governar, que seguem com seu projeto de destruição definido pelo "passar a boiada". Bodanzky, com seus quase cinquenta anos de constante contato com a Amazônia, criva: "Você fala do momento agora, em que a Amazônia só é citada quando tem grandes tragédias. Eu vou até um pouco mais adiante. Acho que a Amazônia é uma tragédia permanente. Ela nunca deixou de ser uma tragédia. Infelizmente. Esses problemas todos se alternam, mas estão sempre presentes", esclarece.

Marco zero da finada rodovia, na da região de Cabedelo (PB)

Em Iracema - Uma Transa Amazônica, um personagem simbólico é o Tião "Brasil Grande", interpretado com vigor por Paulo Cesar Pereio. Com seu discurso ufanista, falacioso e frágil, o caminhoneiro aborda o "progresso" como sendo mais importante que a natureza. A rima trágica com o discurso oportunista e covarde da atualidade é dolorosa. "Os Tiões de hoje são os garimpeiros. São aqueles que falam as mesmas coisas que falava o Tião em cima do caminhão. A política oficial deste governo é exatamente aquilo que o Tião fala. O projeto dos militares que construíram a Transamazônica foi a base de todos os projetos que vieram depois. Mesmo nos governos civis e, principalmente agora, de novo, com uma visão dos militares sobre a ocupação da Amazônia. É a mesma. Não mudou nada. Na cabeça das pessoas que planejaram a Amazônia durante a ditadura militar nos anos 1970, é a mesma (visão). Veja o que o general Mourão está falando. É a mesma coisa, hoje. Absolutamente a mesma. Em 50 anos, não conseguiram enxergar a Amazônia de uma maneira diferente", finaliza Jorge Bodanzky.   

O medo da tragédia que se anuncia não somente com a constante destruição da Amazônia, mas com a combinação do fracassado projeto militar da Transamazônica ecoando junto ao genocida projeto de Brasil atualmente em curso, é palpável. Olhar para o passado, aprender com essas tragédias e não repeti-las é urgente. Desesperançoso e inalcançável diante de tanta ignorância , admito, mas urgente.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 07/03/2021






terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

XVI Panorama Internacional Coisa de Cinema


Virtual Panorama



FESTIVAL  Adaptado à  nova realidade, tradicional Panorama Internacional Coisa de Cinema inicia hoje sua 16ª edição de maneira virtual, com sessões e debates acontecendo on line

Por João Paulo Barreto

Começa hoje, e segue até a próxima quarta-feira, a décima sexta edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema. Se estivéssemos em um período fora de uma pandemia, a tradicional mostra teria acontecido em outubro/novembro do ano passado, no Espaço Itaú Glauber Rocha, com sessão de abertura lotando as três salas (e com a quarta sala sendo liberada, pois teria muita gente). Como sempre aconteceu, após a sessão, um debate riquíssimo e uma festa repleta de sorrisos, boas vibes e música no salão térreo do cine Glauber, antigo Guarani, celebraria mais um ano de cinema brasileiro.

Esse texto pode parecer começar como em uma reminiscência, um lamento, mas o simbolismo de ver aquelas salas lotadas, ano após ano, bate pesado ao perceber que 2020 foi o primeiro que isso não aconteceu desde muito tempo. Mas não é um lamento, esclareço. O Panorama, assim como diversas outros festivais, resiste.  Seguindo um novo padrão de normalidade, a mostra se transfere para os espaços virtuais da internet, mas mantém a mesma qualidade em sua seleção de filmes, debates e consonâncias com um pensamento crítico, social e cinematográfico. Principalmente quando a necessidade desse pensamento crítico se torna tão importante neste insano começo de nova década.



Cláudio Marques, co-diretor do festival junto com a cineasta Marília Hughes, observa os desafios das adaptações pelas quais precisaram passar o Panorama em sua versão on line. "Transpor o Panorama para o formato mobilizou outras estratégias e sentidos. Primeiramente, passamos a lidar com um território muito mais amplo. E isso tem tanto um lado positivo quanto desafiador. Se antes o Panorama era um festival pro público baiano, agora ele se torna um evento nacional e pode alcançar pessoas em todo o território nacional, desde que elas tenham computador ou celular e uma boa internet", afirma Cláudio em relação à ampliação de uma audiência para além da sala de cinema que a edição alcançará.

BRASILEIROS

A seleção de filmes brasileiros que a mostra traz para as Competitivas Nacionais de Curtas e Longas    revela uma diversidade de trabalhos realizados durante os últimos meses e aponta um norte para um futuro no qual o cinema feito no Brasil precisará ser ainda mais de resistência. Distante de qualquer clichê, essa afirmação é uma constatação diante dos atentados que essa indústria passou a sofrer de 2019 em diante. Cláudio observa um perfil menos ficcional nos filmes inscritos. "Senti que recebemos menos ficções esse ano. Achamos, ainda, que se trata de um efeito provocado pelo represamento das obras em escala mundial. Produtores e diretores aguardam que voltemos ao “velho anormal”. Temi que já fosse um reflexo da desordem provocada por Bolsonaro, mas creio que sentiremos isso, mais fortemente, a partir do ano que vem", explica o diretor.

Filho de Boi, de Haroldo Borges e Ernesto Molinero

Dentre as ficções selecionadas, destacam-se produções da Bahia, como Filho de Boi, de Haroldo Borges e Ernesto Molinero, a contar a história de um garoto e sua relação de encantamento com o circo; Eu, Empresa, de Leon Sampaio e Marcus Curvelo, filme reflexo da geração youtuber no qual Curvelo traz seu alter-ego, Joder, para mais uma tentativa de deixar a sina de perdedor  para trás; e Voltei!, da premiada dupla Glenda Nicácio e Ary Rosa, aqui, abordando em uma atmosfera teatral, em um único ambiente, um momento decisivo para o Brasil e para uma família em reencontro. Também da Bahia, serão exibidos os documentários Rio de Vozes, de Andrea Santana e Jean Pierre Duret, impactante relato acerca da urgência na preservação do Rio São Francisco; e O Amor Dentro da Câmera, de Jamile Fortunato e Lara Belov, que presta uma bela homenagem ao amor de décadas e à vida em parceria que tiveram Orlando e Conceição Senna.

Rio de Vozes, de Andrea Santana e Jean Pierre Duret

Dentre os curtas metragens, destaque para O Barco e o Rio, trabalho amazonense que aborda uma relação familiar conturbada e com anseios de fuga; 5 Fitas, filme de Heraldo de Deus e Vilma Martins a pintar belo retrato de uma religiosidade que resiste ao tempo nessa Bahia que vai perdendo raízes, e Ventania no Coração da Bahia, de Tenille Bezerra, documentário sobre a festa de Iansã. Dois filmes que trazem um retrato baiano de um período que parece ter sido há muito tempo, mas que se anseia por ter de volta.

HOMENAGEM

A cineasta, atriz e escritora Conceição Senna, falecida em 2020, é a homenageada dessa edição do Panorama. Para Cláudio, a importância da homenagem traz em seu peso um reconhecimento do legado deixado por ela e a importância desse mesmo legado para as novas gerações. "Conceição faz parte de uma geração muito corajosa. Hoje, temos dificuldades imensas, mas já conhecemos muitos caminhos já trilhados anteriormente. Temo que a nova geração não reconheça a importância dos que estão indo, nos deixando. É um problema agudo em nosso país: a falta de memória e reverência aos que já tanto lutaram. Conceição, ainda por cima, sofreu os obstáculos por ser mulher. Atriz, diretora, apresentadora, dona de um sorriso belíssimo, uma gana de vida incomensurável! Fica aqui o nosso respeito e gratidão por ela!", celebra Cláudio.

O Amor Dentro da Câmera, de Jamile Fortunato e Lara Belov

LEI ALDIR BLANC

Com o incentivo da Lei Aldir Blanc, votada e aprovada graças aos esforços da oposição na câmara e senado federal, o festival pôde acontecer nesse começo de 2021. "A Lei Aldir Blanc trouxe um respiro fundamental em tempos muito difíceis. Além de trabalho, trouxe possibilidade de sobrevivência para todo um setor severamente ameaçado. Sobre o futuro? Sou e tenho que ser otimista até como forma de sanidade mental. Os editais são formas importantes, mesmo que imperfeitas, de democratizar o acesso aos recursos. Eles precisam de continuidade e regularidade, precisam ser anuais, algo que nunca aconteceu na Bahia, por exemplo", alerta Cláudio.

O Panorama segue divulgando uma produção feita no Brasil e no mundo em curtas e longas metragens. Segue discutindo o Cinema. E o mais importante: segue resistindo em um período em que o Cinema, a produção cinematográfica e a indústria cultural têm sua importância e relevância questionada por ineptos que "nos governam".


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 24/02/2021