sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Era uma vez... em Hollywood


Cinéfila e Histórica reimaginação


Com Era uma vez... em Hollywood, 
Tarantino faz justiça poética em tributo a Sharon Tate e ao cinema

Por João Paulo Barreto

Em determinada passagem de Easy Riders, Raging Bulls, definitivo relato da Hollywood no período que se estende entre 1969 e 1980, o autor Peter Biskind aborda o final dos anos 1960, após o assassinato de Sharon Tate, grávida de oito meses, e de mais três de seus amigos, em uma casa em Beverly Hills, em agosto de 1969. Seu resumo, apesar de macabro, define bem a atmosfera de realidade amarga deixada pela Família Mason e seus crimes. Lá, Biskind escreveu: “Havia uma sensação de final, de que uma Era estava terminada. De que as pessoas haviam se dado bem por um tempo e que, para quem tinha inclinações apocalípticas, o Anjo da Morte não tardaria a colocar tudo em seus devidos lugares”.

Apesar do peso profundo em sua base histórica, sabendo que os crimes cometidos pela gangue de Mason são o pano de fundo de Era uma vez... em Hollywood, o diretor e roteirista  Quentin Tarantino não deixou que tal atmosfera perpetrasse seu novo trabalho de maneira a torná-lo fúnebre ou desrespeitoso com a memória das vitimas. Pelo contrário. Ao final, a beleza triste e pesarosa deste seu nono longa é o que faz o seu público respirar profundamente após a catártica vingança que ele insere em sua reimaginação da História.

Não é novidade o fato de que a cinefilia de Tarantino é o que o estimula na criação de seus roteiros. Seja na oportunidade de escalar heróis de sua juventude como Pam Grier, Sonny Chiba e David Carradine, ou, ainda, na ousadia precisa de reescrever a história de maneira mais justa e catártica como fez em Bastardos Inglórios e em Django Livre. Dessa vez, porém, o destaque que essa cinefilia possui na criação de seu novo roteiro torna a imersão, aqui, um exercício de conhecimento do cinema e da cultura pop como um todo nos anos 1950 até a década de 1960, que terminara como o agourento período citado por Biskind em seu documental livro.

Dalton e Booth conferem os populares seriados de TV

Porém, mesmo com esse peso histórico e brutal em suas linhas, Tarantino conseguiu dar ao seu público uma maneira recompensadora e mais justa de revisitar aqueles fatos. E é de modo não somente mais justo, mas tocante e emotivo que, a partir da tragicidade na vida da atriz Sharon Tate, que o diretor de Pulp Fiction volta a reescrever fatos reais neste novo trabalho. E, tendo a cinefilia e a cultura pop como norte, é neste caminho que a sua visita à cidade do cinema estadunidense em 1969 é construída.


CINEMA DENTRO DO CINENA

O foco dessa recriação está na trajetória de Rick Dalton (DiCaprio), ator de uma série televisiva de faroeste que tenta adentrar em Hollywood como astro de cinema. Inseguro em relação ao seu próprio talento, Rick tem nas sequências onde o vemos atuar uma gradativa evolução dessa autoestima e confiança.

Em seu roteiro, Tarantino insere as participações de Rick em vários trabalhos de atuação de modo paralelo às suas constantes lutas intimas contra a insegurança e ansiedade. Além disso, na figura de seu amigo, assistente e dublê de cenas, Cliff Booth (Pitt), uma sólida presença no sentido de lhe fazer sentir-se mais seguro de sua capacidade como ator. “Você é o grande Rick Dalton! Não se esqueça disso,” afirma Booth.

No entanto, para o espectador, perceber o personagem chorando após um diálogo com uma atriz mirim durante um intervalo de gravação, ou voltar a se emocionar ao ser elogiado por entregar “a melhor atuação que ela já presenciou na vida” (uma atriz de oito anos, friso), a ideia de quão patética e de fácil influência é sua condição se torna óbvia e hilária, impressão propositalmente inserida por Tarantino. E ao brincar com tais frustrações, como quando vemos os papeis perdidos por Dalton, como o de Hilts, pilar de Steve McQueen em Fugindo do Inferno, o cineasta confirma essa frágil autoestima de seu protagonista. Mas vê-lo ressurgir para o sucesso comercial a partir de renegados faroestes italianos que consagraram nomes como o de Clint Eastwood é de uma sutil ironia que o roteirista não deixa passar.

Rick Dalton (DiCaprio) vive vilão em mais um faroeste da TV

Aliás, a parceria entre Booth e Rick ilustra, a partir da lente de Tarantino, uma precisa reconstrução daqueles dias no final dos anos 1960. São diversas as maneiras em que aquela recriação é feita, e percebê-las se torna um atrativo à parte para quem investe nas quase três horas de projeção. Desde as várias marcas de produtos enlatados a lotar os armários da cozinha de Booth aos momentos nos quais ambos se vêem diante da TV assistindo seriados como FBI, até às placas publicitárias nas ruas por onde Booth dirige após deixar seu amigo e chefe em casa. Todos os elementos em cena desenham de maneira exata o período.

Este último exemplo, inclusive, serve de apoio para uma percepção do modo de direção que Tarantino trouxe aqui. A calma como ele constrói sua narrativa, ao exibir longas sequências nas quais apenas vemos personagens dirigindo do ponto A ao B, entrega exatamente essa ideia de construção parcimoniosa diante da catarse explosiva de seu final, uma vez que é justamente em um desses trajetos que Booth encontra uma das integrantes da Família Mason, momento em que Tarantino brinca com a expectativa do espectador na preparação do terreno para seu sanguinolento desfecho.

Booth confere os integrantes da Família Mason

HOMENAGEM A TATE

Dentro do citado aspecto emocional que o filme traz a personagem de Sharon Tate,
é precisa a opção de Tarantino em homenagear a atriz assassinada pelo grupo liderado por Charles Manson em 1969. Grávida de seu marido, o diretor Roman Polanski, Tate tinha apenas 26 anos quando foi esfaqueada e morta na invasão de sua casa pelos seguidores de Mason. Tarantino cria um emotivo tributo à jovem em alguns belos momentos, como quando, ao inseri-la visitando o cinema local para ver uma sessão de Arma Secreta contra Matt Helm, filme estrelado por Dean Martin que contava com a presença de Sharon Tate, destaca o encantamento da jovem, vivida aqui por Margot Robbie, por aquele universo glamouroso que se tornara fatal para ela.

Margot Robbie e a exuberância de sua Sharon Tate

Naquela imaginada visita ao cinema, as palmas que ela escuta durante as suas breves cenas de luta (coreografadas por Bruce Lee) ou os risos diante de sua atrapalhada personagem nas interações com Martin, dão àquela Tate ficcional uma tenra maneira de saudar a alegria real que a jovem teve ao fazer parte daquele ambiente.

Na gráfica e brutalmente chocante sequência que Tarantino cria como vingança contra os assassinos da atriz, uma espécie de catarse, de entranha sensação de regozijo ao ver o que lhes acontece surge. É a mesma sensação que temos como quando Hitler foi fuzilado em Bastardos Inglórios. Uma maneira de criar uma realidade alternativa que possa nos colocar em pausa, de algum modo distantes dos fatos covardes que aconteceram, nem que seja por breves momentos dentro da sala de cinema. O abraço de Sharon em Rick concede um pouco desse conforto. Ao menos aqui, o tal Anjo da Morte chamado Mason se reduziu à sua insignificância devida.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 16/08/2019

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

MIMB – Mostra Itinerante de Cinemas Negros – Mahomed Bamba


Imprescindíveis Cinemas Negros


Com ampla programação, a cinematográfica Mostra Itinerante Mahomed Bamba
se potencializa em sua segunda edição 

Por João Paulo Barreto

Começa na próxima quarta feira, dia 14, e segue até o domingo, dia 18, a segunda edição da MIMB – Mostra Itinerante de Cinemas Negros – Mahomed Bamba. Com um imprescindível foco voltado para as produções de cineastas afrodescendentes do Brasil e de outras partes do mundo, a mostra passará por sete bairros de Salvador, trazendo sessões simultâneas que acontecerão em oito espaços culturais.

Durante os cinco dias da mostra, serão exibidos mais de 70 filmes entre curtas e longas metragens distribuídos por 18 sessões a serem realizadas em Ilha de Maré (Comunidade Quilombola de Bananeiras); no Calabar (Quadra Esportiva); Periperi (Praça da Revolução); Corredor da Vitória (Goethe-Institut); no Sesc Pelourinho; na Sala Walter das Silveira, localizada nos Barris, além do Centro Cultural da Barroquinha e na Casa de Angola, também na Barroquinha. Nos espaços também acontecem oficinas, exposições fotográficas e atividades voltadas para crianças. A programação completa está nas redes sociais da Mostra.


OFICINAS DIVERSAS

A Mostra Itinerante trará para Salvador uma série de atividades voltadas para o pensar e fazer cinema. Já na quinta e sexta-feira, dias 16 e 17, no Teatro Gregório de Matos, das 14h às 17h, o crítico de cinema, curador e pesquisador, Heitor Augusto, ministra a oficina “Um Olhar Sobre os Corpos Negros LGBT no Cinema”. Pela manhã, também nos dia 16 e 17, das 9h às 13h, no Ponto Cultural Boiada Multicor – UNIRAMM, Pelourinho, o professor, escritor e pesquisador Alex França traz a Master Class “Por uma Crítica de Cinema Afrocentrada”.

Já nos dias 17 e 18, no Goethe-Institut, a partir das 9h, a especialista em Direção de Documentários pela EICTV de Cuba, Everlane Moraes, traz a Master Class “O Espelho e o Cinema – Evolução Técnica da Linguagem Cinematográfica ”, encontro que propõe “passear pela história da evolução técnica e de linguagem cinematográfica, mais especificamente o gênero documental”.

As atividades possuem o investimento de R$60,00 e os ingressos podem ser adquiridos pelo site de vendas Sympla até o dia 14. Lembrando que serão oferecidas sete bolsas integrais e oito de 50% de desconto. Os parâmetros para as bolsas e descontos são estudantes, inclusão social e diversidade de raça e gênero. Outras oficinas e atividades podem ser conferidas na grade de programação da Mostra, divulgada nas redes sociais.



SHOWS

A abertura da MIMB 2019 será celebrada no dia 14 de agosto, quarta-feira, a partir das 18h30, no Sesc Pelourinho com a exibição cinco curtas metragens, dentre eles Aurora, de Everlane Moraes, e Merê, de Urânia Munzazu. Além das sessões, a noite especial contara com apresentações musicais da cantora Nêssa, do cantor Yan Cloud, bem como da banda Afrocidade com a participação especial do ícone da música baiana, Margareth Menezes. Os ingressos para os shows na abertura custam R$20,00 e R$10,00 meia.

Já a cerimônia de encerramento será no dia 18, às 18h, no Goethe-Institut, e contará com show de Dão e a participação especial de Lazzo Matumbi.

TRIBUTO AO MESTRE

A Mostra Itinerante de Cinemas Negros traz o nome do professor Mahomed Bamba, que dedicou sua vida acadêmica à pesquisa na área cinematográfica, com especial foco voltado para os cinemas africanos e da diáspora. Bamba foi professor adjunto da Faculdade de Comunicação da UFBA entre 2009 e 2015, tendo orientado diversas pesquisas. A equipe que organiza a Mostra que homenageia o professor Mahomed Bamba é composta por mulheres negras que tiveram seu primeiro contato com esse cinema através de suas aulas.

A idealizadora e coordenadora da MIMB 2019, Daiane Rosário, afirma que a presença e influência de Bamba como professor foi essencial. “Pensar em minha construção profissional e na de muitas outras alunas dele, é pensar o quanto foi importante a gente ter a presença de Bamba nos dando toda essa instrumentalização, pensando nesse cinema negro, nesse cinema africano”, afirma Daiane.

Idealizadora e coordenadora geral, Daiane Rosário


Falecido precocemente aos 48 anos, em 2015, vitima de uma infecção generalizada, o professor Mahomed Bamba era natural da Costa do Marfim, mas viveu no Brasil por mais de vinte anos, atuando como professor e orientador na pesquisa de cinema junto a estudantes da UFBA. Daiane Rosário, junto às parceiras na coordenação da Mostra que leva o nome dele, se emociona ao salientar essa grandeza de Bamba em sua influência e despertar para o cinema negro e de diáspora na vida dela e de suas companheiras à frente da MIMB.

“A importância do professor Bamba na minha vida, na de Taís Amordivino, Julia Morais e Kinda Rodrigues, que são coordenadoras de curadoria; na de Loiá Fernandes, coordenadora de produção e de Naymare Azevedo, coordenadora executiva da Mostra, é imensa. Não tinha como haver essa Mostra se não fosse por ele. Essa homenagem, em uma mostra que conta com a participação voluntária de mais de quarenta pessoas, é mais do que merecida”, complementa Daiane Rosário.

“Entendemos o quão é importante celebrar Os Cinema (s) Negro(s), e que esta pluralidade faz parte da navegação diaspórica que nos conecta em todas pontas do mundo. Em reverência aos estudos do saudoso professor Bamba, a MIMB 2019 integra “S” como multiplicidade de construção, soma e pertencimento. Trazer as ópticas construídas mundialmente para a Bahia. Deste modo, ampliamos as inscrições para produções negras de cada canto do mundo. Nossas conexões são de navegação, identidade e caminhos” finaliza.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 12/08/2019

domingo, 11 de agosto de 2019

Seculares


Bibliotecas humanas


Com Seculares, série em atual produção, cineasta Henrique Dantas aborda 
a oralidade de pessoas com mais de 100 anos

Por João Paulo Barreto

Em um país cuja memória se esvai de modo proposital e a tentativa de manipulação visando o esquecimento seletivo de fatos tornou-se uma estratégia explicita para aqueles que dominam o poder de maneira cínica e vergonhosa, colocar em foco a oralidade dos idosos que realmente estiveram presentes na construção da História do Brasil nos últimos cem anos se torna uma maneira de compartilhamento da verdade.

Com a série documental  Seculares – O mundo a mais de cem, contemplada no edital de 2017 do IRDEB, Bahia na Tela, e atualmente em fase de produção e filmagem, o cineasta Henrique Dantas traz entrevistas com pessoas que alcançaram a expressiva marca dos cem anos de vida. Trata-se de um trabalho que encontra relação com uma função importante desse tipo de cinema que é o resgate de memórias, além de uma necessária valorização e respeito pela terceira idade.

Henrique Dantas, responsável por trabalhos como Filhos de João – Admirável Mundo Novo Baiano, documentário sobre os Novos Baianos; Sinais de Cinza, que abordou a história do cineasta Olney São Paulo, vitima das torturas da ditadura militar, e o recente A Noite Escura da Alma, que lançou foco no período ditatorial em solo baiano, dessa vez leva sua lente para uma abordagem intimista da vida de diversos personagens desconhecidos, mas com marcantes histórias de vida e uma oralidade singular no contar dessas trajetórias.

“Trata-se de um mistério esse negócio da memória. Por mais que a gente fale dela, não sabemos como ela se processa. Eu lembro de Luis Buñuel, no seu livro Meu Último Suspiro, que afirmou que você lembra apenas o que quer, tanto as memórias boas quanto as ruins”, explica Henrique ao falar do conceito da série.” A fronteira entre a memória e o esquecimento é um mistério”, complementa.  Na criação dessa proposta original de pesquisa, o diretor salienta a dificuldade de ter acesso à leitura especializada no assunto. “Conversei com um geriatra e uma pesquisadora da UFBA, e ambos trouxeram esse detalhe que não há muitos estudos voltados para pessoas com mais de 80 anos de idade. É como se buscassem apagar da humanidade a velhice”, afirma.

Essa ausência de estudos acabou levando o modo de criação da série Seculares para um caminho de desenvolvimento diferente. Henrique explica: “É o primeiro trabalho que eu faço onde eu não tive leitura uma leitura preparatória. O processo tem sido muito de ‘feeling’, de sentir nas entrevistas qual abordagem deverei seguir com cada pessoa”. Acaba que a percepção do diretor segue um norte no qual cada tema é descoberto no momento em que as conversas são iniciadas. “Já entrevistamos quatorze seculares. Depois do encontro, você tem certeza que encontrou algo muito valioso, um irôko (orixá que representa o tempo na forma de uma árvore), uma árvore do tempo. Essas pessoas são o próprio tempo”, pontua Henrique.

Henrique Dantas: busca por registros centenários de vida   FOTO: Fabricio Ramos
PERSONAGENS MARCANTES 

A série contará com 13 episódios de 26 minutos cada. O planejamento de Henrique Dantas é criar uma rima temática nas entrevistas que vão compor cada episódio. “Há vários temas que insiro nas conversas. Varias personagens são pessoas do interior. Os temas nessas abordagens variam muito. Folclores, como encontros com lobisomens; primeiros contatos com a televisão, com a eletricidade”, explica Dantas. O realizador salienta que muitas entrevistas tiveram esse desenvolvimento acerca do contato com invenções do ser humano. “Com algumas delas, eu perguntei sobre a primeira vez que viram uma aeronave. Eu achava que seria um avião, mas muitas lembraram de quando viram não um avião, mas, sim, um zepelim. E disseram que, à época, as pessoas saíam correndo por achar que era algo alienígena”, afirma entre sorrisos.

Outro detalhe importante está no aspecto da solidão dos idosos. “Uma coisa curiosa nas entrevistas que já fiz foi perceber que, quanto mais humilde é a família da pessoa centenária, maior é o acolhimento dela. Quanto mais rica, de classe média alta, maior é a queixa de solidão na qual é deixado o idoso,” explica Henrique.

BUSCA POR CENTENÁRIOS

Nessa construção, a voz principal que Henrique buscou trazer à tona são as de memórias que foram silenciadas. “Além da memória dos idosos, ainda tem a questão social. Ou seja, a História é sempre contada do ponto de vista de quem ganha. E nessa guerra que a gente viveu, foram os homens brancos europeus saíram vencedores. Chegaram aqui em minoria e conseguiram destruir os índios, destruir os negros, que já trouxeram como escravos e com suas dignidades aniquiladas. Buscaremos usar as memórias dos pretos, dos índios , das mulheres, dos ciganos. As memórias silenciadas. A intenção é que 80% dos entrevistados sejam de pessoas nessas condições,” salienta Henrique Dantas.

O diretor pontua que o projeto ainda está em busca de novas fontes para participar. “Quem conhecer pessoas com mais de 99 anos e dispostas a dar entrevistas, pode entrar em contato pelo número 071 98697 2715. Trata-se de um projeto muito importante nesse resgate. Quando morre um centenário, morre com ele uma biblioteca viva”, finaliza.

*Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, dia 11/08/2019


sábado, 3 de agosto de 2019

No Coração do Mundo


Insustentável inércia  


Com o brilhante No Coração do Mundo,
mineiros Gabriel e Maurílio Martins abordam o violento inconformismo social


Por João Paulo Barreto

É sobre a inércia que os cineastas Gabriel e Maurílio Martins tratam em seu pungente roteiro de No Coração do Mundo. Mas não somente a inércia no sentido mais comum de citação. Aquela que utilizamos para retratar o incômodo de nos vermos presos a uma rotina de desconforto, de perrengues, de correria nas oito, às vezes doze horas de batente e amassar do barro. No (in)conformismo de que aquela será a sua realidade para sempre. “Apenas aceite. Dói menos”, como diz a frase nas redes.  Ainda mais pesada, na cidade mineira de Contagem, o “motherfucker Texas” como define a letra do Mc Papo a abrir o filme, a inércia é aquela cuja definição científica se aplica de maneira exata. Mas o movimento, o comichão, apesar de poder não aparentar, é constante e frenético. São pessoas que vivem dentro deste movimento e que, ao mesmo tempo, almejam sair dele de maneira urgente. Nesse conjunto de personagens, os diretores constroem uma dura realidade, mas impossível de não identificar com aqueles realmente cientes do que é o Brasil.

Voltando ao ambiente de Contagem, que já haviam destacado no homônimo curta de 2010, também dirigido em parceria, Gabriel e Maurílio utilizam a cidade como a sua personagem central. Salientando um arco de pessoas também presente no curta, é ótimo perceber como aquelas trajetórias voltam a ser exploradas aqui. Neste território, o desenrolar de diversas perspectivas de vida se faz presente. Algumas delas, diante da já citada inércia, acabam por se manter em movimento autodestrutivo. Outras, conseguem manejar suas existências de maneira a apenas levá-las à frente.  “Pelo menos eu durmo com os dois olhos fechados. Um dia, sua casa cai”, pontua Miro (Robert Frank) ao replicar uma provocação diante de um momento de pesar. E tal resposta coloca-se exatamente como ponto de equilíbrio entre aqueles que aceitam para, assim, doer menos, e aqueles que resolvem pagar para ver e recebem a dor em sua mais intensa forma.

Selma (Grace Passô) e os corres para levantar grana: em busca do seu coração no mundo

NARRATIVAS DIVERSAS

Um dos pontos precisos do texto dos Martins está justamente nessa capacidade de entrecruzar diversas histórias sem sobrecarregar a estrutura de seu filme. Além de Contagem, não há um(a) protagonista aqui. 
Naquele ambiente, entre suas várias narrativas, cada personagem se destaca de maneira singular. Uma delas é a de Selma. No simbolismo preciso do título do longa, Grace Passô traz para sua Selma um equilíbrio entre a serenidade no explicar do que seria o seu coração no mundo para uma explosão súbita de frustração quando percebe seus planos de estabilidade e alcance desse tal “coração”começarem a declinar. A atriz, que se destacou no singelo Temporada, dirigido por André Novais, coloca em No Coração do Mundo um extremo oposto do seu protagonismo anterior. E que extremo! Em seu desfecho, diante da violência que se descortina como resposta aos seus atos, sua percepção é de que a aposta foi grande, mas a recompensa pode não ter sido tão alta assim.

Nesta mesma via segue a cobradora de ônibus Ana (Kelly Crifer). De viagem em viagem, saindo em sua primeira rota e retornando para a próxima em uma falsa sensação de movimento.  “Vai, volta. Vai, volta, e a vida só passando pela janela. Fim de linha”, define bem a jovem em seu sentimento de vazio. Trocando fraldas de um pai doente ou tentando se agarrar ao seu relacionamento amoroso, Ana sonha em mudar de Laguna, localidade onde vive. Sonha em recomeçar junto a Marcos (Leo Pyrata), o namorado que até ganha algum na honestidade, auxiliando Selma com fotos escolares, mas vive enrolado nos “esquemas” fáceis. Na breve homenagem que Ana lhe faz, com a ingenuidade de um carro de som em um feliz aniversário interrompido por som de tiros, a volta súbita àquela realidade não permite à garota sequer a pausa para celebrar. E mal sabe que o tiro disparado se relaciona diretamente a um dos rolos do seu namorado. Precisa percepção de uma das razões para sua estagnação.   

Marcos e Ana: vontade de mudança 

PESO DO TEMPO

Marcos, que se vê envelhecendo e acomodando-se na citada inércia, busca uma forma para conseguir sair daquela realidade. Aqui, Gabriel e Maurílio destacam a ideia de nostalgia diante da percepção da idade como modo tão comum de escape fugaz. Em um diálogo impagável entre Marcos e Brenda Lee (MC Carol de Niterói, em participação primorosa), a amiga o repreende de maneira hilária por pedir-lhe dinheiro emprestado para bancar a festa de aniversário de sua mãe, e ambos mergulham em lembranças de um período mais feliz de suas vidas. A mãe em questão, dona Fia (Glaucia Vandeveld) segue em sua peregrinação diária a vender desinfetantes caseiros. Volta sempre com o carrinho cheio com as mercadorias que não vende. Marcos apenas observa e lamenta junto à irmã, algo que provoca ainda mais a comichão que sente. E na mesma vizinhança, uma personagem já conhecida de outro curta de Gabriel Martins, a idosa dona Sônia (Rute Jeremias) segue na ideia de vingar a morte do filho usando uma arma que o vizinho Alcides lhe concedeu. Sim, pode demorar, mas, diante do inconformismo, essa mesma comichão chega a qualquer idade.

A maneira como a ilustração de todo o circulo de pessoas ali é colocada em tela desenha com precisão a teia de acontecimentos de vidas que se equilibram entre o conformismo, a ação enérgica de mudança (seja ela qual for) e a tragicidade. Pensar em Miro com suas prestações da moto para quitar, o aluguel do barraco para pagar e sua rotina de bater cartão às oito da manhã não alivia essa mesma comichão que ataca a todos nós. Com o peso do trágico que a inércia como necessidade de sem manter em movimento trouxe a todos os outros personagens de No Coração do Mundo, a tendência à mesma aceitação de Miro é plena. 

Mas, até quando?

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 04/08/2019

domingo, 28 de julho de 2019

Eu Não Sou Uma Bruxa


O absurdo como reflexão de uma realidade



Eu Não Sou uma Bruxa traz análise da manipulação 
cultural como meio de manter duras existências estagnadas 


Por João Paulo Barreto

Entre a sagacidade de uma voraz crítica à exploração política, financeira e midiática de uma crença folclórica e quase religiosa atrelada à ignorância alheia e à utilização de um realismo fantástico que caminha de mãos dadas com a brutalidade de um mundo misógino, Eu Não Sou uma Bruxa apresenta sua protagonista, uma garota de nove anos inicialmente sem nome que, acusada de ser uma bruxa, tem à sua frente a imposição da escolha de aceitar tal rótulo ou ser transformada em uma cabra.

Esse é o começo do primeiro longa dirigido pela experiente cineasta Rungano Nyoni. Nascida em Zâmbia, Nyoni tem em seu currículo uma série de curtas metragens, incluindo a co-autoria do soberbo roteiro de The Mass of Men (O Peso dos Homens), filme vencedor do Panorama Internacional Coisa de Cinema em 2013. Trazendo sua lente para reais relatos de acusações de bruxarias ocorridas na mesma Zâmbia, África, a cineasta criou uma potente análise da citada utilização da fé como modo de dominação física e intelectual. Na presença da criança acusada de bruxaria, a noção precisa do início de uma doutrinação baseada na exploração perene de seres humanos.

Shula e sua prisão física e mental dentro de um esquema de manipulação

Levada para viver em uma espécie de campo para bruxas junto a outras mulheres, sendo a maioria composta por idosas (algo que denota tal perenidade) também acusadas, puramente na base do “achismo”, de bruxaria pelas autoridades e cidadãos locais, a pequenina recebe o nome de Shula (algo como “desenraizada”), refletindo, assim, o tratamento hostil que concedem à criança. No local, são obrigadas a trabalhar em lavouras e, exibidas como atração turística, são vitimas do olhar estrangeiro em uma clara alusão à omissão e ao secular estripar da África pela presença do branco. Da mesma maneira, não somente uma observação pontual ao olhar externo, mas, também, uma forma de trazer a denúncia para a exploração desse folclore utilizado como justificativa a condenar tais mulheres a trabalhos braçais em plantações e sem qualquer remuneração. A presença de um oficial do governo conhecido como Sr. Banda (Henry BJ Phiri) que se mantém como guardião de Shula  demonstra bem esse oportunismo atrelado a uma dominação política através da ignorância.

SURREALISMO E TRAGICIDADE

Nyoni, em seu roteiro, insere toques de surrealismo fantástico, quando vemos todas as supostas bruxas presas a carretéis. Com cordas de pano atreladas às suas costas, limitam seus movimentos, mantendo-as presas não somente de maneira física àquela realidade, mas, também, mental.  Na presença da estreante Maggie Mulubwa, com sua expressão observadora e, ao mesmo tempo, desafiante e triste, que se transforma em sorrisos momentâneos e tão carregados de tristeza quanto, a cineasta Rungano Nyoni tem um tesouro que traduz exatamente o peso de seu filme.

O podres poderes e a opressão intelectual em prol do econômico e político

Como Shula, a pequena Maggie traduz sua tragicidade de forma dolorosa, como quando afirma se arrepender de ter escolhido ser uma bruxa ao invés de cabra, ou quando escuta através de um chifre o som de crianças em uma escola. A fotografia, aqui, é de David Gallego, notório diretor de fotografia responsável pelos tons de O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra. Uma das cenas que fazem essa presença de Gallego notável é quando Shula se vê dentro de um crânio de um animal, sendo mirada no contemplar de sua realidade trágica por olhares estrangeiros, em um enquadramento preciso de Nyoni a salientar a prisão tanto corpórea quanto intelectual de Shula.

Durante a sessão, alguns risos nervosos surgiam entre os presentes na sala de cinema. Perceber a maneira como tais risadas eram abafadas rapidamente faz o espectador atento refletir sobre a proposta de Nyoni em trazer um tema tão violento, mas sem perder seus toques de reflexão diante do citado surrealismo que remete a contos infantis (o caminhão com os carretéis é um exemplo) ou a proposta de abordar o absurdo daquela situação inserindo momentos diretos de crítica àquele ambiente, como quando Shula é levada a um programa de entrevistas e o apresentador questiona a possibilidade dela não ser uma bruxa, mas, sim, apenas uma criança. A resposta acaba não vindo de ninguém. É o silêncio omisso que refletirá exatamente o trágico da vida de Shula.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 28/07/2019





quarta-feira, 17 de julho de 2019

Inocência Roubada


Sobre meninas e lobos



Autobiográfico e redentor, Inocência Roubada traz brutalidade da pedofilia e seus traumas

Por João Paulo Barreto

Desde sua cena de abertura, quando a atriz, dançarina e cineasta Andréa Bescond baila em um frenesi libertador, a proposta de expurgo de um sofrimento guardado é atrelada ao projeto Inocência Roubada (As Cócegas, no original, tenro e, exatamente por isso, ainda mais assustador título francês) de maneira evidente e sem concessões. Por isso mesmo, trata-se de uma obra cujo impacto no seu público é tão violento. Mas tal violência em momento algum é vista como manipuladora ou artificialmente inserida para chocar. A maneira como Bescond aborda suas próprias experiências traumáticas de vida e as compartilha com sua audiência chama a atenção, sim, pelo modo brutal como a mulher passou sua infância gradativamente destruída, mas é no processo de cura e libertação que reside a força do filme.

Baseado na vida pessoal da própria Andrea, que, durante a infância, sofreu constantes abusos sexuais cometidos por um amigo de seus pais, a história foi originalmente adaptada como um premiado espetáculo musical no qual as performances dos números realizados pela dançarina denotavam o poder que a dança tem no sentido de extravasar toda dor e traumas contidos em sua trajetória. Levar o mesmo tipo de abordagem para uma mídia diferente, no caso, o cinema, corria o risco de banalizar o projeto com uma aproximação dentro de um apelo para o melodrama, como a inserção de uma trilha sonora apelativa ou atuações maniqueístas, por exemplo. No entanto, o que nos é trazido é a representação de um mergulho naquelas experiências de maneira a nos inserir literalmente dentro de suas lembranças. E quando digo literalmente, é justamente isso que acontece.

Odette busca apoio de seus pais na sua superação

LABIRINTOS

Ao apresentar a pequena Odette, seu alter-ego no filme, Andréa nos leva por entre os labirintos de seu trauma. Utilizando uma inteligente montagem que caminha entre as lembranças do passado e o tempo real e presente, colocando o processo terapêutico como guia naquela experiência, Bescond e o co-diretor Eric Métayer (que faz uma pequena participação como o professor de dança de Odette) conduzem o espectador pela mente da mulher, colocando inicialmente suas sequelas em evidência, mas demonstrando a origem de cada uma delas dentro daquele processo de conhecimento, redescobrimento e, esperançosamente, superação. Assim, a condução do seu público diante dos traumas se apresenta gradativa.

Mantendo cenários, elementos e personagens que se misturam entre reminiscências e a realidade, na qual, por exemplo, a imagem de uma porta de banheiro pintada de rosa e com contornos infantis deixa de possuir essa ideia de inocência para denotar um simbolismo amargo, o filme constrói para seu espectador uma constante percepção dos gatilhos que iniciam Odette/Andréa em seu turbilhão emocional. Em outra passagem, a textura e aparência de uma toalha que lhe é estendida antes de entrar em cena a leva aos dias dos abusos e a um extravasar daquele período em apenas uma frase proferida por ela e recebida com surpresa pelos colegas. A dureza com que percebe sua fragilidade a faz pedir desculpas pela franqueza, sendo este talvez o momento de maior impacto da obra justamente por demonstrar sua prisão e vontade de escapar daquele tormento mental.

Um ensaio para a felicidade e para o equilíbrio mental

ESCAPE ONÍRICO

É quando Odette passa a utilizar aqueles artifícios psicológicos como brincadeiras internas em busca de seu conforto intimo, inserindo conversas com psiquiatras e encontro com amigos como fantasias mentais, tudo em busca de um escape, de uma fuga daquela sensação de aprisionamento e angústia. Bescond e Métayer, aliás, ainda conseguem inverter essa expectativa do espectador ao representar a fragilidade de Odette de forma sutil, quando, usando mais uma vez uma sagaz montagem, inserem em um único e breve momento a imagem da criança no meio de um jantar de adultos. Dessa vez, a sua fuga para não concede conforto a Odette.

Deste modo, Inocência Roubada utiliza esse artifício onírico de sua protagonista como uma simultânea desconstrução de seus medos e preparação para a dureza de sua realidade, quando precisa encarar seu tenebroso passado sem a possibilidade de ter aquele esconderijo.

Neste áspero reencontro no qual sua infância lhe é empurrada para o atual presente, qualquer traço de força dentro de Odette se perde. Seu único pilar ainda reside no afetuoso abraço e choro contido no calor paterno, uma vez que, da parte de sua mãe, uma muralha de negação e desprezo diante de seu drama lhe é apresentada. Está, porém, é apenas mais uma pedra na muralha que a aprisionou e da quel, enfim, se liberta.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 17/07/2019

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Um Homem Fiel



A maturidade alcançada na rotina sem encantos




Em Um Homem Fiel, diretor Louis Garrel traz análise acerca da confiança mútua em relacionamentos


Por João Paulo Barreto

Em seu segundo longa metragem como diretor, Louis Garrel, que também co-escreve o roteiro de Um Homem Fiel, traz boas reflexões acerca das escolhas, arrependimentos e segundas chances que relacionamentos são capazes de nos oferecer. Trata-se não somente de uma comédia de costumes (sem o tom pastelão característico, friso), mas de um filme que, com sutis toques de absurdo em sua proposta, permite ao espectador uma pertinente análise das dúvidas que perpassam mentes inseguras quando confrontadas por tentações ou pelo desencanto da rotina.

Com apenas 75 minutos, Garrel, que também atua, constrói um triangulo amoroso sem julgamentos a gêneros ou privilegiando comportamentos em detrimento do sexo oposto. Assim, concede ao seu público uma observação acerca de três pessoas cujas dúvidas em suas vidas a levam a decisões das quais, sim, podem se arrepender, mas são justamente tais escolhas que as levam à precisa ideia do que seria vida, levando em consideração ansiedades, percalços, paixões e, claro, o aterrador medo da solidão. Claro que o olhar externo nos dá uma segurança de análise, afinal, não vivemos exatamente as mesmas angústias daqueles indivíduos, mas a identificação com aqueles mesmos erros é o que torna Um Homem Fiel um filme tão cativante em seu desenvolvimento.

Abel e seu reencontro com Marianne: mágoas passadas 

TENTATIVA E ERRO?

É deste modo que conhecemos Marianne, Abel e Eve, o triangulo em questão. Quando Marianne decide terminar sua relação por se encontrar grávida de um amigo em comum com quem tem um caso, a saída de Abel da sua vida é bem direta, trazendo a percepção de um diálogo de abertura que prima pela naturalidade e adequação a uma situação que deve, de fato, ser lidada daquele modo pragmático, mesmo que um tanto absurdo e incomum. Mas a descrição como absurda, citada anteriormente, só é colocada em análise a partir do momento em que se esperaria uma reação mais enérgica do rapaz traído. Porém, o acerto aqui reside justamente nesse choque contido, nessa ideia de que o racional deve prevalecer. A ironia do seu título, inclusive, se apresenta logo de cara, quando Abel deixa o apartamento de Marianne para passar a noite com uma garota que, em suas próprias palavras, “já havia esquecido no dia seguinte”. E é precisamente essa a ideia de vida e erros atrelados a ela que citei anteriormente.

No reencontro com Marianne, nove anos depois e dentro de um momento trágico, um novo envolvimento amoroso acontece, mas com o peso de uma maturidade que acaba sendo inserida de maneira bastante orgânica. É aqui que se encontra o principal ponto de reflexão trazido pela obra. No surgimento da jovem Ève, que se revela apaixonada por Abel desde sua infância, e que, finalmente, consuma seu desejo pelo rapaz, uma reflexão sobre a citada perda do deslumbramento diante do encarar de uma certeza que parecia tão plena, mas que tem na rotina e no amadurecimento sua principal derrocada. “Costumava pensar nele quando estava com outros rapazes. Agora que estou com ele, em quem posso pensar?”, reflete a bela Ève.

Ève e sua realização amorosa com Abel: desencanto da rotina

A segurança de amar primeiramente a si mesmo é o que se revela como principal proposta de reflexão no roteiro de Garrel.  Na personagem de Marianne, vivida por uma Laetitia Casta em um estado de maturidade que contrasta precisamente com o calor da juventude que a Ève de Lily-Rose Depp traz, vemos a precisa ideia de parcimônia e ausência de impulsividade que somente o tempo lhe concede. Ao aceitar a reconstrução de um relacionamento que em qualquer outro contexto já teria sido deixado para trás, a mulher entende que, dentro daquela situação, não há julgamentos ou hipocrisia, afinal, ela mesma cometera erros com Abel no passado e teve oportunidades de corrigi-los. Aqui, apenas mais uma oportunidade de fazer a mesma correção e seguir em frente. Se na vida real fosse tão fácil quanto na ficção...

* Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 08/07/2019

sábado, 29 de junho de 2019

Turma da Mônica - Laços



Ode à infância 


Transposição real para as telas, Turma da Mônica - Laços dialoga tanto com geração 
que cresceu com os personagens quanto com crianças do presente


Por João Paulo Barreto

Seria fácil se render ao sentimento de nostalgia ao citar as origens do interesse pela leitura e pelos quadrinhos como um todo que a minha geração teve com as histórias criadas por Maurício de Sousa para falar de Turma da Mônica – Laços, filme que transporta para uma versão de carne e osso os adoráveis personagens criados pelo desenhista há mais de meio século.

Sim, claro que há esse sentimento ao visitar o cinema acompanhado por um monte de crianças que conhecem a turma em meios digitais e já convivem com o mundo virtual muito à frente dos primórdios das histórias em quadrinhos que Mônica e Cia me trouxeram lá nos anos 1980.

Ver tal criação ainda alcançar gerações tão novas impressiona, realmente. Mas, bem mais além, assistir a Laços nessa sala repleta de crianças te faz perceber, como um adulto trintão, o fato de que o filme de Daniel Rezende consegue se conectar tão bem a uma geração de crianças e pré- adolescentes de contatos culturais tão fugazes quanto a espiada constante no smartphone ou a necessidade deslocada de se existir socialmente na internet..

Assim, reconhecer a turma da Mônica na figura da menina dentucinha, da Magali comilona, do Cascão sujinho ou do Cebolinha traquina e de fala com letras trocadas, todos em um século XXI no qual crianças não correm mais durante o recreio, preferindo olhar para telas de celular, dá ao filme de Rezende uma autenticidade impar justamente pela fidelidade ao seu material original no qual a ideia de infância era tão bem inserido quando a comparamos aos exemplos citados acima.

Fafá Rennó e Paulo Vilhena como os Cebolas

TRANSPOSIÇÃO MINUCIOSA

Experiente montador, Rezende tinha em mãos uma oportunidade de utilizar a linguagem de cinema para transparecer a arte sequencial original. O receio, pelo menos para mim, era de que se rendesse a artifícios publicitários, quando inserções literais de quadrinhos no cinema remetem às histórias impressas. O que é observado em Laços, porém, é uma referência minuciosa ao Limoeiro, local fictício onde se passam as aventuras da turminha. Utilizando sua câmera e o ritmo de seus enquadramentos (as sequências de corridas de Mônica atrás dos meninos deixam isso evidente) fazem com que os cenários repletos de árvores e arbustos, juntamente com as casas baixas tão marcantes nas páginas dos gibis, surjam de maneira a permitir que os leitores relacionem os ambientes de maneira orgânica. Estão lá as versões físicas daquelas páginas e tudo é calcado em uma aparência real, valendo-se de uma direção de arte precisa que recria aquele universo sem necessariamente referenciá-lo de forma exageradamente estilizada ou que force uma relação às páginas.

Dito isso, restava o desafio de encarnar seus quatro principais personagens em crianças que tornassem a identificação com seu público alvo exata e, da mesma forma, desse a esses leitores adultos citados anteriormente a oportunidade de enxergar naquelas versões as mesmas características com as quais cresceram absorvendo. Fisicamente, diga-se, todos os quatro estão perfeitos.

Cebolinha, por razões obvias, perde seu visual carequinha, mas ganha uma ligação direta aos cinco fios nos cabelos arrepiados de Kevin Vechiatto. Este, inclusive, demonstra um trabalho cuidadoso em suas falas com R e L trocados, algo que pontua bem a atuação do menino. Além do fato de mantê-lo sempre em um olhar compenetrado, referenciando a personalidade calculista do Cebolinha dos quadrinhos. Já Cascão, que tem na figura de Gabriel Moreira sua versão física, demonstra através do ator uma cumplicidade bem orgânica com o melhor amigo e uma naturalidade nas falas que chama a atenção. Laura Rauseo, na pele da comilona Magali, consegue transparecer bem tanto o apetite voraz da pequenina quanto o fato de como aquilo é incomum. Um diálogo dos quatro acerca dessa característica da Magali denota bem essa ideia do filme em aprofundar os dramas dos quatro personagens.

Por último, Giulia Benitte dá à Mônica uma doçura da infância, mas colocando seu comportamento explosivo contra o bullying de Cebolinha e de outras crianças como uma característica que surge como um manifesto do longa acerca dos perigos dessa prática. Uma pena que não chegue a ser mais aprofundado. Em uma cena específica, por exemplo, quando lágrimas surgem dentro da fúria infantil de Mônica, uma discussão mais exata sobre esse assunto até se ensaia, mas acaba se perdendo diante da movimentação de sua história.

Rodrigo Santoro na pele do Louco: fidelidade à proposta original do personagem

LOUCURA INTROSPECTIVA

Livremente baseada no excelente quadrinho de Vitor e Lu Cafaggi, Laços traz um ótimo momento de introspecção, quando o Louco, excêntrico personagem vivido por Rodrigo Santoro, oferece enigmas que remetem a Lewis Carroll e sua Alice. Na figura escandalosa do personagem, um inusitado senso de realidade, quando o mesmo salienta o fato de que Cebolinha conversa com um estranho e tanto ele quanto seus amigos estão numa floresta à noite e sozinhos.

Denotando a consciência infantil de Cebolinha, algo que sempre marcou o personagem nos quadrinhos, Louco é uma das mais encantadoras e misteriosas figuras saídas da mente de Maurício de Sousa. Nesta adaptação, carecia por mais tempo em tela, principalmente por permitir dar ao filme essa oportunidade de reflexão lúdica acerca dos desafios da infância. Talvez se a obra não investisse em uma cena totalmente descartável e fora de timing, quando o grupo encontra menina rivais de Mônica no meio da floresta e precisam resolver isso em uma competição com Sansão e outras pelúcias, sobraria mais tempo em tela para que o personagem pudesse ser melhor aproveitado.

Em seu final, uma relação daquela infância que começa a ser deixada para trás, quando um ensaio da maturidade surge no simbolismo dos laços deixados nas florestas durante a busca pelo cachorrinho Floquinho, e o último momento coloca seus quatro personagens centrais em um ponto de passagem, quando a presença do outro é percebida com outros olhos. Na figura de Cebolinha continuando com seus rabiscos de planos infalíveis, a vontade de permanecer mais um pouco naquele período tão mágico. Sim, é difícil não adentrar no território das lembranças infantis quando se trata de temas tão importantes quanto aquele período da vida.

Corrigindo a primeira linha, adentrar nas lembranças nostálgicas nunca é fácil.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 29/06/2019



quinta-feira, 20 de junho de 2019

Graças a Deus


A omissão da igreja colocada em xeque 


Com o pungente Graças a Deus, diretor francês François Ozon 
cria teia investigativa contra a pedofilia no clero

Por João Paulo Barreto

Dono de uma filmografia diversificada e que não se atém a um único estilo (até um tanto irregular, mas não o caso aqui), o diretor francês François Ozon constrói em Graças a Deus uma estrutura quase documental de cinema. Ao trazer a investigação baseada em fatos reais que sobreviventes de abusos sexuais perpetrados pelo padre Bernard Preynant ( que nos anos 1980 era responsável por acampamentos de férias e catequeses com jovens de até 15 anos de idade), Ozon traz uma análise da dor e do trauma em diferentes níveis e marcas deixadas em cada vitima com que o pároco teve contato durante o período.

Trata-se de uma obra dolorosa, mas que se mantém lúcida por não se deixar levar pela manipulação do drama ou pelo maniqueísmo em sua abordagem. Do mesmo modo, consegue atrelar um equilíbrio curioso no adentrar nas questões de fé que seus personagens trazem consigo. A começar pela figura de Alexandre Guérin (vivido por Melvil Poupaud). Pai de cinco filhos, católico praticante, Guérin foi vitima de abusos sexuais por parte do padre e é ele quem inicia a avalanche de denúncias contra o representante da igreja. Ozon dedica seu primeiro ato quase todo à busca do homem em seguir adiante com sua luta por justiça e alertar em relação à presença atual de Preynant na instituição católica como um dos seus mais prestigiados membros.

Alexandre Guérin em sua busca por justiça

SOBRIEDADE E PRAGMATISMO

Ao abordar em sua queixa formal a omissão de bispos e cardeais diante da presença de alguém com o histórico do padre em questão, Guérin demonstra, em certos momentos, sua relação de afinidade com a religião na qual fora doutrinado, mantendo-se fiel aos seus preceitos e considerando a importância daquele legado para seus filhos, estando dois deles às vésperas de passar por rituais cristãos, como crisma. Personagem de maior profundidade dentre todos os construídos por Ozon, Guérin traz em sua relação com a religião uma separação, apesar de não muito digna aos olhos de um ateu como eu, compreensível perante a importância que o catolicismo tem em sua vida. E é pertinente observar a maneira sóbria e pragmática com que o homem separa o trauma sofrido da fé com que se alimenta através da igreja, mesmo tendo em sua vida uma chaga perpetrada por um de seus representantes (o momento em que este questiona os atos do padre, hoje um idoso, é um dos mais potentes do filme, inclusive).

Remetendo ao premiado Spotlight e dividindo o foco de seus 137 minutos com outras vitimas de Preynant, construindo, assim, um rico quadro investigativo, Ozon revela a reflexão que Graças a Deus propõe de maneira pungente, colocando cada personagem diante do encontro com o passado e da dor que se esforçavam para manter adormecida. Assim, quando vemos o atormentado Emmanuel Thomassin (vivido por Swann Arlaud) sofrer o choque representado por um ataque epilético na “simples” leitura de um artigo de jornal que aborda o caso de pedofilia, percebemos o quão dilacerante é aquele reencontro. E mesmo tendo uma subtrama descartável e mal desenvolvida que traz os problemas conjugais com sua namorada, seu arco se apresenta de maneira pesada para o espectador por perceber as marcas que seu futuro trouxe após o contato com o padre.

Da mesma maneira, quando François Debord (o conhecido rosto de Denis Ménochet, de Bastardos Inglórios e Custódia),um dos idealizadores do grupo de pessoas em busca de justiça, precisa desligar o telefone pedindo desculpas a uma das vitimas que perdera o controle emocional ao simplesmente ouvir o nome do padre Preynant, percebe-se como o inflamar daquelas chagas ainda perdura. Debord, inclusive, representa bem o modelo díspar de relação com a religiosidade que Guérin traz. Ateu, o homem não mede qualquer esforço para tornar evidente a negligência da igreja perante o caso, cogitando até mesmo desenhar um pênis com fumaça no céu sobre a catedral da cidade para propagar o caso para todos. Uma cena que prima pelo humor nonsense, mas pertinente.

O grupo de vitimas comemora uma vitória no caso

MANIQUEÍSMO AUSENTE

Em um ponto que pode causar certo desprezo ao espectador imediatista, mas que demonstra bem a citada ausência de maniqueísmo e parcimônia na construção do roteiro de Ozon, o cineasta insere, também, a figura do próprio réu naquele caso. Na presença do veterano Bernard Verley na pele do padre Bernard Preynant, uma oportunidade para se observar como a estrutura do texto de Ozon busca uma abordagem completa do caso, colocando, sim, a figura de Preynant como um pedófilo cuja punição é urgente, mas, da mesma forma, oferecendo ao espectador uma oportunidade de avaliar o homem distante de conflitos rasos entre bem vs. mal ou como um antagonista superficial.

Assim, quando ouvimos a fala de Preynant admitindo sua culpa e deixando claro sua “fraqueza” diante da presença de crianças, bem como o fato de que o mesmo chegou a informar sua impulsividade aos seus superiores na igreja, percebe-se que Ozon não busca suavizar as monstruosidades perpetradas pelo homem, mas, sim, permitir ao espectador adentrar, também, na mente daquela figura deprimente. E isso sem necessariamente se render a embates que relativizem os fatos ou construir seu personagem de maneira unidimensional. E, obviamente, de maneira alguma tornando menos graves tanto suas atrocidades quanto o silêncio oportunista do clero, brilhantemente representado pelo texto de Ozon ao ilustrar o título do filme em uma fala oriunda de maneira grotesca a partir de um dos seus membros.

Ozon entrega em Graças a Deus uma análise não somente dos traumas que os atos contra crianças perpetraram para sempre em suas vidas. Ao usar a fé alheia de pessoas com personalidades ainda em formação e de fácil manipulação, os crimes de Preynant, tendo o acobertamento da instituição religiosa que representa, denotam de maneira precisa o modo como a manipulação maligna através religião é um dos maus que qualquer credo pode possuir. E isso não atinge somente casos extremos como o visto aqui, mas o sequestro de opiniões e de mentes colocadas sob o cabresto do não questionamento e da aceitação. Diversos são os “lideres” e “mitos” que se sustentam através disso.   


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 20/06/2017

domingo, 16 de junho de 2019

Dor e Glória


O reencontro intimista de Almodóvar


Em Dor e Glória, diretor espanhol acerta ao abordar o cinema 
como meio de cura dos tormentos físicos e mentais

Por João Paulo Barreto

Reminiscências e mergulhos concretos no passado. Momentos de reflexão oriundos da busca por um acalmar da dor física e mental, e o seu consequente encontro com a glória de uma vida passada a limpo. Um homem em busca de uma redenção intima. De um perdão a ser-lhe concedido por si mesmo pelos erros cometidos em sua trajetória. É no encontrar-se com as dores da velhice, com a fragilidade evidente de seu corpo, mas, também, com a força que ainda parece possuir em sua mente, que este homem alcança tal redenção. É disso que é feito Dor e Glória, o mais recente filme de Pedro Almodóvar. De um constatar preciso das próprias fraquezas e uma tentativa não somente de conviver com elas, mas uma busca pelo equilíbrio  que ainda pode existir naquele caminhar.

Em sua cena de abertura, seu protagonista, Salvador Mallo (Banderas, indefectível), um cineasta consagrado que se reencontra com uma de suas obras trinta anos depois de seu lançamento, está em uma piscina, silenciosa e calma. Na cicatriz em sua coluna vertebral, nota-se uma história de batalhas, sendo a mais recente, pela sua saúde. Através de seu próprio nome, uma pista da abordagem de Almodóvar perante aquele personagem aparentemente autobiográfico. É justamente a si mesmo que o homem busca salvar. Em suas lembranças da infância, quando dividia uma catacumba como lar junto a sua mãe e pai, e quando a acompanhava na cantoria do lavar dos lençóis em um lago, Salvador vai encontrando aquele conforto fugaz. Tão fugaz quanto o conforto que pensa encontrar na heroína, droga que alivia suas constantes dores nas costas, mas não colabora com sua apreensão mental.

Salvador e sua epifania física e mental

SOLIDÃO E REENCONTROS

Aquele desenhar calmo do homem em seu momento de introspecção mergulhado no silêncio da piscina define exatamente o modo como Salvador busca, quase que em vão, viver. Quase, pois, à medida que seu mergulhar com as dores do passado se descortina, mais fundo ele parece estagnar. Sua vida presente denota uma trajetória de solidão, algo que o texto de Almodóvar constrói de forma precisa. “Moro com meus quadros. São eles quem me fazem companhia”, explica Salvador. Um modo ermitão de viver que se percebe como consequência de suas dores. Paulatinamente, o homem segue em um reencontro com sua juventude. Algo que parece lhe trazer certo conforto. Na não superação da perda de sua mãe, um sinal da razão para se prender àqueles dias antigos, quando um talento para o canto o levara a fazer parte de um seminário, única opção para se estudar sendo ele oriundo de uma família pobre.

Neste momento, Almodóvar não deixa de se valer da observação crítica da educação católica, quando coloca o pequeno Salvador negando qualquer vocação para a batina, ou quando sua versão adulta explica a omissão do colégio em, por conta do seu talento musical, aprová-lo nas matérias básicas sem que ele apresentasse resultados. Os flashbacks de Salvador, ainda criança, aliás, cria uma bela analogia ao despertar, mesmo que fugaz, de sua sexualidade, quando desmaia por conta de uma visão atrelada a um sinal de insolação. Na sua versão adulta e repleta de feridas que sua frágil saúde lhe trouxe, um brincar com o ateísmo e fé diante do modo como as adversidades se apresentam. “Nos dias em que mais sofro, rezo a Deus. Nos que a dor é menor, sou ateu”.  É quando o diretor espanhol mais precisamente define o desespero de Salvador.

Nessa ligação com a sua infância, inclusive, é perceptível e precioso o modo como Almodóvar constrói a relação de seu protagonista com aquela fase de sua vida. Aqui, em sua notória paleta de cores, quando o vermelho se sobressai, é para justamente separar uma fase em que Salvador está ainda mais abalado. E o contrastar dessa paleta às estampas que usa nos flashbacks com sua mãe já idosa (vivida pela veterana Julieta Serrano, em um belo reencontro com Banderas) ou quando recebe um amigo de sua juventude em um momento que lhe injeta um ânimo preciso, dá ao espectador a dimensão de como a ligação com o passado é pungente para Salvador.

Lembranças e reminiscências de sua infância 

SUFOCAR OPRESSOR

Aos poucos, ele se desliga daquela fase. E em suas roupas que o levam exatamente ao período de sua infância, um reflexo dessa ligação. Quando já não tem mais nada a que se segurar e o encarar doloroso de sua atual condição de saúde física e mental lhe oprime, o modo como Salvador se apresenta é no pesado vermelho a revelar não uma paixão por qualquer coisa, uma das marcas do diretor, mas um desespero opressor. Um sufocar contínuo do homem diante dos dias que vão se prolongando à sua frente. E isso é algo que Almodóvar inverte de modo perspicaz nesse encarar intimista de uma trajetória de vida.

No uso do cinema como modo de reconstrução de suas memórias, Pedro Almodóvar, apesar de não trazer aqui uma assumida autobiografia, coloca, assim mesmo, sua labuta como forma de salvação. Fazer filmes, criar histórias, registrar trajetórias, é o que o leva para frente. Em Dor e Glória, uma oportunidade, também, para o realizador brincar com a pretensão autoral dentro dessa mesma labuta, quando, em um bate papo pós exibição de seu filme mais marcante, insere um momento hilário em torno da ausência do próprio diretor no debate após a sessão.

É justamente no cinema que Almodóvar se apóia e coloca seu alter ego na figura de Banderas como alguém que, da mesma forma como ele, utiliza a Sétima Arte como forma de salvação. E o brilhante momento em que a última cena revela a origem das lembranças de Salvador, é quando percebemos como a criação cinematográfica foi capaz de retirar aquele homem daquela espiral. Mas, isso, claro, até a próxima batalha surgir. No entanto, para tanto, haverá sempre a possibilidade de exorcizar-se através dos filmes.  

 *Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 16/06/2019