Descartável Humanidade
Dirigido por Clint Eastwood, O Caso Richard Jewell discute o esmagar do cidadão
por um Estado
tirânico e por uma mídia desumana
Por João Paulo Barreto
Há um adesivo na parede do advogado falastrão Watson Bryant,
personagem vivido com energia por Sam Rockwell, que diz: “Tenho mais medo do
governo do que de terroristas”. Lido em um ano tão longínquo quanto o de 1996,
quando a internet engatinhava, celulares ainda (e apenas) telefonavam, ao invés
de espalhar fake news que elegeriam
exemplos desses temíveis governos liderados por terrorista e apoiado por
fanáticos, e as redes sociais ainda seriam um pesadelo reservado ao futuro, o
impacto de tal sentimento oriundo de um advogado ciente dos tentáculos
destruidores de um país autoritário como os Estados Unidos, desenha com
precisão o norte do novo filme de Clint Eastwood.
O foco, aqui, além de um brutal exemplo de como a mídia e o
Estado podem esmagar um cidadão e sua reputação, reside na desconstrução
emocional de um homem vitima de sua ingenuidade e fé em uma diretriz
governamental que ele sempre julgou como incorruptível: aquela que coloca a
segurança do cidadão como prioridade. O Richard do título é esse homem.
Aficionado por aspectos relacionados a procedimentos emergenciais e de
prevenção a acidentes, o jovem Jewell é trazido ao público em sua rotina,
inicialmente com vinte e poucos anos, em um emprego de organizador de
suprimentos de escritório, onde conhece o advogado em questão.
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Tragédia famíliar imposta por uma mídia selvagem e desumana |
Quase dez anos depois, em 1996, a representação legal de
Bryant salvaria a vida de Jewell no caso do atentado a bomba na Olimpíada de
Atlanta, evento onde Richard trabalhava como segurança e foi responsável por
salvar dezenas de vidas ao descobrir uma bomba escondida. Três dias após o
fatídico momento, o funcionário tornou-se suspeito em investigação do FBI e
teve seu nome divulgado por um dos maiores jornais de Atlanta.
Interpretado pelo promissor Paul Walter Hauser (quase um
sósia do verdadeiro Richard), conhecido por participações marcantes em Infiltrado na Klan e Eu, Tonya, a figura de Jewell é trazida
como a de alguém cujo senso de responsabilidade em torno da segurança de
terceiros alcança níveis calculistas e sagazes. Quase até paranóicos. E isso
bem antes de toda paranóia governamental se institucionalizar no pós 11 de
setembro.
DESPREZO JORNALÍSTICO
A destruição da reputação de Jewell e, por consequência, de
sua vida e paz de espírito, aconteceu em nome do aumento das vendas de
exemplares do Atlanta Journal –Constitution. O impresso divulgou o nome do
segurança como investigado pelo FBI (algo que deveria ter sido mantido em
sigilo) em matéria escrita pela então jornalista Kathy Scruggs, que alegou
estar reportando fatos, mas, desse modo, esqueceu-se que a vida de um homem
estava em jogo. Interpretada no filme por Olivia Wilde, a personagem é um dos
pontos frágeis da narrativa, uma vez que a coloca de maneira mal construída em
suas motivações que beiram ao maquiavélico clichê da vilã inescrupulosa. Após a
inocência de Jewell ser provada ainda em 1996, Scruggs enfrentou o ostracismo
em sua carreira, vindo a falecer em 2001.
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Olivia Wilde no papel da inescrupulosa Kathy Scruggs |
Hauser dá a Jewell, em sua corpulência a contrastar com a
maneira delicada como se portava; na construção de uma relação afetuosa com sua
mãe (vivida com ternura e solidez por Kathy Bates), além do tom de voz sempre controlado,
uma doçura que capta a atenção da audiência não de maneira maniqueísta, mas de
forma a mostrar que, até mesmo em suas falhas de conduta (o homem chegou a
fingir ser um policial na juventude), ele tinha uma vontade de fazer o bem. Colocado
no limite da perda desse equilíbrio mental, Hauser constrói a figura de Jewell
como um homem que, de maneira gradativa, vai perdendo a ingenuidade diante dos
golpes que recebe justamente de símbolos de um mundo pelo qual ele mantinha sua
admiração: a lei representada pelo FBI. Seu contra-ataque, porém, não se faz
violento, como seria esperado, mas, sim, equilibrado.
Essa citada desconstrução emocional não é entregue de
maneira óbvia ou manipuladora emocionalmente por Clint ou por seu roteirista,
Billy Ray (que já havia escrito Capitão
Phillip, outra marcante história real). O que Eastwood traz neste aspecto
de seu protagonista chega até mesmo a causar a irritação do espectador diante
de tamanha passividade que Richard Jewell possui em seu bom e (facilmente
manipulável) caráter. Ao chegarmos, finalmente, ao momento em que seu limite
emocional é alcançado, Hauser nos entrega algo em sua atuação que define toda a
proposta de construir e desconstruir emocionalmente o personagem que Ray e
Eastwood propuseram na real história de O
Caso de Richard Jewell.
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Kathy Bates em seu momento central no papel de Bobi Jewell, mãe de Richard |
KATHY BATES
Tal momento final que nos mostra Paul Walter Hauser trazer a
desolação de Jewell paralela a um alívio diante do peso que lhe sai das costas,
acontece, vale citar, após vermos Kathy Bates entregar mais uma atuação de
acordo com sua grandeza.
Notória por suas personagens de posturas fortes e decisivas,
Bates, no papel da tenra Barbara (Bobi) Jewell, tanto em um momento de
desespero diante do que acontece ao seu filho quanto em uma fala à imprensa
diante do inferno causado pela irresponsável matéria jornalística e pela
investigação desastrosa do FBI, traz momentos definidores de sua longa e bela
carreira. Clint, com quase 90 anos de idade, alcança, aqui, o mesmo intento.
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