terça-feira, 28 de agosto de 2018

Onde Está Você, João Gilberto?


Com respeito ao mito, documentário aborda sumiço de João Gilberto

Criador da Bossa Nova tem sua personalidade esmiuçada com delicadeza


Por João Paulo Barreto

O mistério em torno da figura do cantor e compositor João Gilberto já é algo bem notório.  Recluso, o artista não aparece em público faz muito anos e evita contato até mesmo com os amigos de longa data. Essa áurea em torno do ilustre baiano de Juazeiro levou o escritor alemão Marc Fisher a caçar o homem pela cidade do Rio de Janeiro, entrevistando pessoas ligadas a ele e tentando em vão um encontro com o ídolo, cuja canção, Ho-ba-la-lá, fascinou o escritor e se tornou título do livro À Procura de João Gilberto. Marc não chegou a ver seu exímio trabalho de investigação publicado. Morreu em 2011, aos 40 anos de idade.

Corta para 2017 e o cineasta francês Georges Gachot, apaixonado pela música brasileira e diretor de diversos documentários acerca do tema, se debruça sobre a aventura de Fischer. O resultado acaba por cativar o espectador por conta de sua simplicidade. Um dos acertos de Onde Está Você, João Gilberto? reside em não mitificar de modo condescendente a figura do criador da Bossa Nova. Ele, aqui, não é tratado de forma artificial ou bajuladora. Tampouco a privacidade do interprete de Chega de Saudade é invadida. A ideia não é polemizar os problemas recentes em sua vida, mas, sim, abordar suas opções de reclusão.

Gachot em uma de suas muitas andanças pelo Rio em busca de pistas

SEM TALKING HEADS

Do mesmo modo que Fischer se propôs a buscar pelo cantor, Gachot refaz seus passos em uma tentativa de desconstruir a figura do compositor através do contato com diversos nomes de sua trajetória de vida. Mas não como um modo investigativo e inconveniente para desvendar a personalidade de João Gilberto. O que Gachot traz aqui é um meio de honrar o legado de Fischer, cujos últimos passos seguiram a trilha deixada por Gilberto. A estrutura documental de Georges Gachot cativa o espectador de forma a tornar a narrativa envolvente. Muito disso se deve a opção de não apelar para um convencional e batido artifício de “cabeças falantes”, com entrevistas sequenciadas. “Durante as filmagens, fui pouco a pouco perdendo a relação com a realidade que é a essência de um documentário”, afirma o diretor Georges Gachot. “Perdi a objetividade necessária que eu normalmente tive em outros trabalhos. Esse filme se tornou algo pessoal porque me identifiquei com um personagem que se suicidou. Isso me desestabilizou bastante”, explica o diretor ao tocar no trágico fato a respeito do autor Marc Fischer.

Assim, o cineasta revisita os mesmos nomes que Fischer encontrou. Pessoas como João Donato, que fala acerca do processo de composição com Gilberto. Do mesmo modo, a reveladora entrevista com Roberto Menescal, que aborda o peso da amizade com João Gilberto em sua vida. Neste ponto, a não romantização do seu tema, trazendo um sincero depoimento de Menescal sobre sua parceria com João, ajuda na citada desconstrução do mito, mas Gachot opta por fazê-lo com elegância, sem desonrar seu protagonista ausente.       

Ex-esposa de João, Miucha é uma das entrevistadas

ANSEIO DE JOÃO

Nas conversas com Miucha, primeira esposa de João Gilberto, Gachot encontra falas reveladoras acerca da proximidade que Fischer quase concretizou com o cantor. Ao relembrar o jovem escritor alemão, o filme traz a questão da saudade, algo que atormentou o escriba. “O roteiro permitiu transcender a música de João. A vida de Marc e seu destino trágico deu ao meu roteiro uma grande força de expressão. Fischer se tornou uma vitima da saudade. Por dentro, ele se perdeu”, diz o cineasta francês.

Seria inconsequente e irresponsável tentar explicar as razões para Marc Fischer ter optado pela escolha definitiva em seu destino. O filme de Gachot (acertadamente) não se arrisca nesse campo. Mas, distante de qualquer melancolia, a obra leva sutilmente tal reflexão ao espectador. “Ninguém que já conheceu João conseguirá jamais esquecê-lo. Porque ele é anseio. Ele sempre foi. Desde o começo. Ele é intangível como o anseio. Incorpóreo como o anseio”, explicação que surge em certo momento do filme e que corrobora justamente o objetivo de não decifrar seu objeto de estudo.

Na capa de Chega de Saudade, Gachot observa a descrição de Fischer para seu ídolo. “Seus olhos, ao expressar distância, parecem dizer: ‘Vocês não me entendem. Eu não sou como vocês’”. Ainda bem, João. Ainda bem.

* Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, dia 28/08/2018



domingo, 5 de agosto de 2018

Último filme de Conceição Senna será exibido no Cine Ceará


Veterana cineasta baiana encerra carreira como diretora com doc Anjos de Ipanema

Cineasta baiana lança terceiro e último filme no Cine CE 2018

Por João Paulo Barreto

Começa neste dia 04, e segue até domingo, 11 de agosto, a vigésima oitava edição do Cine Ceará, evento que trará diversos destaques da produção ibero-americana, dentre eles o filme da diretora baiana Conceição Senna, Anjos de Ipanema. Terceiro documentário dirigido pela realizadora de 81 anos, o longa aborda a história da contracultura presente no Rio de Janeiro durante a década de 1970 com foco no Pier de Ipanema, ponto de encontro de diversas personalidades do cinema, da música, do teatro e da literatura na capital fluminense.

Conceição Senna teve papel importante na filmografia baiana, atuando em obras seminais como o censurado Caveira My Friend, o marco da ficção cientifica do estado, Abrigo Nuclear, filme de Roberto Pires, além do seminal Iracema – Uma Transa Amazônica, noa qual atuou sob a batuta do companheiro de longa data, o também baiano Orlando Senna. Anjos de Ipanema é definido por ela mesma como a conclusão de seu ciclo cinematográfico como diretora. “É o meu terceiro e último filme. Nos três, eu busquei de alguma forma abordar as transformações que passavam as cidades onde vivi”, explica.

TRAJETÓRIA

Anteriormente, ela dirigiu Memória de Sangue e Brilhantes, documentários que abordam transformações em duas das mais importantes cidades da Bahia. O primeiro, de 1987, trata de Canudos e dos descendentes diretos do povoado que foi massacrado pelo exército durante a insurreição liderada por Antonio Conselheiro. “Foi a cidade onde eu cresci. Para fazer o filme, eu vim de Cuba, país onde morava à época. Reencontrei as minha memórias. Aquilo ali era território de guerra. Quando criança, nós achávamos as balas dos conflitos”, relembra a cineasta.

Brilhante, segundo filme de Conceição Senna, abordou as gravações de Diamante Bruto, filme dirigido por Orlando Senna em 1977. “Quando Orlando esteve lá em Lençóis para filmar Diamante Bruto, a cidade estava desmoronando. Ele captou muito da beleza do lugar. O filme deu muita visibilidade a Lençóis. Tanto que, hoje, trata-se de um dos pólos turísticos principais do Brasil”, salienta. Dirigido em 2006, o documentário Brilhante revisitou as pessoas que participaram do longa de 1977, que tinha José Wilker como protagonista,  e, através de uma criteriosa seleção de material de arquivo, entrega uma reflexão sobre a relação dos moradores tanto com a produção do filme como com a ascensão que a obra deu à cidade. “Em Brilhante, eu quis abordar o mote do ‘pode um filme transformar uma cidade?’, uma vez que foi justamente isso que o trabalho de Orlando fez”, afirma.

QUADRILÁTERO BAIANO

Com seu novo doc, Conceição afirma ter encerrado sua contribuição cinematográfica. Sendo baiana, a cineasta também salienta que o foco do filme teve um salientar para o chamado “Quadrilátero Baiano de Ipanema”, quarteirão formado por ruas cujos nomes levam homenagens a heróis da História da Bahia.  “Após homenagear Canudos e Lençóis, foquei no Rio, cidade onde vivo. Em Anjos de Ipanema, eu captei depoimentos de personalidades que viveram aquele movimento intelectual que teve seu centro no Pier de Ipanema ”,  comenta. Dentre as falas, Maria Gladys, Evandro Mesquita, Graça Medeiros, Luiz Carlos Maciel, pessoas que viveram aquele período de efervescência. “Foi uma época marcante culturalmente, onde as pessoas falavam muito de amor, paz, solidariedade, coisas em falta nos dias de hoje”, conclui.


*Matéria publicada originalmente em A Tarde, dia 05/08/2018