Cameron
Post e seu exemplo a ser seguido
Apesar de seu final esperançoso, o noventista O Mau Exemplo de Cameron Post
encontra
reflexos pessimistas no distópico 2019
Por João Paulo Barreto
A importância da reflexão que filmes como Boy Erased – Uma Verdade Anulada (com
lançamento infelizmente cancelado no país) e O Mau Exemplo de Cameron Post trazem, principalmente a um Brasil
que inicia a galope uma marcha em direção ao pensamento retrógrado e
conservador (para não dizer religioso e politicamente oportunista), é
imensurável. O segundo deles, O Mau
Exemplo de Cameron Post, atualmente em cartaz, leva ao espectador uma
crucial observação acerca da intolerância e do nocivo conflito psicológico
perpetrado pelo citado oportunismo e pelo poder de dominação ideológica que a
religião, prioritariamente de base cristã e atrelada a interesses políticos,
possui. Em um momento no qual a liberdade individual do ser humano em ser o que
ele quer deseja é caçada por instituições e por uma sociedade hipócrita, o
poder de análise que a obra de Desiree Akhavan é palpável.
Mesmo com sua trama se passando em 1993, o filme,
infelizmente, se adequa perfeitamente aos dias atuais. Na história, Cameron,
uma jovem que aos poucos descobre sua sexualidade e preferências, é flagrada
pelo namorado beijando outra garota. Após isso, é enviada pela família a uma
espécie de “clínica de reabilitação” na qual sua opção sexual será orientada de
acordo com preceitos religiosos e a “orientação errada” será subjugada através de
uma série de ensinamentos esdrúxulos. Impossível não imaginar a trama do livro
de Emily M. Danforth como oriunda de um futuro distópico no qual a religião e o
estado buscam dominar o pensamento e as vontades de cada cidadão. Infelizmente,
não precisa ser o futuro. Ao observar o nome do lugar, God´s Promise, a triste constatação é justamente essa. Em 2019, com
“representantes” de Direitos Humanos oferecendo cura gay e ministros de estado
atrelando toda e qualquer decisão pública a justificativas religiosas, é
exatamente isso que já acontece.
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A busca por horizontes na estrada que se descortina |
RÓTULOS DESNECESSÁRIOS
Chlöe Grace Moretz constrói sua Cameron com uma
precisa postura, repleta de dúvidas, mas sem necessariamente se manter submissa
à manipulação alheia. É ela o guia que leva o espectador dentro daquela
experiência que beira o surreal, na qual a individualidade e livre arbítrio de
cada pessoa tornam-se elementos colocados em segundo plano diante de preceitos
manipuladores. Em certo momento, a protagonista escuta da tutora do lugar o
planejamento de que, como primeiro passo, ela deve parar de ver a sim mesma
como uma homossexual. A resposta, o mesmo tempo precisa em sua segurança, mas
ainda proferida por alguém repleta de dúvidas acerca de si mesma, é ouvida como
um alento por quem assiste ao filme. “Não penso em mim como homossexual. Não
penso em mim necessariamente como nada”. É justamente a cena que define Cameron Post. A compreensão de que o
espaço pessoal de cada individuo não deve ser invadido pela necessidade de
rotulação é plena. O Mau Exemplo de
Cameron Post trata justamente
dessa liberdade de escolha. Não a escolha do que cada um deve ser, mas a
escolha intima de que cada um está à vontade com o que sente.
A partir de um desfecho libertador e simbólico em
sua metáfora de estrada que se descortina, o longa dirigido por Akhavan cria
essa ponte entre o período no qual se passam seus acontecimentos e o infeliz
futuro que aquela estrada trará à frente. Impossível não pensar na infelicidade
de se encontrar, ao final daquele caminho, um século XXI ainda mais retrógrado
quanto o que se vê naquele distante 1993.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 03/05/2019
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