Dhalia concede movimento à maestria de Quintanilha
(Brasil, 2018) Direção: Heitor Dhalia. Com Fabrício Boliveira, Wesley Guimarães, José Dumont.
Por João
Paulo Barreto
“Bom é quando não tem
erro. O negócio é meter logo bomba, pai!” A frase simbólica proferida pelo
narrador enquanto pescadores trapaceiam no mar da cidade baixa, às margens do
Forte de Monte Serrat, reverbera na vida de todos os personagens de Tungstênio, novo filme de Heitor Dhalia.
E o peso da tensão oriunda das explosões a matar os peixes parece afetar não
somente àqueles que estão próximos, mas se alastra como uma teia na vida de outros
indivíduos, colocando-os em situações limítrofes. E essa série de narrativas
paralelas é algo que o longa exibe de modo constante, quase frenético, e com
uma fluidez palpável, passando de um arco para o outro e retornando ao seu
ponto, sem atropelos.
Dhalia, a partir da obra original de Marcello Quintanilha, captou
de modo pungente a criação do seu autor. O que o espectador presencia na tela é
um encadeamento de histórias lineares e não lineares, com flashbacks distantes
e recentes, tudo em uma urgência que, apesar de sua velocidade, consegue se
tornar fluída na narrativa, sem confusão para o espectador. Oriunda de uma história
em quadrinhos na qual Quintanilha explora ao máximo as formas de contar uma saga
através dessa arte específica, Dhalia tinha em mãos o desafio de transformar em
imagens em movimento aquela graphic novel que já possuía uma estrutura com enquadramentos
cinematográficos. Mas não que isso torne fácil o trabalho do diretor. O desafio
aqui é ainda maior na busca de tentar transcrever em movimentos reais algo que
parecia já possuí-los nas páginas impressas.
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Seu Ney (Dumont) libera a fúria repreendida |
Na história, Seu Ney (um José Dumont inspirado) deixa
subir-lhe à cabeça a arrogância dos tempos de militarismo ao exigir que os dois
pescadores sejam autuados pela pesca predatória. Caju, jovem com pequenos
furtos e tráfico no currículo, é a vitima da raiva do homem. Acaba aceitando
forçadamente ajudá-lo e telefona para um conhecido, Richard, policial truculento
que vai até a praia em busca dos meliantes que pescam com bomba. É neste ponto
que a violência que parece ligar a todos e mantê-los em um mesmo patamar se
confirma como fio condutor do filme. A explosão de fúria abarca a todos. Tungstênio ilustra bem o fato de que a
mesma truculência que abarca militares reformados como Ney, atua de forma igual
na conduta de Richard (Fabrício Boliveira, insano). A violência vicia. Pode
ficar adormecida por um período, mas sempre está ali à espreita, buscando
escapar. E na obra de Quintanilha, quando ela escapa, é implacável em seu
estrago, algo que Dhalia ilustra com maestria.
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Fabrício Boliveira na pele de Richard: truculência militar de geração para geração |
A cidade de Salvador, aqui, pode até ter berimbaus ao fundo,
como que a ilustrar seu calor e trânsito infernais, mas foge de qualquer clichê
global de baianidade e povo condenado a ser feliz. Aqui, é cobra comendo cobra.
A voz over de Milhem Cortaz não pega o espectador pela mão de modo didático.
Ela se faz presente como um comichão a incomodar e mostrar com ainda mais
crueza aquela realidade. Caju é surrado pelo militar reformado e busca sua
vingança contra aquela agressão. Mas, ao mesmo tempo, rouba um telefone de uma
trabalhadora e engana um amigo que vende geladinho. Não há autopiedade que dure
muito tempo quando sobreviver fala mais alto. E que se danem os escrúpulos.
Caju é um exemplo dessa sobrevivência forçada. Apanha na cara de vários, mas
que só ousa se vingar de um. No seu papel, Wesley Guimarães consegue trazer uma
frustração pulsante. Desde a falta que faz seu pai, morto sete anos antes, até
o ódio e admiração simultâneos que sente por Richard, o rapaz transmite tais
sentimentos de forma a captar a atenção do espectador sem os estereótipos
comuns quando soteropolitanos são representados. Um achado.
Sem redenção, Tungstênio
é tão pesado quanto o metal de seu título. Qualquer esperança de final
feliz quando um encontro inesperado é presenciado por Caju com um olhar de
curiosidade e quase satisfação cai por terra no seu desfecho virulento e brutal
que deixa as marcas não só no personagem quanto no público. “O negócio é meter
logo bomba, pai!”. E foi justamente isso que Dhalia e Quintanilha fizeram aqui.
* Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, dia 21/06/2017
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