Vidas descartáveis
Em filme-denúncia, Mark Ruffalo e Todd Haynes entregam a
negligência monstruosa da gigante Dupont no condenar de vidas humanas visando
lucro
Por João Paulo Barreto
Notório em uma louvável e constante postura ativista no uso
de sua voz enquanto privilegiado pela consagrada carreira de ator, Mark Ruffalo
tem na sua biografia diversas ações em causas humanitárias, ambientalistas e
voltadas para minorias. Como produtor e protagonista de O Preço da Verdade, título genérico e pobre para o impactante Dark Waters (Águas Sombrias, em tradução
literal), o Hulk dos filmes da Marvel assume mais um respeitado papel no
disseminar de fatos a beneficiar o conhecimento público e provar o cinema como
meio de informação além do entretenimento. Sim, por mais que a “namoradinha do
Brasil” e lambe botas, Regina Duarte, não ache, o cinema deve, sim, possuir um
viés ideológico.
Dito isso, o foco aqui vai para o caso real do envenenamento
pela Dupont , a gigante da indústria química, das águas fluviais da cidade de
Parkersburg e região, na estadunidense Virginia Ocidental (a West Virginia
imortalizada na letra de John Denver). Ruffalo vive o advogado Rob Bilott que,
em meados dos anos 1990, quando se tornara sócio do escritório de advocacia
onde atuava, recebe a denúncia de Wilbur Tennant, fazendeiro local que perdeu
190 cabeças de gado em circunstâncias estranhas e que o levaram a desconfiar do
envenenamento das águas em sua propriedade.
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Billot chega à fazenda de gado onde 190 vacas morreram envenenadas |
Com uma promissora carreira em defesa justamente de empresas
químicas em processos legais, Bilott teve uma reviravolta profissional ao
abraçar a investigação contra a Dupont, mesmo que isso viesse a significar
lutar contra burocratas que enterram segredos corporativos em anos de processos
jurídicos. Como um peso ainda maior em sua consciência, o escritório onde
trabalhava tinha na indústria química um parceiro financeiro significativo.
Assim, Billot, ao assumir a investigação e processos legais contra a Dupont,
foi de encontro a uma palpável fonte de renda em seu próprio ganha pão. Porém, o
rastro putrefato de negligências e irresponsabilidades que a empresa trazia em
sua trajetória na cidade de Parkersburg e arredores, bem como as ocorrências de
tragédias pessoais que tais negligências causaram a seus habitantes, era algo
que não se podia ignorar diante do “jogar para debaixo do tapete” que se
tornaram as atitudes da Dupont.
DESPREZÍVEL CORPORAÇÃO
O diretor Todd Haynes assume a batuta na criação da
atmosfera que, gradativamente, se torna sufocante na vida de Rob Billot diante
dos quase vinte anos que O Preço da
Verdade traz em seu recorte. Neste período, vemos o homem bater de frente a
magnatas da indústria que levaram à frente o uso, por exemplo, do teflon, marca
conhecida por tornar impermeável tecidos e facilitar a limpeza de utensílios
domésticos. Tal uso revelou a liberação
de produtos tóxicos que, na corrente sanguínea, causaria, dentre outros males,
câncer em diversos órgãos. Do mesmo modo, o impacto em gestantes foi percebido
pela desprezível corporação, mas ignorado, mesmo que o nascimento de bebês com
deformações tenha chegado ao conhecimento dos executivos.
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Anne Hathaway vive Sarah, a esposa de Billot: testemunha de um colapso |
Mark Ruffalo constrói seu personagem justamente nesse patamar
de gradativa perda de um equilíbrio físico e psicológico. Inserindo elipses de
tempo eficientes tanto no contar da história pregressa em paralelo à evolução
da atuação do advogado no caso, bem como no mostrar do nascer e crescer dos
três filhos do defensor, o diretor Todd Haynes dá ao espectador não somente uma
noção do peso do tempo que as lutas em tribunais e no contato com as vítimas têm
na vida de Billot. Aqui, ter acesso aos
resultados de tais negligências nas vidas de pais de crianças que nasceram com
suas saúdes comprometidas afeta, inclusive, a vida do advogado que se coloca no
lugar daquelas pessoas.
Assim, não apenas a queda das vitimas diretas da
monstruosidade causada pela Dupont, mas o colapso nervoso e físico de um homem
que vai entregando todo seu potencial contra uma corporação é exibido nas pouco
mais de duas horas de projeção. Quando uma das vitimas reais da empresa química
surge em tela, representando a si mesma e tentando viver uma vida normal diante
de sua deformação física e sofrimento que lhe perseguiu em sua existência, a
pergunta que ele faz a Billot acerca de um jogo esportivo concede um lapso de
esperança ao espectador. As manchas daquelas águas sombrias que soam como uma
metáfora exata para o que o filme de Todd Haynes nos traz como reflexão para o
mundo capitalista e desumano permanecem, porém.
Em tempo: há um documentário intitulado The Devil We Know que aborda com profundidade toda a denúncia feita
contra a Dupont. Imprescindível assistir.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 14/02/2020
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