Investindo em uma ambientação menos soturna e mais
calcada na comédia, a DC acerta ao mudar o foco de seu universo
Shazam!, a
palavra mágica do humor
Por João Paulo Barreto
O humor nas adaptações cinematográficas dos heróis
das histórias em quadrinhos, apesar de que não era um elemento a nortear
roteiros, sempre esteve presente. Talvez não do modo pastelão como os
coadjuvantes de Lex Luthor nos clássicos Superman
dirigidos por Richard Donner e Richard Lester, mas utilizar textos
engraçados como forma de tornar palatáveis as cenas de ação e criar uma empatia
maior com o protagonista e seus dramas, era uma forma de aproximar o espectador
da obra, convidando-o a se inserir durante aqueles pouco mais de 120 minutos de
aventuras. A Marvel Studios, ao se lançar no mercado em 2008 com Homem de Ferro, percebeu essa fórmula de
imediato, investindo em um protagonista tão perfeito em suas tiradas de comédia
que acabara por tornar Robert Downey Jr. o rosto símbolo daquela nova onda de
filmes de super-heróis. A mesma Marvel Studios, em 2017, chegou a dar um passo
além, colocando um dos seus personagens símbolo, o Thor, como centro de uma
galhofa (excelente, por sinal) chamada Ragnarok.
Não sendo do estúdio responsável por Vingadores,
mas oriundo da mesma Marvel Comics que o saudoso Stan Lee ajudara a criar, Deadpool , filme de 2016, foi ainda mais
além por permitir aos roteiristas uma quebra
da quarta parede (quando o
personagem conversa com o público) e colocar seu protagonista como um, digamos,
desconstrutor daquela gênese. Bastam dez minutos de Deadpool para perceber do que se trata.
Do outro lado, a DC Comics, que não possui um
estúdio próprio, mas desde sempre dá vida aos seus personagens através da
Warner Brothers, seguiu por um caminho inverso em suas adaptações. Sem contar a
já clássica trilogia Cavaleiro das
Trevas, redefinição do que pode ser considerado um filme de super-herói que
o britânico Christopher Nolan trouxe às telas a partir de 2005, os filmes do
chamado DCU (DC Universe), Homem de Aço, de
2013, Batman v. Superman, de 2016 e Liga
da Justiça, de 2017, seguiram por um lado oposto, trazendo tramas mais densas
e pesadas, personagens centrais atormentados por questões existenciais que
beiram ao depressivo, além de um visual excessivamente sombrio que distanciam a
experiência de imersão fílmica do equilíbrio entre diversão e reflexão. Porém,
friso que não há nenhum problema em propostas mais densas e dramáticas para
super-heróis (o excelente Watchmen é
uma prova disso), mas tornar essa uma marca dos seus filmes acaba por gerar
certo desgaste após várias adaptações. E mesmo o uso da comédia deve ser
colocado como algo a ser dosado, sob o risco de tornar a mesma piada sem graça
quando contada várias vezes, como foi o caso da continuação de Deadpool. O equilíbrio, digamos, Vingadores de se mesclar comédia com
ação e drama é algo a ser colocado
como meta.
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Grazer e Levi: química perfeita |
CARISMA PALPÁVEL
Shazam!,
a
resposta da DC/Warner à mescla comédia galhofa e ação de Deadpool e Thor: Ragnarok, uma
sessão da tarde no melhor sentido da expressão, alcança resultado positivo por
conta do carisma da dupla de protagonistas Zachary Levi, que vive a versão adulta
do herói, e do jovem Jack Dylan Grazer, seu tagarela irmão adotivo. A ideia
prioritária, aqui, é a de focar na leveza da comédia para contar a história
traumática de um órfão em busca de seus pais. Nas mãos de Zach Snyder, diretor
de dois dos filmes da DC citados anteriormente, a melancolia dessa saga seria
evidente. Mas, o que o diretor David F. Sandberg, surpreendentemente oriundo do
universo dos filmes de terror, propõe ao dar vida ao roteiro de Henry Garden,
um estreante no campo dos super-heróis, é algo que diverte por se fazer valer
de alguns dos elementos que o citado antiherói tagarela da Marvel inseriu, que
são as brincadeiras com o próprio DCU. Assim, quando vemos as brincadeiras com
o nome do herói (que nos quadrinhos é conhecido como Capitão Marvel, um
impeditivo óbvio para o cinema), sua capa que parece algo oriundo de vestido de
noiva, como alguém pontua no filme, além das referências aos dois heróis
pilares da DC, entendemos qual a proposta aqui.
Em certo momento, por exemplo, os garotos começam a
testar os poderes do herói, listando as diversas possibilidades que seu
background de cultura pop lhes permite observar. Neste aspecto, Grazer acaba
por roubar a cena com seu perfil falastrão e de ironia acentuada. Sandberg sabe
a ferramenta que tem em mãos, no entanto. Busca não abusar das piadas de
metalinguagem, como acontece em Deadpool,
sendo que, aqui, só o fato de não haver a quebra da quarta parede já é algo
louvável. Assim, a inserção de Shazam! como
parte do DCU acontece de modo orgânico, sem a necessidade de diálogos
expositivos que servem de muleta para o espectador.
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Humor como modo de brincar com o universo dos heróis |
DRAMA ORGÂNICO
Fazendo-se valer de uma história de superação de um
órfão em busca de seu lugar, o filme acerta na criação de uma empatia do
público com o personagem, que no olhar perdido de Asher Angel, que vive o
garoto Billy Batson, consegue denotar todo o drama do menino que esconde no
humor e no sarcasmo uma personalidade atormentada. A libertação ao dizer a
palavra mágica que o transforma no super-herói encontra em Zachary Levi uma
presença que reflete justamente essa liberdade. Na figura escandalosa e hilária
do menino em um corpo de adulto, Billy acaba encontrar seus meios de extravasar
suas frustrações. E o filme constrói aquele amadurecimento de modo bastante
eficiente ao colocar tanto o herói hilário de Levi quanto o sofrido deficiente
Freddy, de Grazer, em conflitos pessoais e com seus familiares que, aos poucos,
os levam a perceber o nível dos seus próprios poderes de transformação.
Fiel ao seu material original nos quadrinhos, algo
que justifica a inserção dos descartáveis monstros digitais a representar os
sete pecados capitais (mesmo que se trate de personagens que não colaborem
muito para o desenvolvimento de uma história que busca fugir do simples
maniqueísmo de bem vs mal), Shazam! se
sai bem em sua premissa de humor que brinca com os elementos do universo que o
criou. É uma nova proposta de equilíbrio entre o soturno costumaz das
adaptações anteriores com a já dita leveza do humor que a possibilidade de fazer
piada consigo mesmo e com a cultura pop permite. Ver as referências a Quero ser Grande, Rocky – Um Lutador e
até mesmo à voz de Christian Bale como Batman
são passos significativos para um novo caminho das versões cinematográficas
dos seus personagens. E não precisava de mágica para perceber isso, cara DC
Comics.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 08/04/2019
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