Caminhos Perigosos, Pontes Fechadas
Claustrofóbico e intenso em sua violência, Crime
sem Saída, apesar do genérico nome nacional, reflete bem a metáfora das 21
Pontes fechadas do seu título original
Por João Paulo Barreto
Há um frenesi constante nos 99 minutos de Crime sem Saída (título nacional genérico
e preguiçoso que quebra o impacto e a metáfora de seu original, 21 Pontes) que colabora com precisão na
criação de uma claustrofobia para seus personagens e, por consequência, para o
seu público.
Na história da busca pela captura de dois suspeitos de assassinar
oito policiais durante um roubo de drogas, e deixar a cena do crime com 50
quilos de cocaína, essa construção de uma atmosfera claustrofóbica,
curiosamente, reflete não em um único local fechado como ponto de partida, mas,
sim, toda a ilha de Manhattan. E tal ambientação, construída a partir da busca
frenética de um policial honesto dentro de um ninho de ratos corruptos e
fardados, alcança este intento não somente com enquadramentos e cenários
sufocantes nas suas cenas de tiroteios, mas, de maneira inversa, também nas
várias imagens aéreas da cidade de Nova York e das 21 pontes do rio Hudson, fechadas
para impedir a fuga dos suspeitos.
Chadwick Boseman, notório ator que interpretou o Pantera
Negra nos filmes da Marvel Studios, desenha com precisão a pressão sofrida por
seu protagonista, o detetive Andre Davis, dentro daquela rede de corrupção e
morte que gradativamente vai se estendendo como cenário para sua busca pelos
dois supostos assassinos. Com uma conturbada herança familiar, o filho de um
também policial famoso por sua competência, porém morto violentamente em ação,
Andre segue os passos do pai dentro de um universo no qual sua sombra e lenda
pesam-lhe nos ombros.
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Boseman no papel do detetive Andre Davis: peso diante da lenda do pai |
PONTES METAFÓRICAS
Aprofundando a trajetória dos dois supostos antagonistas que cometem os crimes
(vividos por Stephen James e Taylor Kitsch) com peso semelhante ao que
desenvolve o drama do próprio Andre Davis, Crime
sem Saída concede uma reflexão acerca dos dois lados daquela trajetória de
violência. A mesma violência que massacrou a infância de Andre, mas que, com o
guia certo, pôde ser colocado nos trilhos da justiça, foi a que mutilou a
família do jovem Michael, fazendo-o ceder a um impulso que, sem o mesmo tipo de
guia e direcionado pela fúria constante da não aceitação, o levou para um
caminho tortuoso cujo final refletiu em uma tragicidade.
Em seu título original, 21
Pontes, uma pertinente metáfora para tal construção dos personagens em fuga
é construída. Ao desenvolver o personagem de Stephen James como um jovem de
infância conturbada pela perda do irmão mais velho na guerra do Afeganistão e a
tentativa desastrosa de seguir seus passos nas forças armadas, o filme tem no
fechamento das pontes de Manhattan para impedir sua fuga, uma rima precisa para
todos os caminhos que foram fechados na vida do jovem Michael.
Stephen James, que já havia brilhado em Raça e Se a Rua Beale Falasse,
traz em seu olhar perdido durante seus tropeços criminosos, mas obstinado ao
perceber o quão profundo é o abismo de corrupção miliciana em que se afunda, um
peso essencial para a tragicidade de seu personagem.
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Stephen James em sua simbólica cena |
REALIDADES DISTINTAS
Nesse paralelo que a obra desenha, exibindo duas vidas oriundas de tragicidades
semelhantes, mas escapando por diferentes caminhos, o filme constrói essa
relação entre as existências conturbadas de suas duas figuras centrais.
Michael, em seu desespero por perceber-se levado em um turbilhão do qual perdera
qualquer controle, encontra pragmatismo e um pouco de fé na para encarar os
olhos do seu talvez algoz, Andre.
A cena em questão coloca os dois homens cara a cara em um
vagão de trem, em mais um dos símbolos da claustrofobia oferecida pelo diretor
Brian Kirk (conhecido pela direção de alguns episódios de Game of Thrones). O momento põe os dois personagens apontando armas
simultâneas entre si. Dois extremos de uma mesma origem de violência. Dois
homens negros em desesperos semelhantes e, gradativamente, vitimas caçadas
pelos mesmos algozes.
Em sua conclusão, a cena insere um terceiro personagem.
Branco. Corrupto. Assassino. Manipulador. Como um símbolo vergonhoso para uma
suposta justificativa para os atos de corrupção, o diálogo que fecha o filme
traz uma ótima oportunidade para observar como funciona a deturpação de um
sistema de segurança falido moralmente, onde policiais oprimem através do medo,
impondo não autoridade, mas, sim, terror. Vindo de um país como os Estados
Unidos, a mensagem contida em um filme de rótulo de ação é muito bem vinda à
reflexão.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde dia 13/12/2019
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