Questa
Cosa Nostra
MÁFIA Disponível em streaming pela HBO, Família Soprano, série que redefiniu a TV no começo do século 21, chega à segunda década de existência ainda influenciando o gênero da máfia e as novas audiência
Por João Paulo Barreto
Por João Paulo Barreto
Mas, em um exercício de cinefilia e imaginação, e se quiséssemos mergulhar mais profundamente nos tormentos psicológicos sofridos por tais homens? E nos tormentos das mulheres? Aquelas que habitam um ambiente tão machista, misógino, excludente e perverso. Quais são os pontos de vistas delas diante de tal universo massacrante? Mama Corlene, Connie, a única filha do clã, ou Kay, esposa de Michael, são todas excluídas no desenvolvimento emocional daqueles arcos (excetuando a figura de Kay, cuja participação se torna pilar na trajetória do marido – mas, veja que, mesmo assim, ela ainda vive sob aquela sombra). Mas a pergunta central nesse exercício é: e se aqueles homens não fossem as fortalezas que aparentam? Quais seriam as suas fraquezas?
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Lealdade até a morte: Tony e seus capos |
O diretor e roteirista David Chase, no final dos anos 1990,
ao criar The Sopranos (no Brasil, Família Soprano), propôs justamente essa
reflexão à sua audiência obcecada pelo mundo da Máfia no cinema. Qual é o peso
daquela responsabilidade, daquela força tradicional, familiar, oriunda de uma
prática criminosa milenar, nas costas do líder daquela organização (ou famiglia) que encara aquilo não como
algo condenável, mas, sim, apenas como negócios? Como algo deles ou uma "cosa nostra". Na figura do chefe
daquela família está Tony Soprano (papel que o saudoso James Gandolfini nascera
para interpretar), homem que equilibra carisma, sorrisos e personalidade
aprazível com (quando necessário) agressividade, brutalidade e respeito imposto
de maneira calculista àqueles a quem comanda. No primeiro capítulo, conhecemos
Tony naquele traje que se tornará habitual durante os 86 episódios da série: o
roupão de banho que usa no conforto da sua luxuosa casa. É também nesse
episódio piloto que sua fraqueza nos é apresentada: os constantes ataques de
pânico que surgem a partir da perda de bichos que ele considerava de estimação
(alguns patos selvagens que habitavam sua piscina). Nessa simples apresentação,
todo um universo de discussão psicológica denotada na partida dos animais é
estudado pela médica psiquiatra Jennifer Melfi (Lorraine Bracco, de Os Bons Companheiros) em sessões que
visam entender o que o peso daquela vida de “negócios”, bem como os conflitos
com sua mãe doente e família conturbada, têm causado à saúde mental de Tony.
ALÉM DOS HOMENS
Questões como a da culpa católica, fé, homossexualidade,
conflitos existenciais, tradição vs. modernidade e até mesmo matricídio são
abordadas durante as seis temporadas da série que terminou em 2007. E não
somente o ponto de vista de Tony Soprano é mostrado dentro desses temas. Mesmo
que, desde a sua vinheta de abertura até a simbólica cena final, o show traga a
visão de mundo do chefe da família através da qual a audiência é apresentada
àquele universo, Família Soprano dedica
muitos de seus episódios aos dramas de suas personagens femininas. A começar
pela análise de Carmela Soprano (Eddie Falco), mulher de um Tony bígamo e que
reprime qualquer discussão ou questionamento trazido por sua esposa diante de
um casamento que se desgasta. Ainda assim,temos na figura de Carmela mais uma
personagem a destoar do que conhecemos da presença feminina na Máfia dentro do
Cinema, e encontramos um dos melhores arcos e reflexões oferecidas pelo time de
roteiristas liderado por David Chase no seriado vencedor de cinco Globos de
Ouro.
Dentro de uma existência hipócrita, na qual reconhece
intimamente que todo o luxo de sua vida advém dos crimes de seu marido, ela
busca, em sua visão religiosa de mundo, atenuar sua culpa, criando vínculos
sociais com a igreja e com doações financeiras generosas à universidade onde
estuda a primogênita. Os filhos, ainda crianças no começo da série, são outros
personagens estudados dentro daquele mundo de crime, cujo espelho acaba
servindo-lhes de maneira a machucá-los quase irremediavelmente, como vimos na
vida de Anthony Jr., caçula de Tony, que chega à fase adulta passando por
diversos dramas e crises depressivas.
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Carmela e filhos: família (não tão) feliz
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Ainda no aspecto feminino, a veterana Nancy Marchand, que
interpretou Livia Soprano, a mãe de Tony, traz para a série um riquíssimo
estudo de uma relação freudiana com o chefe da família que seguiu os passos do
pai, o falecido marido de Livia, Johnny Soprano. Nos conflitos nervosos e
calcados em uma total falta de inteligência emocional entre Tony e sua mãe,
descobrimos, tanto através dos encontros explosivos entre ambos quanto pelas
consultas médicas entre ele e a Dra. Melfi, que boa parte dos sentimentos
reprimidos pelo chefão da máfia em Nova Jersey advém do constante atrito
oriundo da criação provida por sua mãe. Algo que, desde o principio, eleva a
série a um patamar especial de apreciação por permitir tal destrinchar mental de
seu protagonista.
“GANHA PÃO”
“É meu feijão com
arroz. Meu ganha pão. Esse é o meu meio de vida.” É assim que Tony
classifica sua maneira de ganhar dinheiro durante uma violenta cobrança da
dívida que um ex-amigo dos tempos de colégio, e atual viciado em apostas, fez
com ele em um jogo de pôquer de alto lastro. Na tentativa de apelar para a
empatia pela trajetória de vida que ambos carregam, o amigo comete o erro de
abusar da falsa simpatia que Tony tem por ele e acaba sofrendo as consequências
de não seguir os conselhos do colega de classe em não apostar alto. A frase citada explica de maneira exata o
modo como Anthony Soprano, em sua deturpada visão da realidade, enxerga o mundo
a sua volta. Contraditório, trata-se de um homicida que se compadece da perda
de animais mortos ou maltratados, algo que a série trabalha com maestria ao
definir e estudar profundamente a psicopatia assassina do seu protagonista. Em
seus sonhos ilustrados pela realidade surreal representada pelo texto de David
Chase, Tony parece visitar uma obra de Buñel, com seus traços visuais e
sonoros. Tudo na simbólica linha tênue do caos no qual sua vida caminha.
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Livia e Tony: fracassada tentativa de laços familiares |
Em uma série que contou com presenças de cineastas como
Peter Bogdanovich, Sydney Pollack, bem como ícones na atuação como Frank
Vincent, Steve Buscemi, Robert Loggia e Dominic Chianese, revisitá-la vinte
anos após sua estreia e treze anos desde seu final, nos faz perceber o quanto
sua relevância dentro de uma sagaz escrita e abordagem de um mundo brutal ainda
fascina. Tanto quanto a obra de Puzo e Coppola, reverenciada e referenciada em
vários momentos de The Sopranos.
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