Horror
sem Censura
ARTE
SEQUENCIAL Dentro de uma proposta do terror e do fantástico calcada em
publicações clássicas dentro dos quadrinhos de gênero, HQ baiana Pandemonium
está em financiamento coletivo
Por João Paulo Barreto
O mercado editorial dos quadrinhos independentes, distantes da
realidade de gigantes como a editora Panini e sua extensa gama de edições que
variam entre simples brochuras a luxuosos (e caros) encadernados, respira em um
ritmo diferente de sobrevivência.Também há exemplos de sucessos com editoras que surgiram
como projetos independentes de amigos, leitores
e colecionadores (como é o caso da bem sucedida Pipoca&Nanquim), mas há diversos outros artistas do lápis e
escritores entusiastas dessa representação cultural. Tais artistas seguem em
uma luta constante no escalar dos infernos atrelados a conseguir produzir,
imprimir e levar ao público leitor (e colecionador) de quadrinhos um material
de qualidade dentro do nicho da literatura de gênero do terror e do fantástico.
Uma analogia (um tanto gratuita, verdade) a Alighieri nessa linha anterior apenas para que seja possível traçar uma ponte entre os escritos infernais de Dante e, assim, pode falar de John Milton e seu Paraíso Perdido. Lá, o palácio do rei das trevas era chamado na obra do século XV de Pandemonium. O nome, bastante apropriado, diga-se de passagem, batiza o quadrinho tocado por alguns autores daqui da Bahia. Pandemonium, coletânea de histórias que caminha entre o fantástico, o terror gore e slasher, bem como o psicológico, com inserções de noir e ficção pós apocalíptica, está em financiamento coletivo pelo Catarse (catarse.me/pandemonium) e delineia um mercado editorial na Bahia e no Brasil que encontra um público cativo e ávido por histórias dentro do gênero abordado.
Idealizado pelo coletivo Quadrinhos de Emergência e pelo grupo por trás da Mostra CINE HORROR, Pandemonium tem como um dos um dos roteiristas/desenhistas o artista gráfico Valmar Oliveira. Aqui, Valmar analisa
a questão da barreira financeira para trazer a esse público obras criativas e
impactantes dentro dessa proposta. "A parte financeira é
um grande problema. Como uma publicação independente, temos o preço do papel e
das gráficas que sempre varia. O financiamento coletivo é uma forma de
pré-venda na qual contamos com os
interessados em adquirir o produto. Nós, assim,
só imprimimos a quantidade realmente necessária. Mas tem outro fator que
é a divulgação para que as pessoas tenham conhecimento do projeto. Como existem
vários quadrinhos sendo planejados e lançados, temos um grande trabalho para
aparecermos e nos destacarmos. Sem a devida divulgação, não temos como alcançar
nosso público alvo, e, por consequência, não teremos como alcançar o objetivo
de lançar nossa publicação", explica Valmar.
O co-autor Valmar Oliveira |
LINHAS EDITORIAIS
Outro aspecto a ser destacado dentro dessa
dificuldade reside na resistência de algumas linhas editoriais em enxergar o
potencial dos quadrinhos dentro da proposta do terror e do fantástico. Seja
isso por medo de uma patrulha virtual, tão comum na era dos
"cancelamentos", ou por não acreditarem que tais publicações possam
gerar retorno em vendas. Roteirista presente em Pandemonium, Saul Mendez Filho destaca que, para algumas editoras,
" é mais
difícil apostar hoje em algo novo que possa ser linchado virtualmente do que em
uma franquia estabelecida, ainda que a mesma seja considerada “incorreta” em
diversos sentidos. Existem marcas e personalidades que sempre estarão livres de
ataque, e outras não".
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O co-autor Saul Mendez Filho |
O co-autor traz um exemplo preciso ao abordar as
diferentes mídias em análise de uma obra mundialmente conhecida como Lolita. " ainda hoje se assiste Lolita, filme de Kubrick, nos círculos cinéfilos, sem qualquer comentário
que não seja elogioso. Ao mesmo tempo se cancela Nabokov e sua obra literária,
ainda que o livro possua mais questionamento e culpa em seus milhares de
caracteres em relação às aplaudidas linhas de roteiro que foram confeccionadas
pelo próprio autor para o filme. Kubrick nunca será criticado, porque isso se
tornou um padrão. Da mesma forma, criticar alguns nomes específicos – como
Woody Allen - se torna um padrão, e a sensação de participar na internet de um grupo
que concorda é sempre fantástica. Em grupo, se abate quem pensa diferente com
muita maestria", compara Saul.
LIBERDADE DE EXPRESSÃO
A análise em relação ao tipo de julgamento oriundo
do público não familiarizado com a proposta dos quadrinho de gênero ganha
contornos mais profundos quando alcança aspectos da liberdade de expressão.
Valmar Oliveira levanta alguns dos questionamentos que tiveram por parte de
editoras. "Tivemos criticas em relação ao nome, que diziam ser uma alusão
à pandemia, além de criticas à nudez na capa e ao conteúdo de algumas historias.
O nome da revista é referência ao clássico O
Paraíso Perdido (1667), de John Milton. A nudez é algo clássico nas
revistas de horror e ficção das épocas que nos inspiram, e parecia lógico usar
a incrível arte do Hélcio Rogério, um ilustrador baiano premiado".
Valmar aprofunda essa questão no que se refere à
responsabilidade atrelada a tal liberdade. "Em plena democracia, não
podemos ter medo de nos expressar livremente. Liberdade é a base de toda
democracia. A intolerância não pode vir por parte de quem deveria, justamente,
defender a liberdade de pensamento e a pluralidade de ideias. Queremos, sim,
abordar temas polêmicos com responsabilidade, ter liberdade de desenhar e
escrever o que queremos. Não estamos fazendo apologias a violências de qualquer
natureza. Se alguém não gostar de nossa
publicação, é só não ler", pontua.
A liberdade de
expressão caminha de mãos dadas com a responsabilidade citada acima. Haverá um
público consciente dessa proposta de literatura e interessado em consumir. Saul
Mendez Filho complementa afirmando que "a Pandemonium
é uma questão de escolha para o leitor, assim como o é para uma editora. Mas em
algum momento, em meio a toda essa onda de cancelamentos que tende a moldar a
multiplicidade a uma só perspectiva do real, haverá de caber o auto-julgamento
se seguiram o melhor caminho de fato. Chegarão até eles, também, julgamentos
reversos completamente esdrúxulos e inesperados por parte dos consumidores. As
editoras não estão livres disso. O melhor é sempre a sinceridade consigo mesmo
e com seu próprio projeto. Ninguém é algum '...ista' só porque decidiram",
finaliza.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 05/09/2020
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