O Declínio Imperialista
Apesar de previsível em suas reviravoltas, novo Star Wars encerra com boa reflexão
político-social, emoção e espetáculo visual a trilogia Jedi dessa década
Por João Paulo Barreto
Após dois filmes nos quais a emoção do reencontro com velhos
personagens, bem como com elementos pilares da clássica trilogia Star Wars, se sobrepunha dentro da trama
em termos de impacto junto às audiências compostas tanto por fãs fervorosos como
por apenas apreciadores de ficção espacial e da saga criada por George Lucas, o
fechamento da nova série de longas iniciada em 2015 sob a batuta de J.J. Abrams
retorna à essência original da ideia de Guerra nas Estrelas como um contexto prioritariamente
da luta de classes por sobrevivência.
Sim, basicamente, neste último capítulo da terceira
trilogia, o que se propõe é colocar em evidência a ideia precisa de uma resistência
indo contra um opressor (ou ideia opressora) que retorna gradativamente à sua
força de dominação, tentando espalhar seu poder (ou influência) através da
violência (ou de ofertas falsamente promissoras que, ao final, só beneficiarão
os seus), mas que bate de frente com a união de pessoas cientes que aquele mal
não pode retornar das trevas.
Sim, qualquer semelhança com a realidade, infelizmente, não
é mera coincidência e, ainda mais infelizmente, aqui, na nossa galáxia do real,
o Lado Sombrio da Força está vencendo. E, sim. É exatamente isso. Tomei a
liberdade de salientar um contexto político brasileiro nessa crítica. Nunca é
demais lembrar-se do abismo do nosso próprio “Dark Side” e pretenso “Império”.
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Rey e seu momento da verdade no despertar de sua Força |
UNIÃO FAZ A FORÇA
Por este caminho, é bastante pontual que em seu tomo de
encerramento, a trilogia volte à premissa original do clássico de 1977,
colocando como argumento central a batalha pela sobrevivência de diversos povos
unidos por um ideal de vida e contra a dominação armamentícia e econômica de um
Império capaz de destruir todo um planeta com o fugaz apertar de um
canhão. Neste intento, a salvação reside
na jovem padawan Ray (Daisy Ridley), que segue seu treinamento Jedi dessa vez
sob a batuta da general Leia Organa (Carrie Fisher), irmã de seu antigo mestre,
o falecido Luke Skywalker (Mark Hamil).
No reencontro com atormentado e dúbio vilão Kylo Ren (Adam
Driver), mais do que uma simples dicotomia entre os símbolos do bem e do mal é
trazida pelo filme de J.J. Abrams. Aqui, encontramos o personagem do rapaz
corrompido desde a infância pelas ideias maléficas daquele lado obscuro citado
acima, que acaba por se tornar um patricida, mas que, gradativamente, percebe o
grau da manipulação que sofreu (o que não o redime de seu crime, pontuo). Lá, a
jovem conhecida como catadora de sucata, mas que se nota possuidora de um poder
Jedi que, neste episódio, percebemos esconder muito mais do que o “simples”
equilíbrio da Força.
Na união das duas forças manipuladas pela tentação do Lado
Sombrio, exatamente o que é necessário para suprir de energia renovada tal
símbolo maléfico representado pelo retorno do Império. O que vemos a seguir,
porém, é o acordar de uma autopercepção: a de que a força para destruir aquele
mal residia na própria jovem. Intocada, Imperceptível. Bastava a sapiência de
notá-la e usá-la de maneira perspicaz. Ok, não é necessário ligar os pontos aqui
para compreender o simbolismo de Star
Wars - A Ascensão Skywalker em tempos tão sombrios e de levantar de
forças obscuras em todo planeta Terra.
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Eterna princesa Leia (Carrie Fisher): despedida |
FÓRMULA VS ESPETÁCULO VISUAL
Apesar de sua estrutura previsível de reviravoltas no que
tange às batalhas espaciais, o encerramento da franquia pelas mãos J.J. Abrams
(um declarado aficionado pelo universo Star Wars), faz jus a um objeto de culto
de diversos fã radicais, que, óbvio, torcerão o nariz do mesmo modo como
fizeram para muitas coisas vistas nos dois primeiros filmes. Porém, mesmo com
seus perceptíveis problemas dentro dessa previsibilidade em seu desfecho, como
resolução para a saga reiniciada há quatro anos, este último capítulo entrega
visualmente os melhores momentos dos três filmes que integram a trilogia.
As lutas entre Rey e Kylo Ren em um oceano revolto, por
exemplo, ou o momento em que certo personagem retorna para um emocional
reencontro, compõem um belo cenário para um encerramento de peso. Além disso, vale salientar o impacto do
momento em que o elmo de Vader, como a representar todo um falho e vilanesco Império,
é derrubado por um golpe de ambos, Kylo Ren e Rey, trazendo mais uma eficiente
metáfora para a união daqueles dois pólos da Força contra um mal maior.
E quando um filme consegue te emocionar a partir do choro
doloroso de um wookiee diante da perda de um dos personagens pilares daquele
universo, bom, seu intento principal conseguiu ser alcançado. E isso em uma
obra que lhe impede, mesmo dentro de um universo tão fantasioso, não esquecer,
para o bem ou para o mal, do Lado Sombrio que está na realidade do lado de fora
da sala de cinema.
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