Por esse pão pra comer
Você Não Estava Aqui, de
Ken Loach, traz o registro de uma realidade social que nos espelha como reféns
do capitalismo e do trabalho como opressor de vidas e mentes
Por João Paulo Barreto
Na carreira do cineasta britânico Ken Loach, a reflexão
voltada para o esmagamento do capitalismo perante a vida das pessoas é algo
notório. Em seus filmes, uma imersão da audiência dentro do contexto realista
social da Inglaterra, e, por identificação, de boa parte do mundo, é inevitável.
Desde o começo de sua longa trajetória como diretor de ficções e de
documentários para TV e cinema, Loach, hoje com 83 anos, buscou trazer para seu
espectador um pensar cinematográfico para além do puro entretenimento, usando
suas narrativas como uma oportunidade do público adentrar em textos reflexivos
e calcados em situações reais.
Em um ano como o de 2019, onde o Oscar e Hollywood se renderam
a Parasita, uma instigante análise da
natureza de classes, uma obra como Você
Não Estava Aqui delineia a noção de que essa estrada que hoje o brilhante
cineasta sul-coreano Bong Joo Ho percorre foi pavimentada pelo veterano Ken Loach,
um diretor que nunca foi hipnotizado pelo chamado hollywoodiano. Seus filmes
acerca de uma realidade especificamente britânica, mas com aplicações mundiais de
certa forma não traduzíveis para plateias estadunidenses, há tempos se
apresentam como esse estudo de classe proposto por Bong em sua obra prima.
Um exemplo, inclusive, de
tal impacto da filmografia do cineasta nascido no Reino Unido é a notória
mudança da legislação britânica no que tange às obrigações do país perante sua
população de rua após a comoção causada por Cathy
Come Home, episódio televisivo da BBC que foi ao ar em 1966, escrito e
dirigido por Loach. E isso em seu início na profissão de diretor.
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Ken Loach no set de Você Não Estava Aqui |
POR ESSE CHÃO PRA DORMIR
No decorrer desses mais de cinquenta anos de cinema e TV, ele
continuou a oferecer à sua audiência maneiras de percebermos para além dos
próprios umbigos. Seja em temas como o preconceito em relacionamentos entre
pessoas de etnias diferentes (Apenas um
Beijo), relacionamentos em uma superação da vida sob o julgo do trabalho e
sua ausência (Meu Nome é Joe) e, mais
recentemente, com uma de suas mais impactantes obras a abordar a crueldade do
estado e sua burocracia que, junto com o capitalismo brutal, esmaga cidadãos: Eu, Daniel Blake, filme de 2016 que
ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Na obra, uma visita ao inferno da “vida” após
décadas de labor, quando o personagem título, um idoso que tem sua pensão da
aposentadoria colocada em risco pela burocracia britânica, tenta não sucumbir
àquele purgatório social.
Mantendo o mesmo registro quase documental e de proximidade
realista na rotina e interações de seus personagens, em Você Não Estava Aqui, o que temos, dentro de uma imaginação do
espectador familiarizado com a filmografia de Loach, é um registro da juventude
de alguém como Daniel Blake, quando as forças dos trinta e poucos anos ainda
possui vigor e os sonhos ainda existem no seu horizonte. Força esta que, aos
poucos, se esvai.
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Ricky (Kris Hitchen) em momento de decisão quanto a gastar dinheiro que não tem |
Esforçando-se para manter sua família alimentada e abrigada,
Ricky Turner consegue um trabalho como entregador em uma transportadora. Em sua
jornada de 14 horas diárias, mantém um apertado cronograma no qual qualquer
atraso ou necessidade de se ausentar significam multas que ele tem que pagar do
próprio bolso. Em um inútil orgulho, afirma na entrevista que nunca deu entrada
em seguro desemprego. “Prefiro morrer antes”, uma frase que delineia a
mentalidade posta numa coleira social estupidamente orgulhosa e submissa. Lembra
muito o personagem do cavalo, no clássico A
Revolução dos Bichos, de George Orwell, outro britânico a perceber já há
muito tempo como essa coleira funciona.
POR ME DEIXAR RESPIRAR
Sua esposa, Abbie, que trabalha como cuidadora de idosos,
tem, também, uma extenuante rotina em visitas a casas de pessoas solitárias
que, literalmente, precisam de sua presença para sobreviver. Mantendo um
equilíbrio emocional constante (algo imprescindível para seu emprego), Abbie ainda
lida com o filho adolescente rebelde e com a filha precocemente abalada pela
maturidade que chega. E o faz sem a armadilha fácil da hostilidade autoritária
e buscando sempre um diálogo com ambos. Nesse quadro, há a já clichê e injusta
imagem da mulher colocada como o bastião do equilíbrio emocional em um
relacionamento. Porém, tal impressão fica para trás quando, no ápice de sua
frustração e pressão psicológica sofrida diante das diversas situações que os
problemas familiares lhe trazem, Abbie, como qualquer ser humano, alcança seu
limite.
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Abbie Turner (Debbie Honeywood) em sua rotina de cuidadora de idosos |
Analisando o contexto de um ambiente familiar em
dificuldades financeiras, Você Não Estava
Aqui (em versão portuguesa, o Sorry,
we missed you dos cartões referenciando uma entrega não realizada), com seu título a criar uma eficiente
metáfora entre a necessidade do trabalho na vida de Ricky e uma relação da
ausência justificada do pai nos problemas de sua família, o filme de Ken Loach,
com seu poderoso e impressionante desfecho, nos dá muito a refletir sobre a
opressão que abraça a quase todos no mundo.
O termo “quase”, aqui, refere-se àqueles a quem tal opressão
serve justamente como ferramenta de sobrevivência no topo dessa pirâmide
social. E de um Estado conivente com tal opressão que, de modo direto, o
permite surfar e se perpetuar nesse status que alimenta poucos, mas que usa a
força de muitos para se manter como está. E muitos aqui embaixo são obrigados a
dizer “por me deixar existir, Deus lhe
pague”.
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