Magia Fraternal
Novo filme da Pixar, Dois
Irmãos, ou apenas Seguindo em Frente,
em seu motriz título original, traz análise
do luto e a superação da perda paterna como sua maior força
Por João Paulo Barreto
Há um aspecto pessoal na labuta da escrita crítica
cinematográfica que eu, desde meus primeiros e, convenhamos, constrangedores
textos (todos têm um começo, oras...), deixo que se expanda livremente através
das palavras colocadas na tela do computador: o modo idiossincrático como um
filme me toca. Hoje em dia, porém, nem tanto. As reservas particulares e a
antissocial característica de um pessimismo e amargor oriundos da idade
chegaram. Mas, no geral, para mim, nestes doze anos de trabalho dentro de uma
tentativa de se expressar analiticamente nos aspectos oferecidos por filmes, a
ideia de que o modo como uma película lhe toca pessoal, afetiva ou
ideologicamente pode, sim, servir como um norte na escrita e na construção de
uma análise para o leitor. Isso, claro, unindo tais impressões afetivas a um
destrinchar dos aspectos técnicos da obra em questão.
Dois Irmãos, novo
filme dos Estúdios Pixar, me remeteu àquele período inicial dentro dessa
tentativa de labuta na área da crítica de cinema. Na ocasião, havia perdido meu
pai, vitima de um câncer fulminante que lhe tirou a dignidade e a vida no
decorrer de extenuantes 14 meses. Vê-lo deixar de ser ele mesmo (frase citada
em momento pungente de Dois Irmãos, friso)
foi uma das coisas que mais me tornaram introspectivo naqueles meses, há dez
anos. Tais sentimentos se expressaram em textos que eu fiz, por exemplo, acerca
de Transeunte, obra de Eryk Rocha, e Hugo, de Martin Scorsese. E essa
lembrança do modo como o velho Barreto se extinguiu gradativamente surgiu como
uma pancada durante a sessão de Onward (em
tradução literal, “superando e seguindo em frente”), animação na qual a Pixar,
mais uma vez, estilhaça sentimentos e renova corações. Cafona, admito, mas a
pura verdade.
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Ian em sua introspecção e saudade do pai |
HUMOR EMOCIONAL
Aqui, os dois irmãos do título nacional são Ian e Barley
Lightfoot, elfos adolescentes em um mundo onde a magia de seres como
centuriões, dragões, fadas e unicórnios se extinguiu diante da tecnologia que
os tornou obsoletos, e do capitalismo que os tornou opacos em seu brilho. E tudo
é apresentado dentro de elipses temporais em um resumo cômico e prático típico
do Monty Python. Ian e Barley (dublados por Tom Holland e Chris Pratt), após descobrirem
que, utilizando um cajado mágico, podem trazer o falecido pai de volta à vida
durante o período de 24h, acabam alcançando tal intento pela metade, ficando
com apenas as pernas e cintura do patriarca. As gags visuais na presença dos
membros inferiores do pai cumprem a boa parte da “comédia física” do filme, mas
é nos detalhes pequenos a representar aquela figura e sua relação nostálgica
com os dois garotos que dão mais significado à animação da Pixar.
Nas fotos do pai, Wilden Lightfoot, estão presentes as roupas
que rimam precisamente com as que o pequeno Ian tenta emular em um vestígio de
lembranças daquele homem que não conheceu. São peças que também aparecem como
uma marca do que se vê naquele atrapalhado par de pernas, com suas meias
características e seus sapatos a refletir a lembrança que os dois garotos têm
do seu velho. A fita K-7, na qual o único registro da voz extrovertida do homem
a sorrir serve como consolo momentâneo, se torna um porto seguro para a
insegurança do caçula que só ouviu falar daquela figura. Quem nunca se pegou
pensando em ou tocando algum objeto pessoal que pertenceu a um ente querido? A
Pixar insere isso de modo pungente.
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Ian, Barley e seu meio pai em momento de diversão |
PESSOAL E CRIATIVO
Independente de todas as suas sequências de risos causadas
pelas brincadeiras que o roteiro co-escrito pelo diretor Dan Scanlon (que já
havia feito o ótimo Universidade Monstro)
cria nas disparidades entre o nosso mundo real, físico e capitalista, e seu
encontro com o mágico universo em decadência que o filme traz, Dois Irmãos tem seu pilar exatamente nas reminiscências que a perda de alguém tão
querido quanto um bom pai traz ao amadurecimento. Seja no constante esconder de
suas dores e frustrações atrás de um senso de humor e carisma gritantes, como
aquele que o mais velho Barley tem, ou na introspecção e timidez que o caçula
Ian mantém como um escudo
“O que é mais pessoal é sempre o mais criativo”. Essa frase
de Scorsese foi citada por Bong Joon-Ho no seu discurso de agradecimento pelo
prêmio de Melhor Diretor na cerimônia do Oscar desse ano, momento no qual
saudou o mestre quase octogenário. Saber que o diretor Dan Scanlon trouxe para
sua escrita exatamente essa falta pessoal que a perda precoce de seu próprio
pai lhe causou, torna essa máxima do velho Scorsese tão precisa e emocional
quanto Dois Irmãos o é em seu dilacerante
(sem exageros) resultado final.
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