A Construção de um Épico
Com Vingadores:
Ultimato a Marvel Studios encerra,
de forma ao mesmo tempo trágica e épica,
um ciclo fenomenal da cultura pop
João Paulo Barreto
Após onze anos, vinte e um filmes e um planejamento
impressionante tanto em sua cronologia quanto no desenvolvimento de seus
personagens, a Marvel Studios chega ao vigésimo segundo e mais impactante de
todos os seus longas metragens. O “Fim do Jogo”, como entrega o título original
de Vingadores: Ultimato, define bem o
que esse novo trabalho representa para o universo de super-heróis oriundos dos
quadrinhos que lendas como Stan Lee, Jack Kirby e Jim Starlin ajudaram a criar.
Não somente peças de entretenimento industrial, verdadeiras
máquinas de fazer dinheiro (monopolizadoras de salas, como muitos denunciam),
mas, também, exemplos de como a arte sequencial, expressão cultural que sempre
serviu de matéria prima para o cinema e TV, o que temos aqui são exemplos de
como um estúdio pode galgar patamares de qualidade e reflexão em seus produtos
fílmicos, unindo de forma sagaz lucro e qualidade em suas narrativas. De Homem de Ferro, longa de 2008 que trouxe
um gosto do potencial do material que tinham em mãos, passando pelo divisor de
águas em termos de ação, Capitão América
2, além de Pantera Negra, que,
junto a Capitã Marvel, se apresenta
como o mais representativo de seus filmes, até chegar neste novo Ultimato, continuação direta de Guerra Infinita, o que se descortinou
diante de fãs e de espectadores indiferentes foi, inegavelmente, um fenômeno.
Capaz de trazer tanto momentos de comédia galhofa, algo
que se tornara marca do personagem de Thor, quanto aprofundamentos
existenciais, muito bem denotado pela dualidade da motivação do vilão Thanos,
os filmes da Marvel funcionaram tão bem nos últimos onze anos em sua variedade
de entretenimento justamente por conseguir criar um equilíbrio entre seus
elementos dramáticos com a ação de encher os olhos. E isso sem nunca perder a
linha narrativa que nasceu lá em 2008 e se encerra agora neste Ultimato que está em cartaz. Dito isso, é com regozijo que o
espectador atento (seja ele um leitor de quadrinhos ou apenas um cinéfilo que
acompanha os filmes) observa a sagacidade da proposta existente em revisitar vários
de seus próprios pontos históricos para criar a estrutura de Vingadores: Ultimato. Regozijo não
somente por perceber tal sagacidade, mas por compreender a grandeza daquela
estrutura fílmica que, de tão vasta, se permite servir como a própria matéria prima
do roteiro que encerra um ciclo nesta última obra.
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O final chegou: Vingadores encaram perdas |
REVISITANDO SEU UNIVERSO
Diante de um final desolador como o visto na sua
primeira parte, Guerra Infinita, lançado
há exatamente um ano, havia para os roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely,
dupla responsável pelo sucesso de diversos filmes da Marvel, o desafio de
trazer de volta à vida personagens centrais, inseri-los em um arco dramático
que, dentro da proposta de uma fantasiosa ficção científica, pudesse se tornar crível
e, após isso, entregar ao público a tão prometida batalha épica contra um vilão
que buscava o equilíbrio populacional do universo.
No entanto, o que os escritores conseguiram foi algo
ainda melhor. Permitindo-se não somente desenvolver de forma gradativa o modo
como trariam de volta os heróis, a dupla mergulhou na própria mitologia do
universo cinematográfico Marvel, termo que pode soar pretensioso, mas que
define bem o que Vingadores: Ultimato encerra
após 21 filmes.
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Steve Rogers em seu momento de definição |
TRAGICIDADE ÉPICA
Além da possibilidade de brincar com a própria criação
dos filmes do estúdio, os dois roteiristas foram além. A citada forma gradativa
inclui, além de um início no qual a vingança é perpetrada de modo triunfal, um
doloroso período de luto diante da perda se segue. E isso se torna algo que os
irmãos diretores, Joe e Anthony Russo, ilustram de forma primorosa dentro do
hiato de cinco anos que se passa entre os dois filmes. A desolada versão de
Nova York em suas ruas desertas, bem como o memorial dos desaparecidos com o
qual um desolado Scott Lang se depara, unindo-se a um melancólico e traumático
reencontro de mágoas entre dois personagens centrais, pavimentam o terreno para
os 180 minutos que a aventura possui. E isso, claro, levará para o que se pode
chamar de épico tanto em seus momentos de ápice dramático quanto de frenética
ação.
E o termo épico é outro que é utilizado aqui sem
nenhum receio de parecer exagerado. O que se vê neste citado ápice frenético de
ação é precisamente isso. Vingadores:
Ultimato insere em seu clímax uma catarse emocional que o torna definidor
no modo como um produto de entretenimento dito banal pode alcançar patamares de
arte. O investimento emocional exigido ao espectador é tamanho que nos remete
exatamente a todos os onze anos já citados anteriormente. É tempo suficiente
para que se criem laços de afinidade com personagens que, após tantos filmes,
consideramos próximos.
Chamem-me de ingênuo, mas o cinema possui essa
capacidade de nos tornar íntimos de pessoas que não existem a não ser na tela
digital ou nas páginas de uma história em quadrinhos. Podem ser puramente peças
de uma engrenagem feita para render rios de dinheiro. Porém, ainda assim, foi
bom ter podido presenciar cada uma dessas vinte e duas peças dentro de uma sala
de projeção e, como bônus, poder mergulhar em quadrinhos que ajudaram a
construir, desde sempre, uma formação cultural.
*Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde em 29/04/2019
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