“Nem
otimista nem pessimista. Estou atento”.
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Osmar na pele de Kid Jofre, em cena de 10 Segundos para Vencer |
*Entrevista originalmente publicada na Revista Continente On Line
Completando 60 anos de carreira e agraciado com o Kikito de Melhor Ator em Gramado, Osmar Prado fala sobre Kid e Eder Jofre, sobre a função social do artista e a necessidade de se reconhecer heróis. Esportistas e políticos.
Por João
Paulo Barreto
A
posição de um artista, além do entretenimento e da criação neste viés, reside
em um ponto tão importante quanto estes. Reside na necessidade dele se
posicionar politicamente. De utilizar sua influência para se fazer presente
além dos holofotes e da vaidade atrelada à fama. A indiferença é o pior.
Reconhecer-se como alguém cujas ideias e opiniões podem contribuir para um bem
social e para a construção de um projeto válido, isso dentro da sua própria
presença como formador de opinião, é o que justificará sua permanência útil
neste mundo plástico do showbusiness.
A arte
é política. Elas não se dissociam. Independente das posições, mas estando
sempre atento ao modo reacionário e nocivo de influência, sair da inércia é
função do artista. Osmar Prado sabe disso. No discurso após receber o prêmio em
Gramado pela atuação na pele de José Aristides “Kid” Jofre, pai do boxeador Éder
Jofre, o ator de 71 anos fez questão de lembrar do modo como meras convicções
se tornaram “provas” no processo contra o ex-presidente Lula. Notoriamente
conhecido como um homem de posições firmes, o ator não se abalou com as vaias
recebidas por parte de alguns plateia. Defender a democracia, fragilizada
pós-golpe parlamentar de 2016, requer aceitar esse tipo de reação.
Nesta
entrevista, Osmar falou do resgate das próprias memórias afetivas com seu pai e
de como isso o ajudou a compor Kid Jofre, que, à sua maneira particular, amava
seu filho campeão. No filme 10 Segundos
para Vencer, o resgate de um herói nacional é colocado em evidência para
que as próximas gerações não o esqueçam. Da mesma forma, há outro herói cujas
forças atuais, inconsistentes, mas inconsequentes na mesma intensidade,
planejaram jogar no ostracismo. Sua força, porém, é tamanha que, mesmo em um
cárcere, só vê-se crescer.
É disso
que são feitos os heróis. Sejam estes Éders, Josés ou Luízes.
CONTINENTE O crítico de cinema e curador Rafael Saraiva tem uma definição
precisa acerca dos filmes sobre trajetórias de boxeadores, como O
Lutador. Rocky e Creed. São filmes formadores de caráter. Ao sair do
cinema após seu filme, voltei a essa constatação.
OSMAR PRADO Você
dizer isso me faz lembrar do Paulo de Jesus, um boxeador da década de 1960.
Contemporâneo do próprio Éder, inclusive. O Paulo de Jesus era peso médio. Uma
vez, nocauteou um adversário e ele entrou em coma. Foi hospitalizado. Paulo,
que era católico, fez uma promessa. A promessa era que se o rapaz se
recuperasse, ele não subiria mais no ringue. Acabou se tornando figurante de
cinema, participando do primeiro filme que Anselmo Duarte dirigiu, o Absolutamente Certo. Como boxeador, como
pessoa, observo justamente isso que você disse, a formação de caráter. Ele não
poderia admitir que o esporte do qual ele vivia, provocasse no adversário uma
sequela tão grande que o impediria de viver, praticamente.
CONTINENTE 10
Segundos para Vencer traz muito dessas
situações em momentos que denotam essa força física e de caráter dos seus
personagens, de fato. Quais os seus preferidos?
OSMAR PRADO Gosto
da relação do Kid com sua companheira, Angelina, que é uma das grandes
personagens do filme. Eles estão deitados na cama e ela fala: “”Deixa seu filho
estudar”. E ele responde: “Boxe também é estudo”. Essa frase possui uma força. Outro
momento é a disputa pelo segundo título, em que ele presta a homenagem ao filho
dizendo a frase “Mesmo que você não ganhe a luta...” Claro que existem alguns
fatores ali. Primeiro, o fato do filho ter retomado a carreira para disputar em
uma categoria acima. Segundo, a aproximação da morte. Terceiro, uma espécie de
autocrítica de tudo que aconteceu. De tantos desencontros e encontros. Mas
sobretudo, a aproximação da morte. Eu acho que tudo fica muito sensível.
CONTINENTE Como se deu sua pesquisa pelo personagem do Kid Jofre?
OSMAR PRADO Na
verdade, eu não tinha nenhuma referência real do Kid. A não ser por fotografia.
Eu nunca ouvi a voz dele. Eu me baseei em minha memória afetiva. Baseei na
descendência espanhola misturada com italiana que tenho, que se assemelha à
argentina misturada com italiana da família Jofre Zumbano. Mas, sobretudo, eu
me baseei na minha relação com meu pai. Ao representar o pai do Éder, eu
prestei uma homenagem ao meu próprio pai. Eu e meu pai tivemos embates muito
grandes. Eu e o Éder somos da mesma geração. Quando ele sagrou-se campeão, eu
tinha 13 anos. Uma coisa interessante, paradoxal até, é que o Eder queria
ser desenhista e o pai queria que ele fosse lutador. Eu queria ser ator e o meu
pai queria que eu fosse funcionário público. Meu pai tinha medo que eu
continuasse a carreira, embora eu tivesse começado com nove, dez anos. E quando
eu o peitei, dizendo que era isso que eu queria, a gente travou combates
terríveis. Mas, eu sei que meu pai me amava. À maneira dele. Assim como o Kid
amava o Éder, também à maneira dele. Vi uma reportagem recente sobre o filme e
que emocionou muito. O Éder chorando copiosamente assistindo e quando vai para
tela, quem está lá é o Kid na minha pele. Olha a força dessa memória emotiva,
dele revendo o pai através da minha pele. Isso é o maior prêmio para um ator.
Ele disse: “eu vi meu pai”. Maior prêmio não há. E isso, também, porque eu vi
meu pai. Eu, mesmo, vi meu pai. Representando o pai do Eder, eu vi meu próprio pai.
Eu usei uma transferência emotiva, mas com o controle do ator experiente.
Porque isso poderia me levar a grandes momentos de emoção, mas, não. Não.
Naquele momento em que o Eder se despede, que o Kid fica parado olhando para
ele, eu não movo um músculo da face. Aqui, treme (apontando o pescoço). Mas é
sutil. Esse é o controle.
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Osmar Prado em Gramado (Foto: Edison Vara) |
CONTINENTE Há alguns dias você recebeu o prêmio de Melhor Ator em Gramado.
No discurso, salientou o processo de prisão baseado em convicções, e não em
provas, contra o ex-presidente Lula. É curioso observar esse paralelo de
trajetórias entre ele e o Éder Jofre, quando todas as chances ínfimas os
levariam a desistir de seus objetivos. Mas eles perseveraram.
OSMAR PRADO Sabe,
eu vi muitas entrevistas do Éder onde o entrevistador o via de uma forma
jocosa. E o Éder era muito inteligente, mas à maneira dele mesmo, aquela
maneira simples. E muitas vezes eu vi que os jornalistas não estavam dando o
devido respeito àquele homem. Esse paralelo a gente vê no ex-presidente Lula.
Eu vi outro dia uma entrevista com o Reinaldo Azevedo, fazendo um pouco de
chacota do Lula. Isso não sou eu quem está falando. Tem vídeo disso. Ridicularizando
a questão dos erros do vernáculo. Como se ele, pelo histórico de vida, pudesse
falar um português daqueles que frequentaram boas escolas. Mas ele fala a
linguagem de que nenhum deles, letrados, consegue falar. O que é o Lula? O
Lula contrariou todas as leis da física. O Lula não era para dar certo. Como um
nordestino sem dedo, tendo o curso primário e um curso técnico torna-se um
líder sindical, candidato à presidência da república, perdeu três vezes, ganhou
na quarta? Estadistas do mundo inteiro o respeitam. Noam Chomsky vem visitá-lo.
O (Adolfo Pérez) Esquivel já confirmou a sua candidatura ao prêmio Nobel da
Paz. O Obama diz que ele é o cara. Quem é o Lula? Ao invés de nós tentarmos
entender a alma desse homem, o que é preciso fazer a ele? Porque temos que
entender o lado da direita. Até para poder entender os argumentos deles. E eu
me pergunto o que o Moro vai fazer depois que o Boulos invadiu o triplex do
Guarujá e viu que a reforma de um milhão e trezentos mil não existe. E em 2019,
a ONU vai julgar o processo do triplex pelo mérito, não pela convicção. No dia
da prisão do Lula, eu estava lá em São Bernardo. Ele, ao invés de ter a foto da
algema, organizou a própria resistência. No dia do aniversário da dona Marisa.
No dia da homenagem a sua falecida esposa. Esse homem perdeu a mulher, mas não
perdeu a vontade de lutar. Ele, em outras palavras, é foda! Porque foi feito da
massa daqueles que vieram de baixo. Isso é para poucos que possuem a
inteligência do cara. Isso é sagacidade política. O golpe de 2016 fracassou.
Não deu em nada. Repara o panorama. Ele foi protagonista de sua própria prisão.
Não o Moro. Deu um nó em todas as vezes em que esteve diante do juiz. Ele disse
para o Moro: "Doutor, se o meu processo fosse julgado pelo mérito, o
senhor não o teria aceito." Então, o que aconteceu? Agora, o TSE não teve
dúvida. Teve que liberar para aparecer ele na campanha do Haddad. Quando fui
premiado, fiz questão de falar dele. Fiz um discurso. Fui vaiado por parte da
plateia. E disse: "pode vaiar. Pode vaiar”. Essa foi a minha resposta.
CONTINENTE Seu posicionamento político me faz pensar no fato de que a arte
e a política não podem ser dissociáveis. O artista precisa fazer valer sua
posição social, independente de qual direcionamento.
OSMAR PRADO O
trabalho é político. É político em essência. A arte é política, mesmo quando
for de direita. Não importa a posição. É você se manifestar. Essa profissão não
é somente fama e pensar em ganhar dinheiro. Eu sou oriundo de um período, de
uma família que morava em um terreno nos fundos dos sobrados de classe média.
Nós morávamos numa casa de quarto e cozinha. Éramos minha mãe, meu pai em um
quarto dividido por um pano, de um lado a cama dos meus pais, do outro lado os
três filhos. E tinha minha tia, irmã da minha mãe, que morava conosco, ela
trabalhava de empacotadora. Eu vim desse universo. Então, o ego nunca foi algo
que me subiu à cabeça. Esse filme traz um pouco disso. É um filme de fé. Quando
eu levei o meu pai à cena, eu me levei. E a emoção não é de efeito. Ela é real.
Por isso mexeu com as pessoas. E mais do que nunca nós estamos precisando
disso, dessa credibilidade. Na minha cabeça, eu tenho o que disse Plínio Marcos
disse sobre os atores, que é o que eu vou dizer com as minhas próprias
palavras. Por mais duros que sejam os corações em decorrência das lutas diárias
pela sobrevivência, sempre haverá dentro de cada coração um pouco de ternura e
um pouco de sensibilidade. Cabe aos atores, com o seu trabalho, com a sua
sensibilidade, fazer aflorar essa ternura. Mas o ator tem que ter consciência
de que tem que servir à sua personagem. E não servir-se dela. Para brio e egos
infundados. É isso. É assim que defino essa função. Muitos colegas meus, e eu
não estou fazendo uma crítica, só uma observação, perderam um pouco essa
referência. Muitos. Ou por analfabetismo político, por vaidade ou porque, de
repente, estão ganhando muito dinheiro e ficam um pouco deslumbrados com essa
coisa de sucesso. Eu tive grandes mestres. Que toda vez que eu ia para um lado,
eles diziam assim: "vem cá." Nunca me abandonaram. Porque eu não faço
política para auferir lucros, ou ganhar alguma coisa. Tanto que uma colega
entrou na sala ontem e disse assim: "Você mamou nas tetas da Lei
Rouanet". Eu falei: "Não, eu mamei nas tetas da minha mãe."
Nunca mamei nas tetas da Lei Rouanet. Até porque não sou produtor. E todas as
vezes em que eu tentei produzir, eu produzi com o meu dinheiro. De ator. E até
que nem deu errado. Se eu não tive grandes lucros, pelo menos prejuízo eu não
tive. Agora, o que eu quero dizer é que eu não faço política para tirar
proveito. Eu faço política porque creio firmemente na possibilidade de
encaminhar o país para uma sociedade mais justa, mais fraterna. Existe uma
coisa que se chama fervor revolucionário. E que só é possível se você tiver
isso.
Trailer do filme
CONTINENTE Você está otimista em relação ao futuro cenário?
OSMAR PRADO (Pensativo) Eu estou atento.
Acho que, pelas últimas notícias que eu tenho, e eu costumo acompanhar também
os comentários do Paulo Henrique Amorim, não deu certo o golpe. Só há duas
alternativas para o conservadorismo. Ou engolir um possível candidato
progressista. Ou fechar. E não sou poucos os militares que estão com essa
vontade. Mas se fechar, define de vez. Desobedeceram a ONU. Foi um tiro no
pé. O Boulos é aquilo que disse o Paulo Henrique Amorim. O Boulos não é
Lula, o Lula não é Boulos. O Boulos queria a resistência. O Lula queria a
conciliação. Conciliação, não, a entrega. Mas eu acho que o Lula estava certo.
Porque ao integrar-se de dentro da cadeia, ele se reforçou. Porque, perante a
comunidade, não só de dentro como de fora, ele continua pregando a inocência. E
ao invadir o triplex, é aquilo que o Paulo Henrique disse. Ele meteu um punhal
nas vísceras dos golpistas. E desmoralizou todos eles. Inclusive, o STF, que
deu o aval. Dona Raquel Dodge e dona Carmem Lúcia. E todos eles, com algumas
exceções, acho que são poucas. Tanto que o TSE, o que fez? Liberou o Lula para
aparecer na propaganda eleitoral em apoio a Haddad. Agora, veja bem, nós não
temos que estar otimistas nem pessimistas. Temos que estar atentos aos passos e
denunciar os movimentos. Nós não estamos em 1964. Estamos em 2018.
Estamos com um time muito mais forte. Há a possibilidade da derrota, há.
O Haddad arrebentou quando sofreu aquele interrogatório inquisitivo no Jornal
Nacional. E ele sentou o pau. Observe aquele momento em que ele diz não estar
satisfeito, que quando a honra dele está em jogo é ele quem decide. Na Band, o
Ciro peitou. “O senhor tem coragem de dizer que a Venezuela é uma democracia?”
E ele respondeu: “Sim, é uma democracia. E eu, se eleito, vou estabelecer com
meus vizinhos da América Latina uma relação com todos eles sem interferências,
sem ingerência, nas decisões e na soberania de cada país. E nós temos que ter
responsabilidade.” E quantas pessoas já morreram lá?” E o Ciro rebateu: “E
quantas já morreram aqui? E a Marielle Franco?” Aí o cara não soube responder.
Nós temos que ter responsabilidade nesse momento para impedir que ocorra uma
guerra civil. Temos que ter juízo. Se você joga lenha na fogueira, o que você
quer? Você quer guerra civil. Entrar com a repressão e acabar com a democracia.
Mas sua pergunta era outra. A questão é se eu estou otimista. Não estou. Estou
apreensivo. Porque eu não sei o que vem pela frente. Mas que o golpe não deu
certo, não deu. Nós fomos ao gabinete da ministra Carmem Lúcia. Fomos eu,
Adolfo Esquivel e a Carol Proner. Estávamos lá. E eu até perguntei para ela:
"Ministra, quantos cadáveres mais serão necessários para que se faça
justiça? Dona Marisa? O reitor da Universidade Federal de Santa Catarina? E
pergunto mais: quem tem medo de Luiz Inácio Lula da Silva? Ministra, faça valer
a presunção de inocência", Ela não disse uma palavra sequer. Ela ouviu
todo mundo. Quem foi contundente com ela foi o Esquivel. Ele fez questão
de dizer que estava indo para consolidar a candidatura do presidente Lula ao
prêmio Nobel da Paz. Ao trancafiar o Lula, acharam que ele ia cair no
esquecimento. Quer dizer que você quer matar uma coisa que não se mata. Eu
disse isso. Não se mata um líder. Para matar um líder, você tem que matar um
povo inteiro. E isso nunca ninguém conseguiu. Nem um exército inteiro
conseguiu. O Tiradentes, quando foi enforcado e esquartejado, estava selada a
história dele. Hoje, você não fala do Silvério dos Reis. Você fala do
Tiradentes.
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Daniel Oliveira (Éder Jofre) e Osmar Prado em foto de divulgação do filme |
CONTINENTE Você acha que a arte pode
vencer o reacionarismo?
OSMAR PRADO Eu acho
que a arte é uma força em si mesma. E se você, com inteligência e
sensibilidade, puder fazer dela um instrumento de transformação, ela se torna
ainda mais grandiosa. Não que ela seja revolucionária, mas ela é o
acompanhamento das revoluções. Eu citaria Victor Jara (cantor chileno e ativista político), que estava no Chile quando
aconteceu o golpe. Ao lado do (Salvador) Allende. Victor Jara cantava como
ninguém, até que veio o golpe. E esse homem foi para o estádio. Não fugiu. Foi
para morrer. Ele tocou violão no estádio que se tornaria o campo de
concentração de caminhões com cadáveres que sairiam de lá. São mais de 3 mil
mortos do Pinochet. E ele foi ao estádio antes. Tocar violão e cantar em
protesto. Tiraram o violão dele e ele continuou cantando. Quebraram seus dedos
. Ele continuou cantando à capela com os dedos quebrados. Aí o tiraram de lá e
o mataram. Que força leva um cara a cantar com o dedo quebrado? Que força é
essa? Isso é o que os caras não toleram. De onde vem? Emana do povo, meu amigo.
Existe uma coisa que se chama fervor revolucionário. E que só é possível se
você tiver isso. E eu tive o privilégio de conhecer a filha de Ernesto Guevara.
A filha mais velha, na casa de Adair Rocha, no Rio de Janeiro. E eu lhe disse
assim, cara a cara. Os olhos dela eram os olhos do pai. Eu disse assim:
"As pessoas citam frases de seu pai com “hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. Eu prefiro
aquela em que ele disse 'onde quer que eu esteja, que a morte seja bem vinda,
porque outros segurarão o meu fuzil, a minha ideia. Ela disse: “eu pensava que
meu pai era suicida. Depois eu entendi que meu pai sabia, tinha plena
consciência da importância e da não importância da sua participação no processo
revolucionário. Se o matassem, ele continuaria”. E de fato ele provou isso. Por
ser a derradeira, ele desejava a morte, dentro das possibilidades possíveis.
Foi morrer na Bolívia. E quando Benício Del Toro leu as cartas do Che, ele
enlouqueceu e fez aquele filme belíssimo. Então, o que me fascina não é o Che
ídolo, mito grandioso, mas Che, o homem. O que impressionou Benício Del Toro
foi a maneira do Che escrever. A maneira como ele fala com os filhos. Isto é um
amor que cega qualquer reacionário.
CONTINENTE
Você
acha que a história fará justiça ao momento atual no Brasil?
OSMAR
PRADO Eu acho que esse momento será muito discutido. Você viu o
documentário O Processo? Pois é. É
uma sucessão de coisas. É tanto material que as novas gerações terão como saber,
passo a passo, o que de fato ocorreu no país, os retrocessos impostos por um
governo golpista, por um governo que veio para destruir tudo aquilo que se
conquistou ao longo de décadas em que se acreditou que era possível ser feliz,
de fato. Talvez até quando essas coisas todas ficarem lá, realmente, como
história, a gente possa avaliar o futuro. Mas eu acredito que sim. Que pelo
menos se tenha consciência do que de fato aconteceu nesse período. E quem
estava onde. Quem estava com quem. Quer dizer, onde é que você estava? Eu tive
grandes embates. Com pessoas queridas, inclusive. Mas, mantive-me firme. E
tenho certeza que a pessoa ou as pessoas já estão um pouco caladas.
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