O reencontro intimista
de Almodóvar
Em Dor e Glória, diretor
espanhol acerta ao abordar o cinema
como meio de cura dos tormentos físicos e
mentais
Por João Paulo Barreto
Reminiscências e mergulhos concretos no passado. Momentos de
reflexão oriundos da busca por um acalmar da dor física e mental, e o seu
consequente encontro com a glória de uma vida passada a limpo. Um homem em
busca de uma redenção intima. De um perdão a ser-lhe concedido por si mesmo
pelos erros cometidos em sua trajetória. É no encontrar-se com as dores da
velhice, com a fragilidade evidente de seu corpo, mas, também, com a força que
ainda parece possuir em sua mente, que este homem alcança tal redenção. É disso
que é feito Dor e Glória, o mais
recente filme de Pedro Almodóvar. De um constatar preciso das próprias fraquezas
e uma tentativa não somente de conviver com elas, mas uma busca pelo
equilíbrio que ainda pode existir
naquele caminhar.
Em sua cena de
abertura, seu protagonista, Salvador Mallo (Banderas, indefectível), um
cineasta consagrado que se reencontra com uma de suas obras trinta anos depois
de seu lançamento, está em uma piscina, silenciosa e calma. Na cicatriz em sua
coluna vertebral, nota-se uma história de batalhas, sendo a mais recente, pela
sua saúde. Através de seu próprio nome, uma pista da abordagem de Almodóvar
perante aquele personagem aparentemente autobiográfico. É justamente a si mesmo
que o homem busca salvar. Em suas lembranças da infância, quando dividia uma
catacumba como lar junto a sua mãe e pai, e quando a acompanhava na cantoria do
lavar dos lençóis em um lago, Salvador vai encontrando aquele conforto fugaz.
Tão fugaz quanto o conforto que pensa encontrar na heroína, droga que alivia
suas constantes dores nas costas, mas não colabora com sua apreensão mental.
![]() |
Salvador e sua epifania física e mental |
SOLIDÃO E REENCONTROS
Aquele desenhar calmo do homem em seu momento de
introspecção mergulhado no silêncio da piscina define exatamente o modo como
Salvador busca, quase que em vão, viver. Quase, pois, à medida que seu mergulhar
com as dores do passado se descortina, mais fundo ele parece estagnar. Sua vida
presente denota uma trajetória de solidão, algo que o texto de Almodóvar
constrói de forma precisa. “Moro com meus quadros. São eles quem me fazem
companhia”, explica Salvador. Um modo ermitão de viver que se percebe como
consequência de suas dores. Paulatinamente, o homem segue em um reencontro com
sua juventude. Algo que parece lhe trazer certo conforto. Na não superação da
perda de sua mãe, um sinal da razão para se prender àqueles dias antigos,
quando um talento para o canto o levara a fazer parte de um seminário, única
opção para se estudar sendo ele oriundo de uma família pobre.
Neste momento, Almodóvar não deixa de se valer da observação
crítica da educação católica, quando coloca o pequeno Salvador negando qualquer
vocação para a batina, ou quando sua versão adulta explica a omissão do colégio
em, por conta do seu talento musical, aprová-lo nas matérias básicas sem que
ele apresentasse resultados. Os flashbacks de Salvador, ainda criança, aliás,
cria uma bela analogia ao despertar, mesmo que fugaz, de sua sexualidade,
quando desmaia por conta de uma visão atrelada a um sinal de insolação. Na sua
versão adulta e repleta de feridas que sua frágil saúde lhe trouxe, um brincar
com o ateísmo e fé diante do modo como as adversidades se apresentam. “Nos dias
em que mais sofro, rezo a Deus. Nos que a dor é menor, sou ateu”. É quando o diretor espanhol mais precisamente
define o desespero de Salvador.
Nessa ligação com a sua infância, inclusive, é perceptível e
precioso o modo como Almodóvar constrói a relação de seu protagonista com
aquela fase de sua vida. Aqui, em sua notória paleta de cores, quando o
vermelho se sobressai, é para justamente separar uma fase em que Salvador está
ainda mais abalado. E o contrastar dessa paleta às estampas que usa nos
flashbacks com sua mãe já idosa (vivida pela veterana Julieta Serrano, em um
belo reencontro com Banderas) ou quando recebe um amigo de sua juventude em um
momento que lhe injeta um ânimo preciso, dá ao espectador a dimensão de como a
ligação com o passado é pungente para Salvador.
![]() |
Lembranças e reminiscências de sua infância |
SUFOCAR OPRESSOR
Aos poucos, ele se desliga daquela fase. E em suas roupas
que o levam exatamente ao período de sua infância, um reflexo dessa ligação. Quando
já não tem mais nada a que se segurar e o encarar doloroso de sua atual
condição de saúde física e mental lhe oprime, o modo como Salvador se apresenta
é no pesado vermelho a revelar não uma paixão por qualquer coisa, uma das
marcas do diretor, mas um desespero opressor. Um sufocar contínuo do homem
diante dos dias que vão se prolongando à sua frente. E isso é algo que Almodóvar
inverte de modo perspicaz nesse encarar intimista de uma trajetória de vida.
No uso do cinema como modo de reconstrução de suas memórias,
Pedro Almodóvar, apesar de não trazer aqui uma assumida autobiografia, coloca,
assim mesmo, sua labuta como forma de salvação. Fazer filmes, criar histórias,
registrar trajetórias, é o que o leva para frente. Em Dor e Glória, uma oportunidade, também, para o realizador brincar
com a pretensão autoral dentro dessa mesma labuta, quando, em um bate papo pós
exibição de seu filme mais marcante, insere um momento hilário em torno da
ausência do próprio diretor no debate após a sessão.
É justamente no cinema que Almodóvar se apóia e coloca seu
alter ego na figura de Banderas como alguém que, da mesma forma como ele,
utiliza a Sétima Arte como forma de salvação. E o brilhante momento em que a
última cena revela a origem das lembranças de Salvador, é quando percebemos
como a criação cinematográfica foi capaz de retirar aquele homem daquela
espiral. Mas, isso, claro, até a próxima batalha surgir. No entanto, para
tanto, haverá sempre a possibilidade de exorcizar-se através dos filmes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário