Marighella Vive!
Por João Paulo Barreto
A importância e impacto existentes no lançamento de Marighella,
longa metragem dirigido por Wagner Moura, justamente na semana do Dia da
Consciência Negra traz um peso e ainda maior relevância histórica para o
trabalho. E o lançamento acontece em Salvador, a cidade mais negra da América
Latina, terra natal do próprio deputado e escritor Carlos Marighella. Salvador
recebeu a primeira sessão em circuito comercial de um filme cuja urgência se
faz necessária pelo tenebroso momento de negacionismo proposital e manipulador
da ditadura e do golpe militar de 1964, bem como diante de uma tentativa
oportunista e canalha de se reescrever os fatos históricos, banalizando todos
os crimes e monstruosidades cometidas pelos militares no período.
Moura, em sua estreia como diretor de longas metragens,
adapta a densa biografia escrita por Mário Magalhães em uma obra que coloca sua
audiência quase que fisicamente dentro do mesmo turbilhão que os últimos anos
de vida de Marighella representaram.
Junto ao seu diretor de Fotografia, Adrian Teijido, no processo de
dramatização fílmica da história do autor de Minimanual do Guerrilheiro Urbano, de Chamamento ao Povo Brasileiro (organizado após seu assassinato) e fundador da Ação Libertadora
Nacional, grupo revolucionário que lutou contra a homicida ditadura no Brasil,
Moura equilibra cenas frenéticas em planos sequência que nos colocam dentro da
ação com momentos tenros, em uma simbólica ideia de calmaria que precede a
tempestade na vida de seu protagonista.
Na calmaria, vemos Marighella (Seu Jorge, em um peso expressivo para o
papel) brincar com seu filho no mar do Rio de Janeiro, e equilibrá-lo na
suavidade da superfície da água. Lá fora, tanques de guerra esmagam tanto
asfalto quanto a liberdade. Moura tem plena consciência do que monta naqueles
paralelos e o que pretende nos fazer refletir com eles.
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Marighella (Seu Jorge) e seu filho: a tempestade se aproxima |
"Hoje
há gente discutindo se a ditadura foi mesmo ruim, se a tortura é aceitável
e se a terra é mesmo redonda. Isso era impensável há cinco ou seis
anos. Aprendi que não se pode menosprezar a capacidade de piadas e
absurdos se alastrarem até ganharem status de verdades. Mentira
e desinformação precisam ser levadas a sério e
combatidas pedagogicamente, não se pode mais rir de sandices como a
mamadeira de piroca", alerta Wagner em relação ao estado de mentiras,
negacionismo e manipulação midiática que vivemos em 2020, algo que tem ecos
desde o golpe parlamentar de 2016 e a eleição de 2018. "É preciso levar a
sério e reagir imediatamente. O manejo escroto das redes sociais
polarizou o mundo e relativizou a verdade. E, claro, a aversão de tipos como
Trump e Bolsonaro à cultura, à ciência, ao pensamento crítico, à
regulação das redes e à liberdade de imprensa favorecem um projeto de dominação
que se beneficia da ignorância", complementa.
Sobre a dificuldade de se adaptar uma obra tão densa quanto o livro de
Mário Magalhães, Moura explica que, para ele, o roteiro é a parte mais difícil do cinema.
"Nós estávamos lidando com a história de vida de muitas pessoas e com
um período conturbado do país. Eu e Felipe (Braga, co-roteirista) trabalhamos
juntos em Marighella desde 2013. Para
nós, desde o começo era claro que tínhamos que ter um recorte muito
específico", salienta o cineasta. Inserindo elipses exatas no
avançar da luta e do tempo restante que resta a Marighella, tempo este
conscientemente contado pelo revolucionário naquele recorte dos anos de chumbo
e sangue, o roteiro de Moura e Braga,
juntamente com a montagem de Lucas
Gonzaga, demonstra seu foco como o de um filme que, apesar dos seus intensos
155 minutos, tem uma urgência explosiva no transmitir daquela trajetória para o
público. "Não gosto de ver filmes biográficos que em apenas duas horas
tentam dar conta da vida inteira de alguém. Melhor ler um livro ou
ver um documentário. Nós optamos pelos cinco últimos anos da vida
de Marighella. E muitas vezes pensei se não deveria ter feito um filme só
sobre o último dia de sua vida", relembra Wagner.
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O diretor e seu protagonista: sintonia exata em filme essencial |
CINEMA CONTRA REPRESSÃO
De um assalto a um trem para o roubo de armamento militar que abre seus minutos iniciais, com o plano sequência citado a nos pegar e colocar dentro daquela mesma tensão encontrada pelo protagonista e seus camaradas, ao momento de anos antes, quando o corte para o mar da baía de Guanabara denota exatamente a fugaz calmaria antes do caos e da perda, a estrutura proposta por Wagner Moura em sua câmera na mão, muitas vezes trêmula, transmite de maneira precisa esse esgotamento físico e temporal. A queda pode até ser inevitável diante do poder do inimigo, mas também será sentida pelo carrasco. "Não. VOCÊS perderam", replica Branco, personagem de Luiz Carlos Vasconcelos, pendurado em um pau-de -arara, enquanto um assassino militar o tortura. A simbologia desse momento é exata.
Na truculência esbanjada e regada a mortes e sangue, a representação governamental militar encontra em Lúcio (delegado vivido por Bruno Gagliasso em uma atuação corajosa e sem vaidades) suas mais profundas camadas de desonestidade e virulência. Desde a deturpação de fatos, passando pela manipulação de cenas de crime, até a aspereza e fel engolidos a seco quando tem que se curvar diante de agentes estadunidenses que vêm ao Brasil no rastro do seu suporte ao golpe militar, Lúcio é a representação do quão vil é o estado brasileiro dentro daquela política de violência, censura e terror. O mesmo terror que utiliza como pretexto para acusar de "terroristas" aqueles que se opõem à sua corrupção, algo que vemos se repetir em tentativas de um ministro da Justiça corrupto de um governo alçado em uma plataforma de mentiras.
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Gagliasso se despe de vaidade para compor o monstro Lúcio: papel corajoso |
Da influência de um cinema que historicamente surgiu como uma luta
contra o fascismo, Marighella e seu
diretor se estabelecem como símbolos dessa mesma luta.
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