Ação elevada a um novo patamar de qualidade
Desafiando-se na criação de impactantes sequências,
saga John Wick impressiona em sua
terceira parte
Por João Paulo Barreto
O Hotel Continental como solo inviolável quanto se
trata de assassinatos em suas dependências. Dívidas de sangue registradas como
promissórias lavradas, registradas e cobradas literalmente com sangue. Uma
moeda interna para uso exclusivo entre aqueles que estão dentro daquele grupo.
Equipes de limpeza atuando como suporte para os momentos em que as situações
alcançam patamares inevitáveis de violência. Braços da Alta Cúpula que se
alastram em âmbito mundial e acima de diversos grupos notórios por sua
violência. Regras rígidas e punições severas para aqueles que as violarem. Estrutura
burocrática, porém eficiente, de organização. No meio disso tudo, um dos seus
membros mais competentes, um homem atormentado que conseguiu enxergar um novo
horizonte ao lado da sua amada, mas a perdeu para uma doença terminal. Durante
seu luto, o carro preferido é roubado por membros da máfia russa e, se já não
fosse trágico o suficiente, seu filhote de beagle, último presente que sua
esposa lhe deixou, é assassinado a sangue frio em sua frente. A saga de John
Wick possui todos os elementos para uma violenta franquia de sucesso.
Desde seu primeiro filme, de 2014, quando fomos
apresentados à máquina de matar vivida por Keanu Reeves, as possibilidades que
o diretor e roteirista Chad Stahelski tinha em mãos para o cinema de ação era
grandioso. O ex-dublê, que trabalhara em filmes como O Corvo e Matrix (onde
substituiu o próprio Reeves), conhecia
bem o modo como as artes marciais, atreladas a cenas de perseguições repletas
tiros e pancadaria, possuem potencial para criação de um filme cuja violência
estilizada poderia casar com uma história de vingança e retaliação. Assim, com
o primeiro John Wick (De Volta ao Jogo, no Brasil), tivemos um
aperitivo de algo que alcançaria patamares impressionantes de ação e velocidade
narrativa em suas duas continuações: Capítulo
2, de 2017, e neste Parabellum, que
chega agora às salas de cinema.
A guerra do
título em latim define bem o que o espectador tem pela frente nos 130 minutos
de projeção. Mas, para além da plasticidade de suas bem elaboradas sequências,
é na criação de seu universo interno que reside a principal atração de John Wick. Isso, claro, sem deixar de
lado todas as violentas cenas que remetem a clássicos orientais, como os do
diretor Seijun Suzuki (A Juventude da
Besta e Tóquio Violenta, para
citar apenas dois), e às performances
de Sonny Chiba, lendário astro japonês das artes marciais.
Neste terceiro capítulo, a intensidade como suas
sequências de ação são apresentadas denota a vontade de impressionar com a qual
Stahelski planejou cada uma delas. Porém, essa constatação não é colocada como
uma diminuição ou manipulação do espectador diante de um longa com esse
propósito. Capítulo 3 - Parabellum funciona
justamente por servir a esse apelo de escape exigido por seu público alvo. Assim,
o filme, que se apresenta em uma contagem regressiva para o início da caça a um
banido John Wick, a pagar o preço pelos atos cometidos na segunda parte,
aproveita-se de modo exemplar desta premissa de perseguição para inserir o
anti-herói em constante movimento de fuga. Seja utilizando um livro ou um lápis
(item que já alimentava a lenda por trás do matador “bicho-papão”) como objetos
mortais, passando por uma brutal e eletrizante briga com facas, até chegar a
dois de seus melhores momentos, quando vemos Wick montando um cavalo enquanto
luta contra motociclistas em Manhattan ou quando pilota ele mesmo uma moto durante
o combate com perseguidores munidos de espadas, a obra se confirma exatamente
como uma série de fanservices no
melhor sentido que a expressão, definida como a inserção de situações feitas
para agradar apreciadores, possui. Um filme de ação na sua mais exata definição,
afinal de contas.
AÇÃO E CONTEÚDO
Mas, para além de um trabalho com tal definição, John Wick – Parabellum une bem a sua
proposta explosiva e violenta de cenas – cuja montagem, mesmo frenética,
consegue captar cada momento em seu desenvolvimento – com um gradativo
desvendar da grandiosa rede representada organização Alta Cúpula.
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Reeves e Anjelica Huston: dívidas sendo cobradas |
Na figura da
juíza vivida por Asia Kate Dillon, temos um breve vislumbre do quão grande e
organizado é aquele grupo e como isso ainda pode ser aproveitado nessa
franquia. Do mesmo modo, o longa nos apresenta às origens de seu protagonista,
elemento narrativo ainda a ser explorado a fundo. Ter Anjelica Huston como
parte de tal subtrama envolvendo John Wick é algo que anima ainda mais,
inclusive.
Apesar dos sinais de que caminharia para uma
conclusão encerrando a saga John Wick como uma trilogia, Capítulo 3 traz em seu desfecho um
gancho para uma continuação que esperamos não exaurir todo seu frescor. No
entanto, com o impacto gerado como peça de entretenimento dentro de sua
proposta de ação frenética, e se valendo de uma premissa criativa que insere um
universo organizacional e criminoso que pode ser aproveitado narrativamente de
forma singular, pensar nas possibilidades que mais um filme para a franquia pode trazer é algo bastante animador.
Com seu ápice explosivo acontecendo dentro do Hotel
Continental (momento no qual um impressionante design de som se destaca) em um
ato final que remete à emblemática cena no Museu de Arte Moderna de Nova York
vista no segundo filme, a vontade de testemunhar mais daquele universo
ficcional Wickiano supera, entretanto,
a necessidade atual de um grand finale. Mas
não vamos abusar da boa vontade do cinéfilo fã do frenético e explosivo gênero
de ação que cresceu com Duro de Matar e
McClane, outro John que também dá
trabalho para morrer e que, aqui, ganhou um representante à altura.
*Crítica originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 16/05/2019
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