A banalidade do luto no novo Cemitério Maldito
Carente de construção dramática em sua premissa de
mesclar dor, horror e loucura,
versão 2019 para clássico de Stephen King
decepciona
Por João Paulo Barreto
Em 1983, o escritor Stephen King lançou o livro Pet Sematary, um romance de terror que
se revelou em um brutal estudo acerca do luto e suas consequências no ser
humano. Brutal tanto em aspectos emocionais quanto físicos. Ao se valer de uma
sufocante atmosfera do horror, King criou uma obra que aborda o modo como a dor
da perda pode levar ao frenesi da loucura. Seus personagens caminhavam por esse
limiar que o autor ilustrou de modo perfeito em uma análise que levava o leitor
através de um universo no qual o macabro andava de mãos dadas com a fé religiosa.
Com suas citações que vão do evangelho cristão a Ramones, banda de punk rock
que, inclusive, viria a homenageá-lo, o livro do escritor estadunidense natural
do Maine, estado que sempre serviu como local geográfico para suas histórias, desenhou
uma perfeita análise do modo como perder um ente querido pode ser um fato a
alterar existências de forma definitiva.
Seis anos depois, em 1989, com um roteiro escrito
pelo próprio Stephen King, a diretora Mary Lambert conseguiu alcançar uma
poderosa adaptação que priorizou a característica sanguinolenta, marca slasher comum a diversos filmes do
estilo, além de contar com eficientes atores para os papéis principais. Tais
aspectos tornaram a versão cinematográfica Cemitério
Maldito um marco exemplar em sua ambientação soturna na recriação tanto do
cemitério de animais quanto o indígena. Apesar dos sustos fáceis que
envelheceram tão mal (rever o filme atualmente incomoda um pouco), a obra vista
hoje ainda consegue ser impecável em sua montagem (a cena do atropelamento é um
primor) e nos toques de humor tragicômico representado pela figura
fantasmagórica de Victor Pascow. Lembrando desses aspectos no original de
Lambert, além de seu final desolador em sua última e macabra cena, revisitar a
mesma história na sua nova adaptação de 2019, desanima. Obviamente, não é
prioritário se valer de comparações para avaliar a versão século XXI para a
trama, mas, mesmo para o espectador não familiarizado com as fontes originais
do filme, torna-se perceptível a fragilidade e ausência de personalidade no longa
estrelado por Jason Clarke e John Lithgow.
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O médico Louis Creed encontra o sobrenatural que desafia sua não crença |
MUDANÇAS SEM IMPACTO
Primeiramente, convém deixar claro que as mudanças
no material original não se justificam em seu apelo dramático. Na premissa de
se utilizar a infância como objeto de terror, a obra até acerta em seu começo,
quando vemos um grupo de crianças usando máscaras de animais durante o enterro
de um bicho de estimação. Ali, a atmosfera de terror é palpável justamente por
inserir uma inocência simbólica em um momento de dor. Uma pena que dure pouco.
Logo, percebemos a escolha de mudar o protagonismo de um de seus personagens
centrais, o bebê Gage Creed, dando, assim, um destaque maior para a presença angelical
e inocente de Ellie, a irmã mais velha do garotinho atropelado por um caminhão
na obra literária, definitivamente uma decisão não acertada. Na verdade, torna-se
algo que denota a preguiça dos diretores em não quererem trabalhar a atuação de
uma criança menor.
Além disso, é perceptível que a mudança acontece
para se aproveitar do filão de filmes de terror que têm na presença infantil e
feminina (geralmente com o rosto encoberto por longos cabelos) uma muleta na
pretensão de se causar medo, algo que cai no lugar comum e clichê sem qualquer
impacto como forma de assustar. E, aqui, justamente pela interação forçada
entre mortos e vivos, algo que retira toda a simbologia macabra que o livro de
King trazia, esse aspecto de mistério no horror se perde. Uma vez que, em sua
trama original, a ideia de trazer de volta à vida cadáveres enterrados em um
cemitério indígena já era suficiente para se esperar que tais pessoas não
voltariam racionais, mas, sim, bestiais (algo muito bem aproveitado na
adaptação de trinta anos atrás), o roteiro dessa nova versão descarta de
maneira precipitada um aspecto central na história.
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Filme inicia bem em sua ambientação, mas se perde totalmente em seguida |
VERSÃO OPACA
Junto a isso, o não aproveitamento da presença do
personagem Victor Pascow, aqui relegado a apenas uma breve aparição
fantasmagórica descartável tanto como figura a acrescentar algo que leve o
roteiro adiante, como no aspecto aterrorizante que seu corpo destruído em um
atropelamento poderia trazer a um, digamos, “filme de terror”, resume bem a
fragilidade de sua construção. Simbolizar suas aparições com luzes a piscar
também não é algo que prime pela originalidade em sua ambientação, convém
colocar.
Ao final, a percepção do espectador atento é de que
essa nova versão de Cemitério Maldito carece
de humanidade e entendimento do que é a dor da perda, algo brilhantemente
alcançado pelo original. Talvez por não conseguir transmitir essa dor através
de seu elenco, o filme de 2019 acaba sendo uma versão fria e opaca de uma
história cujo potencial é palpável. Em sua não alcançada ideia de transformar
luto em insanidade, o longa se perde em uma plasticidade que traria resultados
bem mais eficientes se a obra se rendesse ao horror que sua proposta apenas
pincela. Às vezes, a morte é melhor. A
frase símbolo do livro que ilustra as duas versões ganha outra conotação ao
deixar o cinema no final da sessão atual.
* Crítica originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 09/05/2019
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