O Fim do
Sonho
Há 50
anos, Let it Be, o último disco
lançado pelos Beatles, chegava às lojas e firmava-se
como o epitáfio preciso de
uma banda cuja influência e músicas seriam eternas
Por João
Paulo Barreto
Apesar
de não ter sido o último álbum efetivamente gravado por John Lennon, Paul
McCartney, George Harrison e Ringo Starr (este seria o canto dos cisnes, Abbey Road, gravado e lançado no segundo
semestre de 1969, com sua famosa faixa de pedestres na capa), Let it Be, gravado de maneira conturbada
no começo daquele mesmo ano, mas lançado somente em maio de 1970, registrou o
que quase seria um melancólico final para a maior banda de rock da História.
Concebido
como um plano de retorno aos palcos (os Beatles não faziam shows desde 1966), era
originalmente chamado de Projeto Get
Back, que tinha sua faixa título a simbolizar justamente essa volta às
canções cujas apresentações ao vivo seriam foco do álbum. Além do disco, a
banda, encabeçada por uma ideia original de Paul, planejou lançar em filme todo
o processo de concepção do LP, com as sessões de gravação no frio e pouco
acolhedor Estúdio Twickenham sendo registradas por uma equipe de filmagens. A
ideia foi colocada em prática, mas o que acabou sendo visto nos arquivos foi o
declínio emocional de quatro amigos cujas personalidades se formaram juntas,
mas que alcançavam, naquele ponto, um maturidade e vontade de se lançar em
diferentes caminhos. Curioso pensar que o mais velho dos quatro, Ringo, tinha
apenas 29 anos naquele janeiro de 1969, mês em que o disco foi gravado.
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Clima tenso: os rapazes durante as sessões no Estúdio Twickenham |
No
entanto, o que vemos nas imagens captadas não se tratava apenas de
animosidades. Havia ainda sorrisos e a cumplicidade familiar entre aqueles
gênios. Para se entender como aquele momento de tensão chegou, uma série de
fatores precisa ser colocada à mesa. E, não, não sejamos simplórios e medíocres
em culpar apenas Yoko Ono por aquela separação. Para além desse apontar egoísta
de dedo, vale lembrar que a morte do empresário Brian Epstein, em 1966, fez com
que os quatro milionários garotos precisassem tirar o foco de suas composições
para prestar atenção em suas finanças. Ainda assim, mesmo com o peso da perda
do homem por trás das cortinas, naquele ano eles iniciaram as gravações de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o
que muitos consideram o melhor disco de rock da História.
Porém,
os conflitos entre Lennon e Macca acerca de quem deveria assumir a gestão
financeira da banda (Paul queria o sogro, Lee Eastman; John queria o empresário
dos Stones, o notório pilantra Allen Klein) começaram a corroer a unicidade do
grupo a partir de 1967. Somando-se a isso os baques dos, considerados à época,
“fracassos” do filme e disco Magical
Mystery Tour, e a tumultuada gravação “solo, mas em conjunto” do White Album, é possível se justificar o
crescente desânimo dos jovens adultos em permanecerem juntos.
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Billy Preston cumprimenta Paul na chegada ao prédio da Apple |
NOVO LOCAL
Após
perceberem que o Estúdio Twickenham não propiciaria o conforto necessário para
as gravações fluírem, a banda deixou o lugar e seguiu para a sede de seu selo,
a Apple, na notória Savile Row, Londres, local onde, no dia 30 daquele janeiro
de 1969, realizariam no telhado do prédio sua última apresentação ao vivo. A
mudança colaborou para um melhor astral, corroborada pela presença do
tecladista Billy Preston no estúdio. Lá, as execuções passaram a fluir melhor.
Para o guitarrista e membro da Cavern
Beatles, exímia banda baiana cover dos rapazes de Liverpool, Eric Assmar, o
pulso de Paul McCartney foi primordial para a criação do disco. “Percebo nesse
trabalho uma presença criativa mais consistente por parte de Paul, em relação a
John, o que pode ser explicado em parte por conta de McCartney ter tomado mais
a frente da condução do trabalho e dos arranjos, enquanto Lennon ainda lidava
com o vício da heroína, fora os problemas internos da banda, o que na prática
acabou limitando sua participação no álbum”, pontua o músico.
Seu
colega de banda na Cavern, o
guitarrista Ted Simões, salienta, ainda, a ideia do disco se diferenciar de
projetos como Revolver e Sgt. Peppers por conta de seu
planejamento para uma possível volta da banda aos palcos. “Depois de passar um
período apenas lançando músicas e discos sem se preocupar em tocá-las para um
público, em Let it Be eles se preocuparam
em criar canções para que pudessem ser executadas ao vivo. Isso é muito
difícil. É bem complicado você compor um disco pensando em uma coisa e, depois,
compor pensando em outra. É bem desafiador. E eu acho que todas as canções ali
são belíssimas para se tocar ao vivo”, opina o músico.
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A Cavern Beatles em sua fase Sgt.Peppers: Ted e Eric ao centro |
LET IT BE... NAKED
Mesmo
com todas as tentativas de levar o disco à frente, seu lançamento acabou por
ser adiado. As masters, então, ficaram paradas na Apple durante os meses
seguintes de 1969. Foi quando, a convite de George Harrison e John Lennon, Phil
Spector embarcou na ideia de moldar as novas canções para o lançamento que não
mais se chamaria Get Back, mas, sim, Let it Be. Experiente produtor, Spector
trazia na bagagem trabalhos como Be My
Baby, das Ronettes, e Unchained
Melody, dos Righteous Brothers. Para o álbum dos Beatles, trouxe experimentações orquestrais em
canções como The Long and Winding Road e
colocou em prática o seu notório processo de produção chamado Wall of Sound, que consistia em um explorar
mais denso das capacidades musicais em estúdio , com reverberações, ecos e
camadas sonoras.
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Marcelo Costa e seus três momentos Let it Be Foto: Lilliane Callegari |
Tudo
isso, após lançado em 1970, não agradou Paul McCartney, que só escutaria o álbum
da forma como queria em 2003, com o lançamento de Let it Be... Naked, versão, como o próprio nome entrega, “nua”, do
que seria o disco dos Beatles. Para o crítico musical e editor do site Scream&Yell, Marcelo Costa, há algo
além de uma simples preferência em saber qual das duas versões é “a melhor”. “Aprendemos
a amar o Let it Be do jeito que ele
é, porque passamos a vida ouvindo-o dessa maneira. Não somos o Paul, ou seja,
não temos uma ligação pessoal de artista e obra que possa comprometer esse
amor. Dito isto, Let it Be... Naked é
maravilhoso por nos permitir ouvir o mesmo álbum de duas maneiras diferentes. É
fato que toda a orquestração deixou tudo meio exagerado, e a versão “Naked”
carrega uma beleza delicada perto do arranjo de Phil Spector, mas não é caso de
escolher essa ou aquela, e, sim, de se apaixonar pelas duas”, explica o jornalista.
Anda em sua análise acerca do que representa o
legado do disco, Marcelo Costa emociona com sua definição. “Let it Be simboliza o atestado de que
tudo na vida pode acabar, que podemos nos reconstruir e seguir em frente. Esses
quatro rapazes mudaram a cultura mundial em diversos âmbitos extrapolando a
música. E seguiram em frente. É uma despedida triste, carregada de dor, frieza
e distanciamento, e que marca muito exatamente porque estamos falando de
pessoas que se amavam e que eram grandes amigos um do outro, mas que, no fim,
foram engolidos por algo que era maior do que eles e maior do que a banda: a
própria História. Eles deixaram para a História lições de vida importantes e
grandes canções. Pode se esperar mais da vida?”
Speaking words of wisdom...
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