Sobre meninas e
lobos
Autobiográfico e redentor, Inocência
Roubada traz brutalidade da pedofilia e seus traumas
Por João Paulo Barreto
Desde sua cena de abertura, quando a atriz, dançarina e cineasta Andréa
Bescond baila em um frenesi libertador, a proposta de expurgo de um sofrimento
guardado é atrelada ao projeto Inocência
Roubada (As Cócegas, no original,
tenro e, exatamente por isso, ainda mais assustador título francês) de maneira evidente
e sem concessões. Por isso mesmo, trata-se de uma obra cujo impacto no seu
público é tão violento. Mas tal violência em momento algum é vista como
manipuladora ou artificialmente inserida para chocar. A maneira como Bescond
aborda suas próprias experiências traumáticas de vida e as compartilha com sua
audiência chama a atenção, sim, pelo modo brutal como a mulher passou sua
infância gradativamente destruída, mas é no processo de cura e libertação que
reside a força do filme.
Baseado na vida pessoal da própria Andrea, que, durante a
infância, sofreu constantes abusos sexuais cometidos por um amigo de seus pais,
a história foi originalmente adaptada como um premiado espetáculo musical no
qual as performances dos números realizados pela dançarina denotavam o poder
que a dança tem no sentido de extravasar toda dor e traumas contidos em sua trajetória.
Levar o mesmo tipo de abordagem para uma mídia diferente, no caso, o cinema,
corria o risco de banalizar o projeto com uma aproximação dentro de um apelo
para o melodrama, como a inserção de uma trilha sonora apelativa ou atuações
maniqueístas, por exemplo. No entanto, o que nos é trazido é a representação de
um mergulho naquelas experiências de maneira a nos inserir literalmente dentro
de suas lembranças. E quando digo literalmente, é justamente isso que acontece.
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Odette busca apoio de seus pais na sua superação |
LABIRINTOS
Ao apresentar a pequena Odette, seu alter-ego no filme, Andréa nos
leva por entre os labirintos de seu trauma. Utilizando uma inteligente montagem
que caminha entre as lembranças do passado e o tempo real e presente, colocando
o processo terapêutico como guia naquela experiência, Bescond e o co-diretor
Eric Métayer (que faz uma pequena participação como o professor de dança de
Odette) conduzem o espectador pela mente da mulher, colocando inicialmente suas
sequelas em evidência, mas demonstrando a origem de cada uma delas dentro
daquele processo de conhecimento, redescobrimento e, esperançosamente,
superação. Assim, a condução do seu público diante dos traumas se apresenta
gradativa.
Mantendo cenários, elementos e personagens que se misturam entre
reminiscências e a realidade, na qual, por exemplo, a imagem de uma porta de
banheiro pintada de rosa e com contornos infantis deixa de possuir essa ideia
de inocência para denotar um simbolismo amargo, o filme constrói para seu
espectador uma constante percepção dos gatilhos que iniciam Odette/Andréa em
seu turbilhão emocional. Em outra passagem, a textura e aparência de uma toalha
que lhe é estendida antes de entrar em cena a leva aos dias dos abusos e a um
extravasar daquele período em apenas uma frase proferida por ela e recebida com
surpresa pelos colegas. A dureza com que percebe sua fragilidade a faz pedir
desculpas pela franqueza, sendo este talvez o momento de maior impacto da obra
justamente por demonstrar sua prisão e vontade de escapar daquele tormento
mental.
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Um ensaio para a felicidade e para o equilíbrio mental |
ESCAPE ONÍRICO
É quando Odette passa a utilizar aqueles artifícios psicológicos como
brincadeiras internas em busca de seu conforto intimo, inserindo conversas com
psiquiatras e encontro com amigos como fantasias mentais, tudo em busca de um
escape, de uma fuga daquela sensação de aprisionamento e angústia. Bescond e
Métayer, aliás, ainda conseguem inverter essa expectativa do espectador ao
representar a fragilidade de Odette de forma sutil, quando, usando mais uma vez
uma sagaz montagem, inserem em um único e breve momento a imagem da criança no
meio de um jantar de adultos. Dessa vez, a sua fuga para não concede conforto a
Odette.
Deste modo, Inocência
Roubada utiliza esse artifício onírico de sua protagonista como uma
simultânea desconstrução de seus medos e preparação para a dureza de sua
realidade, quando precisa encarar seu tenebroso passado sem a possibilidade de
ter aquele esconderijo.
Neste áspero reencontro no qual sua infância lhe é empurrada para
o atual presente, qualquer traço de força dentro de Odette se perde. Seu único
pilar ainda reside no afetuoso abraço e choro contido no calor paterno, uma vez
que, da parte de sua mãe, uma muralha de negação e desprezo diante de seu drama
lhe é apresentada. Está, porém, é apenas mais uma pedra na muralha que a
aprisionou e da quel, enfim, se liberta.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 17/07/2019
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