CINEMA Abordando o horror da ditadura, Meu Tio José, dirigido por Ducca Rios, é o primeiro longa-metragem baiano a competir no prestigiado Festival Internacional de Animação de Annecy, na França
Por João Paulo Barreto
Havia um peso na vida do então garoto que viria a se tornar o diretor de cinema Ducca Rios. Tal peso era aquele da ausência de respostas pelo assassinato de seu tio, o artista gráfico e ativista político José Sebastião Rios de Moura, morto a tiros há 38 anos, em junho de 1983, em Salvador, quando o menino tinha apenas dez anos de idade. Tal ausência de respostas ainda permanece. Porém, existe uma perceptível sensação de diminuição do peso carregado por anos após a perda de seu tio. "Larguei um peso que vinha carregando exatamente nesse momento. Ao soltar o filme para os festivais e, em breve, para o público, eu sinto um grande alívio. Por ter conseguido concretizar um objetivo tão antigo. Quando tomei consciência de que queria, realmente, fazer algo com o José Sebastião, foi por volta de 2010", explica Ducca, salientando a importância da vitrine representada pelo Festival de Annecy, que começa amanhã, seguindo até dia 19.
Na história
de seu tio, que conhecemos através da óptica da criança Adonias, figura
infantil de Ducca aos dez anos, vemos um homem que vai perdendo sua força
motriz à medida que a ditadura militar, o autoritarismo e o fascismo avançam no
Brasil de 1964 em diante. A partir das lembranças compartilhadas pela família
de Adonias, conhecemos José na adolescência ainda em Teresina e, depois,
desembarcando no Rio de Janeiro na efervescência cultural brasileira naquele
começo dos promissores anos 1960. Após sua ida a Brasília, onde começa a atuar
como professor da UNB, é quando envereda de vez na luta contra a ditadura,
chegando a fazer parte do grupo que sequestrou o embaixador estadunidense
Charles Elbrick, em 1969. Exilado e em fuga constante, José torna-se, também,
exilado de si mesmo, sob o peso daquela roda viva. Retorna ao Brasil com a
anistia, mas nunca conseguiu voltar a si mesmo. Torna-se introspectivo e
silencioso, possivelmente ainda revivendo os dias de terror ditatorial. Em
Salvador, é baleado dentro de uma farmácia por homens de terno e gravata.
Morreria dias depois no hospital. Um crime que a polícia nunca buscou
solucionar.
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José Sebastião chega ao local fatídico |
"A
transmutação, digamos assim, do José começa a acontecer na UNB. Porque começa a
repressão de um lado, com os setores conservadores encampados pelos militares. Eles
começam a dar mostras que não vão deixar o Brasil seguir pelo caminho
democrático, e acabam dando um golpe. E aquilo ali é um golpe, realmente. Uma
cisão, em 1964, na personalidade do José. Eu não sei como me colocar na pele
dele, mas imagino isso. Imagino que ele, vendo o povo sem saída, viu a si
mesmo sem saída. Porque você não ter democracia é você não ter saída. É você
não poder se expressar. É você não poder opinar. Não existe voto. Não existe
direito. Então, você é o que?",
reflete Ducca Rios ao pensar na situação pela qual passou seu tio.
ANIMAÇÃO
Ao optar por
contar a história de seu tio José através da animação, Ducca Rios contou com
uma ferramenta de liberdade criativa que o permitiu ilustrar o pensamento
infantil e o choque de uma maturidade alcançada tão precocemente pela dor da
morte de maneira ao mesmo tempo lúdica e calcada nessa dura realidade. "Usamos
em Meu Tio José momentos de ilusão, de delírio quando
a animação vai para um ad libitum completo.
Mas o mais presente é o real. A estética do real. E dentro dessa estética,
imprimimos essa opinião a partir da escolha do preto e branco, que tem duas
questões que eu gostaria de ressaltar. Uma é óbvia que é a ditadura militar. É
um período preto e branco da História brasileira. Sem cor. E a outra é a força
da mídia impressa. No filme, estampamos manchetes nos prédios, nas casas e em
muros", pontua o diretor.
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Família prestes a receber a notícia |
Wagner Moura
é quem dá voz ao José Sebastião. O filme conta, ainda, com outros atores
baianos, como Bertrand Duarte, Jackson Costa e Evelin Butchegger. Ducca Rios
explica que Moura gravou sua participação em Meu Tio José no dia seguinte ao encerrar os trabalhos de direção em
Marighella, seu filme de estreia como
diretor. "Ele já estava com a vivência atrás das câmeras como diretor, mas
estava mergulhado naquele período, entendendo quem era o Marighella, e sabia o
que era a clandestinidade. Imagine a clandestinidade, quando as pessoas não
podiam falar com seus familiares, e não tinham acesso nenhum, porque não
existia internet. No máximo, um telefone, se não presença física",
salienta o diretor, descrevendo a experiência com o ator. "Ele percebeu
quem era o José. Foi muito fácil para ele entender. Eu já observei outros
papéis do Wagner. Ele entra nos personagens e você não reconhece mais a pessoa.
Ele tem essa capacidade de não rotular o personagem. Ele realmente constrói
personagens diferentes. Ele imprime a sua personalidade, claro, mas não dá
pistas de quem ele é quando está dentro do personagem. Isso é muito raro em atores", elogia
Ducca.
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O diretor Ducca Rios |
HISTÓRIA SE
REPETE
Idealizado
em 2010, em um período cuja conjuntura brasileira era outra, a animação é
lançada em um ano como o de 2021, década que se inicia repetindo as mesmas
armadilhas de uma oportunista situação política que, agora, já não mais flerta
com o fascismo, mas, sim, o assume completamente. "Eu nunca imaginei que
lançaria esse filme em um momento como esse. É uma coincidência ruim para o
país. Para o filme, acaba passando uma coisa meio profética que, para mim pelo
menos, não existe em Meu Tio José.
Acho que foi uma conspiração do universo para esse filme ser lançado neste
momento, quando estamos vivendo uma época que nos remete a momentos que aconteceram
antes do golpe de 1964. Gente indo para a rua em 'Marcha para a Família',
entendeu? Uma marcha para a família que, na verdade, esconde ideais super
retrógrados. Gente pedindo cassação do STF. 'Mais bíblia, menos constituição.'
Isso é uma loucura! Estamos dentro de um processo distópico de volta ao passado
inacreditável. Acho que tem muita gente indo para a rua e pedindo intervenção
militar porque não sabe o que é. Não sabe o quão ruim é isso. É um caminho
perigosíssimo. Perigosíssimo! Para todos! É um caminho que leva ao abismo",
alerta.
Nas melodias
das músicas de Chico Buarque, desconstruídas em versões instrumentais a dividir
os capítulos do filme, além da pulsante versão de Apesar de Você na voz de Lirinha, Meu Tio José nos deixa introspectivos ao seu final. Mas
esperançosos de que "apesar de você", poderemos voltar a sorrir.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 13/06/2021
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