sexta-feira, 13 de abril de 2018

Baseado em Fatos Reais

(D'après une histoire vraie, França, 2018) Direção: Roman Polanski. Com Emmanuelle Seigner, Eva Green.


Por João Paulo Barreto

É no montar das peças a definir a personalidade doentia da escritora best-seller Delphine Dayrieux (vivida por Emmanuelle Seigner) que reside a captação total da atenção do espectador que assiste Baseado em Fatos Reais, novo trabalho de Roman Polanski, cujo roteiro foi escrito em parceria com o diretor Olivier Assayas. Muito além da simplória e clara percepção de um final um tanto previsível (algo que não chega a diminuir o filme, friso), o longa traz na análise das amostras dos elementos psicológicos que torturam física e psicologicamente sua protagonista seu maior trunfo. Passo a passo, o espectador atento vai observando as rimas temáticas e visuais daquele universo de introspecção ganhar reflexos reais na vida da própria escritora. E é justamente neste ponto que a obra de Polanski encontra sua força.

Vitima de um bloqueio criativo e torturada pelo trauma do suicídio cometido por sua mãe, cujo relacionamento acabou por se tornar tema do seu mais recente livro, a autora sofre um esgotamento psicológico que reverbera em sua própria sua própria rotina de trabalho. Incapaz de lutar contra a tela branca do computador, Delphine cede à curiosidade e decide se encontrar com uma fã que a abordara durante uma sessão de autógrafos. Misteriosa e invasiva, Elle (Eva Green, que usa bem a magreza e os olhares na sua construção) a atrai não somente por representar a figura enigmática que transparece, mas por ser uma crítica sincera de seu próximo livro, ainda em planejamento. Alguém capaz de agir além da condescendência e da admiração, apontando defeitos e pontos de melhoria. Rapidamente, a amizade entre ambas cresce e passa a ganhar contornos de uma dependência afetiva um tanto doentia, ao ponto de Elle se mudar para o apartamento e se auto-intitular sua secretária e a organizadora de tudo relacionado ao trabalho de Delphine.

A invasiva aproximação de Elle na vida de Delphine

BOWIE E O JOGO PSICOLÓGICO 

A partir deste ponto, passamos a observar um jogo psicológico que, apesar de por breves momentos se insinuar com tendências sexuais, logo percebemos se tratar de algo bem mais complexo. Em seu roteiro, Polanski e Assayas, a partir da obra escrita por Delphine de Vigan, constroem um mosaico de pistas que, como já dito, mesmo caminhando para um desfecho previsível, traz para o espectador uma série de ricos elementos que tornam o analisar daquela relação parasitaria entre Elle e seu ídolo um exercício brilhante. A começar pelo modo como, gradativamente, Elle se torna Delphine. A escritora, tomada por tamanha fragilidade física e emocional, permite que a jovem se apodere de tudo que lhe pertence. Desde a senha de seu computador (em uma clara alusão à capacidade intelectual da autora), passando por objetos pessoais, como uma caneca de café, até chegar a um dos elementos mais simbólicos daquele contato: uma camisa com a estampa de Blackstar, último disco que David Bowie lançou em vida.

Ao colocar a garota trajando aquela especifica peça do vestuário de Delphine, algo que representa não somente uma roupa que a autora usa em sua intimidade, mas um símbolo de sua personalidade e de alguém que tem como ídolo, Elle se apossa, também, dos gostos pessoais da mulher. E sendo tal elemento uma imagem que remete a um disco cuja canção título aborda justamente a possessão de uma pessoa quando esta vem a deixar o próprio corpo, bom, não há fragilidade em qualquer desfecho de história que consiga tirar o mérito de tal construção do roteiro de Polanski e Assayas.



RATOS NA CABEÇA

A luta psicológica entre as duas mulheres caminha, assim, para um choque doloroso, com a violência dos atos de Elle contra a escritora extrapolando qualquer suposto cuidado que a mesma venha a possuir no socorrer da convalescente mulher. Porém, neste embate, Polanski e Assayas ainda encontram espaço para mais uma eficiente metáfora retratando o modo aquele relacionamento representa, na verdade, uma autossuperação para Delphine. O momento em questão refere-se à fobia com os ratos existentes em um porão, contra os quais Elle demonstra pânico e total incapacidade de lidar. Tal comportamento leva a própria escritora, doente e incapaz de se mover normalmente, a descer ao local para depositar veneno e armadilhas, em uma clara alusão ao mergulho que a mesma tem de fazer em sua própria psique para resolver aquele conflito.

Mesmo reconhecendo a fragilidade de uma já esperada surpresa final em sua história, observar essas nuances no roteiro de Assayas e Polanski, juntamente com o significado masoquista dos atos da protagonista e o modo como ela mesma consegue superar aqueles conflitos internos, tornam Baseado em Fatos Reais uma experiência das mais satisfatórias.


*Crítica originalmente publicada em A Tarde, dia 11/04/2018







quinta-feira, 5 de abril de 2018

Um Lugar Silencioso


(A Quiet Place, EUA, 2018) Direção: John Krasinski. Com Emily Blunt, John Krasinski, Noah Jupe e Millicent Simmonds.



Por João Paulo Barreto

Há na direção de John Krasinski para Um Lugar Silencioso algo perceptível desde os primeiros momentos do filme até o seu clímax eletrizante. O que percebemos no olhar do diretor é uma leveza na construção de sua trama. Mesmo produzida por Michael Bay, a obra não possui sequer um traço da mão pesada e da megalomania do diretor de Transformers na intenção de impressionar o espectador no que tange aos aspectos visuais e/ou sonoros. Não há uma montagem com cortes rápidos ou sustos fáceis, tão comum na leva recente de filmes de suspense e terror, por exemplo. Aqui, apesar de ter o som como principal instrumento narrativo, o que Krasinski busca não é manipular o espectador com barulho repentino no intuito de ampliar impacto, para usar uma expressão mais de acordo com o que Michael Bay faria.
O que o diretor de Um Lugar Silencioso encontra em seu filme é um modo de nos convidar para aquele universo de dor, conhecendo a fundo aquela família despedaçada pela perda e pela necessidade de seguir adiante. E ao conseguir tal proeza em exatos 90 minutos, ok, isso denota uma muito bem vinda ausência de ego inflado, comum em diretores habituados a inchar seus filmes quando os mesmos não possuem muito a dizer e quando qualquer mensagem poderia ser transmitida em uma hora e meia, no máximo. A moldura do terror, aqui, serve justamente como isso. Algo que circunda uma família cujo trauma e dor da perda ainda tão recente parece significar apenas um prelúdio para o que ainda de pior está por vir. 

Lee diante de uma tragédia anunciada
Seguindo uma narrativa enxuta, mas repleta de simples elementos ilustrativos que remetem a um futuro pós-apocalíptico, reconhecemos na tela diversos artifícios criados pelos habitantes daquele mundo silencioso para se esconder das cegas, porém aguçadas, criaturas assassinas que os perseguem. Desde as trilhas de areia ou o fato de todos os personagens estarem sempre de pés descalços, passando pelas marcas artificiais pintadas no chão da casa sinalizando os locais seguros onde o piso não range, e até mesmo as luzes que iluminam a noite do rancho onde vivem Lee (vivido pelo próprio diretor), Evelyn (Blunt), e as crianças Marcus e a deficiente auditiva Regan (a pequena atriz, e surda na vida real, Millicent Simmonds). Estes dois últimos, inclusive, desenham uma sagaz homenagem do diretor à obra do escritor Stephen King, As Crianças do Milharal.  Todos esses elementos visuais demonstram um esmero brilhante que a produção possui nestas inserções sem a necessidade de explicá-los ao espectador. Um palpável respeito à inteligência do público. 

SOM COM SOBRIEDADE

Em um filme cuja trama gira em torno do som, Um Lugar Silencioso, claro, valoriza ao máximo a sua diegese, sons que naturalmente são oriundos dos ambientes onde se passa a sua história. Mesmo não sendo novidade para o cinema o uso sóbrio dessa valorização dos efeitos sonoros (ou da ausência deles) no intuito de amplificar a tensão para o espectador, aqui, tal artifício se torna crucial para estabelecer o ambiente sufocante que a construção do roteiro elabora de modo gradativo. 

Logo, se temos no uso dos sussurros um modo de perceber a cumplicidade daquela família, é no grito libertador que uma personagem solta durante um momento de dor que a permite salvar a sua vida e a de seu bebê que encontramos um extravasar não somente da tensão diante da sua fuga, mas, também, da nossa perante aquele presenciar terrível. E quando encontramos uma rima temática entre o mesmo ato de gritar visando uma entrega egoísta e suicida, e a ação idêntica sendo cometida por razões bem mais nobres, bom, resta a percepção de que estamos diante de uma obra singular.

O brilhante uso da cor vermelha nas luzes a denotar o perigo iminente

O resultado é um filme enxuto, redondo, com um final ao mesmo tempo perturbador, angustiante e redentor, que consegue captar a atenção do seu público de forma honesta e direta. Que mais trabalhos possam surgir nesse mesmo nível. O cinema de gênero agradece.



*Crítica originalmente publicada em A Tarde, dia 08/04/2018



quarta-feira, 4 de abril de 2018

Jogador Nº 1

(Ready Player One. EUA, 2018) Direção: Steven Spielberg. Com Tye Sheridan, Olivia Cooke, Mark Rylance, Ben Mendelsohn.


Por João Paulo Barreto

Sendo um dos principais representantes da geração dos Baby Boomers, movimento involuntário liderado por diretores como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, George Lucas e William Friedkin, dentre outros jovens que, na década de 1970, com pouco mais de 30 anos de idade, viriam a mudar todo o modelo de produção do cinema estadunidense, é curioso observar o modo como Steven Spielberg, hoje um titã dessa mesma indústria, revisita em Jogador Nº1 diversos símbolos culturais daquela década, das posteriores e da Sétima Arte como um todo, alguns destes, inclusive, sendo ele mesmo o criador. O que temos em seu novo trabalho é a prova de que Hollywood admitiu não possuir mais histórias originais. E, à frente disso, um dos mais originais criadores de sua história. A prova disso é o mergulho em elementos anteriores e o reinventar destes mesmos símbolos que testemunhamos aqui. Não me entenda mal. Isto é, sim, um elogio.

Baseado no livro de Ernest Cline, também co-roteirista, o longa é uma ode a paixão pela cultura pop que alimenta milhões de pessoas. Sejam estes elementos oriundos dos vídeo games, dos quadrinhos, da música ou dos filmes, não importa. É sublime vê-los surgir na tela do cinema na história de Wade, o jogador do título, que, sob a alcunha de Parzival (em uma ótima referência ao cavaleiro do Rei Arthur que segue em busca do Santo Graal), vive em um jogo virtual na corrida para decifrar os desafios propostos pelo criador daquele universo, o misterioso Anorak, um já falecido mestre da programação e aficionado por cultura pop interpretado com carisma pelo novo parceiro de Spielberg, o ator inglês Mark Rylance.

Tye Sheridan vive Parzival, o jovem em busca do Graal do mundo virtual
Listar as referências que a obra faz a diversos marcos surgidos a partir dos anos 1970 e 1980, como os jogos do Atari, filmes definitivos como O Iluminado (em um dos momentos mais sublimes da produção), a trilogia De Volta para o Futuro (com direito ao uso do Delorean e da música em um timing preciso), o pilar da animação japonesa, Akira, ou, ainda, nos mais recentes anos 1990, com o trabalho do próprio diretor, Jurassic Park, talvez seja um exercício desnecessário aqui. No entanto, para alguém que viveu boa parte daqueles surgimentos e olha para trás com certa nostalgia, o mais apropriado é entrar na sala preparado para aquele mergulho na memória. Para os mais jovens, a imersão ainda pode ser plena, apesar de requerer certo afinco no reconhecimento de vários pontos. Ao usar elementos que ele mesmo criou, o que Steven Spielberg propõe aqui é mais do que autofagia, friso. Ao se autoparodiar com uma cena de um dos seus blockbusters, por exemplo, o cineasta se reconhece como parte essencial daquela mesma cultura que, junto com seus parceiros da revolução em Hollywood de quase cinquenta anos atrás, consolidou um novo caminho criativo e, por consequência, uma nova indústria que foi diretamente responsável por boa parte do que vemos aqui.

Trata-se de uma ficção científica a abordar um futuro bem próximo. Ao criar a realidade de Columbus, a megalópole décadas à frente do nosso tempo, mas que, ao invés de trazer casas high techs, mostra aglomerações de pessoas morando em containeres suspensos, quase que em versões futurísticas de favelas, o visual do longa denota justamente a reflexão de que o futuro proposto por diversos filmes (muitos deles homenageados durante a projeção) deixou de ser plausível.  Aqui, as massas populosas e os problemas atuais de moradia se tornam evidentes.

Assim,em sua essência, Jogador Nº 1 traz não somente um resgate nostálgico de elementos que marcaram uma época. Nostalgia pode ser um best seller nos dias atuais, mas seria manipulador usar tal fator apenas para entreter audiências e fisgar bilheterias. Mais do que isso, o que o longa propõe de modo preciso é uma reflexão acerca dos dias atuais, da solidão entre pessoas reféns de redes sociais, de focos mais dedicados a telas de celular e computadores, e menos ao rosto de quem está do seu lado. A imersão virtual acaba por se tornar nociva. O que o roteiro filmado por Spielberg discute pode parecer simplório, mas observando o principal público que seu longa atingirá, a mensagem se faz mais do que necessária.  E se com ela o que temos de brinde é uma homenagem aos melhores símbolos daqueles dias mais simples e sem realidade virtual, que assim seja. Saudade do meu Atari...

O futuro caótico em que a aglomeração urbana se torna evidente: tempo presente
Crítica originalmente publicada em A Tarde, dia 04 de abril de 2018



terça-feira, 3 de abril de 2018

O Filho Uruguaio - Crítica e entrevista com diretor e elenco


Os atores Ramzy Bedia, Maria Dupláa e o diretor Olivier Peyon em visita ao Brasil

Há em O Filho Uruguaio, filme do francês Olivier Peyon, diversos momentos que se sobrepõem à, digamos, “simples proposta” de reencontro entre mãe e filho após anos desde o último contato, tema já bastante abordado no cinema. A criança, levada pelo pai uruguaio para o país da América do Sul, nasceu na França, onde viveu seus primeiros anos com ele e com a mãe, Sylvie (vivida de modo estóico por Isabelle Carré). Após o divórcio, o homem traz o garotinho para o Uruguai, onde cresce acreditando que sua progenitora está morta.

Renegando a língua francesa para se comunicar apenas em espanhol, como em uma tentativa de se desconectar de qualquer laço que possua com a mãe, Felipe visita seu túmulo, onde costuma conversar em francês com a lapide, em uma das belas rimas temáticas que o longa possui. Na fuga de sua introversão quando se refere à falta que a mãe faz, o pequenino se reserva àqueles momentos de intimidade para se aproximar de Sylvie da maneira como ela poderia entender em sua língua mãe.

Ao voltar para o Uruguai em busca de Felipe, no entanto, Sylvie o descobre órfão de pai. Retirá-lo do convívio de sua avó e tia, vivida por Maria Dupláa, seria ainda mais traumático, principalmente pelo modo como ela planeja fazê-lo, o sequestrando com a ajuda do amigo Mehdi (o comediante francês Ramzy Bedia, aqui em um belo papel dramático).

O Filho Uruguaio acaba por trazer mais do que um reencontro e um choque de reconhecimentos. Em sua singeleza, a obra de Olivier Peyon se torna um exercício de rimas tanto temáticas, como visuais, como aquela que vemos Sylvie sozinha em um parquinho infantil ouvir a voz do seu filho ao telefone, enquanto este joga futebol em um campo distante de onde ela se encontra. Ou ainda quando a vemos escalar um brinquedo neste mesmo parque em uma clara tentativa de alcançar fisicamente aquele menino triste e confuso que se encontra no alto, mas, também, uma tentativa de alcançá-lo como filho.



Na entrevista abaixo, conversei com o diretor Olivier Peyon e com os atores Ramzy Bedia e Maria Dupláa acerca do projeto. Confira o papo!

Olivier, há no seu filme um encontro de línguas distintas, com atores e atrizes de países variados. Como diretor, como foi lidar com essa variedade em sua seleção de elenco?

OLIVIER - Para mim, a questão principal não era a nacionalidade deles. Era sobre todos os atores, sejam franceses, argentinos ou uruguaios. Eles eram bem diferentes, calro, mas não por causa de suas nacionalidades, mas, sim, porque eles tinha experiências anteriores bem diferentes. Era um grupo de atores e atrizes de diversas partes do mundo, Ramzy (Bedia) vem da França, do mesmo modo que a Isabelle (Carré) e Maria Dupláa vem da Argentina. Era um choque de personalidades e era com isso que eu tinha que lidar. Eu não me lembro ter qualquer tipo de choque cultural com o filme, exceto a equipe técnica do Uruguai, que tinha um ritmo mais particular e eu era mais... (faz uma expressão de durão). E com eles eu tinha que correr mais, sabe? Mas não eram tão diferentes. De fato eu acho que nós estávamos fazendo o mesmo filme. Foi por isso que eu decidi ir para o Uruguai, pois eu queria trabalhar com Fernando Epstein (produtor executivo do filme), porque, quando eu o conheci um ano antes das filmagens, eu percebi que era a melhor decisão para fazer o filme, pois nós tínhamos as mesmas ideias relacionadas a cinema, nós estávamos fazendo o mesmo trabalho. O primeiro rascunho do roteiro foi escrito junto a um diretor argentino. Eu escrevi algumas versões em Buenos Aires. Mas, finalmente, quando fomos fazer o filme, o orçamento ficou muito caro na Argentina. Então, quando eu conheci o Fernando, nós acabamos por ter as mesmas ideias em relação a uma produção independente e em como lidar com essa realidade de um orçamento baixo. Essa foi uma das razões para eu decidir filmar no Uruguai.

Houve mudanças no roteiro por conta disso?

OLIVIER - Inicialmente, no primeiro rascunho, a história ainda era na Argentina. Passava-se em uma pequena cidade de lá e a fronteira era com Iguaçu, entre Argentina e o Brasil. E eles teriam que vir para o Brasil. Então, quando decidimos filmar no Uruguai, eu não queria ter que precisar desse deslocamento por conta dos custos.  Mas eu precisava de dois países na história. Inicialmente, era Argentina e Brasil, depois, por conta do orçamento, o roteiro mudou para Uruguai e Argentina.

Maria, como foi a experiência de trabalhar com Ramzy e Olivier?

MARIA - Foi a pior experiência da minha vida (risos). Não, não, não. Não é verdade. Ramzy foi um grande parceiro. Ele me fazia rir muito. Eu não sabia falar francês. Eu aprendi apenas as minhas falas para o filme. Então, se eu queria improvisar alguma coisa, era muito difícil porque eu não sabia francês. E por isso acabou sendo difícil.

OLIVIER – Ramzy, na França, costuma improvisar bastante. Ele atua em shows de stand up comedy e costuma improvisar muito.

RAMZY – Em todos os meus filmes, eu costumo ser muito expansivo. Mas não dessa vez. Como comediante, após fazer uma cena, eu tenho uma ideia se ela foi boa ou não. Após ele dizer “corta!”, eu sei se a cena foi boa ou não.  Com Olivier, eu não tinha como saber, uma vez que não era uma comédia que fazíamos. Ninguém estava rindo (risos). Eu não tinha como saber. Então, era algo que eu tinha que experimentar.

OLIVIER – Ele tinha que confiar em mim. Mas antes das gravações, nós não nos conhecíamos. Então, foi uma evolução passo a passo. Mas agora... (neste momento, diretor e ator se abraçam entre risos).

Vocês não se conheciam antes? Como foi a escolha de Ramzy para o papel?

OLIVIER - Foi por conta de Isabelle Carré, que interpreta Sylvie no filme. Ela nos apresentou. Na França, Ramzy é bem famoso como comediante.

RAMZY – Ah, sim, bem famoso. Um astro, mesmo.  (risos)

OLIVIER – Sim, um astro da comédia. Claro que sim! Eu havia visto um trabalho dele em um filme independente francês. Um drama. Então, ali soube que ele estava pronto para meu filme.

Ele não era sua primeira escolha?

OLIVIER - Não. Os produtores queriam Ramzy, pois na França ele era famoso, mas, ao mesmo tempo, eles estavam inseguros, uma vez que ele era um comediante. Sempre perguntando se eu estava seguro da escolha. Mas eu não tinha dúvidas.

A camaradagem entre colegas que se reflete no resultado final do filme

O filme traz uma sensação de vida simples, principalmente com o personagem do garoto. Algo mais bucólico, mais simples. Há muitos filmes no Brasil, Argentina, Uruguai, mas o ponto de vista nunca é tão otimista como o seu mostra. Então, foi uma surpresa para nós que uma pequena cidade como Florida tivesse uma visão tão idílica. E isso é algo que o roteiro valoriza. Isso estava na sua construção desde o começo?

OLIVIER – Você tem razão. Nós estávamos buscando por uma cidade bem pacífica, então quando chegamos ao Uruguai, buscamos um lugar bem idílico. Mas eu não queria que fosse algo folclórico ou clichê. Então, em Florida, fomos a vários locais reais que serviram como set. A delegacia, por exemplo. Algumas personagens são pessoas reais da cidade, como o padre, por exemplo. Um dos policiais, também. Nós selecionamos um elenco real com as pessoas de lá. Quando encontramos a cidade de Florida, acabamos por reescrever o roteiro para a cidade. Por exemplo, as cenas no rio. Nós as inserimos no roteiro por conta da cidade. Para criar essa impressão idílica e refletindo na felicidade do garoto naquele lugar. Algo que, aos poucos, Ramzy vai percebendo.

O desenvolvimento da personagem de Ramzy no roteiro é perceptível, uma vez que suas intenções mudam no decorrer da história. Ele chega a Florida concordando com os princípios de Sylvie, cuja agressividade destoa da calma de Ramzy. O roteiro sempre teve o ponto de vista de Mehdi 
(Ramzi) como inicial?

OLIVIER – A personagem da mãe, realmente, não era muito simpática (risos). De fato, o filme é feito pelo ponto de vista do personagem de Ramzy. No inicio, quando ele chega à cidade, ele conhece o garoto e vai percebendo como a criança é feliz naquele lugar. É quando ele começa a se perguntar se deve realmente tirá-lo dali.  E o mesmo acontece com o espectador. Sobre a agressividade de Sylvie,  essa característica da personagem foi uma das razões para que Isabelle aceitasse interpretar o papel. Pois não era um personagem clichê. Sylvie, sua personagem, não é uma pessoa simpática. Ela é um pouco louca. Eu disse a ela: você não tem tempo de ser educada. De ser gentil. Você precisa ser dura.


Eu gostaria de perguntar sobre uma cena especifica em seu filme que é quando Mehdi (Ramzy) liga para Sylvie (Isabelle) e ela pede para que ele coloque o telefone de forma que ela escute a voz do filho que brinca no campo de futebol. Para mim é uma bela rima visual, uma vez que coloca a personagem dela sozinha a ouvir a voz do seu, filho enquanto ela mesma está em um playground.  E a mesma rima volta a acontecer quando, no final, ela escala o brinquedo onde o filho está.

OLIVIER - Claro. Há ali uma intenção. No entanto, quando você escreve o roteiro, as ideias surgem e elas nem sempre têm essa correspondência. Quando você vai em busca de locações, isso acontece. É quando essas ideias surgem. Mas, claro, eu buscava esse tipo de correspondência. Esse eco. Quando nós estávamos em Montevidéu, nós vimos esse parquinho para crianças. E estava vazio. Era um parque para crianças, mas não havia nenhuma brincando lá. Eu observei aquilo e percebi uma beleza no contraste de Isabelle (Carré) sozinha, ali, ouvindo e imaginando-o a brincar com os amigos do outro lado da linha.

Para mim é a mais bela cena do filme, pois ela se vê tão próxima do filho, mas, ao mesmo tempo ela está tão distante dele.

OLIVIER – Eu espero que o espectador tenha essa mesma impressão,

RAMZY – É a primeira vez que eu entendo essa cena. Do que você realmente estava falando com essa cena, Olivier. Você é um gênio. (gargalhadas)

OLIVIER – Ao seu dispor, Ramzy (risos). Bom, sobre isso, às vezes, quando você está escrevendo, você pensa que aquilo pode ser exagerado. Você não sabe se algo pode ser exagerado, essa metáfora. Então você precisa achar uma maneira de filmar isso de um modo que não seja clichê. Quando você escreve uma cena como essa, com ela no meio de um parquinho para crianças, sozinha, alguém pode ler e achar aquilo muito óbvio. Então, você precisa achar uma maneira de filmar aquilo de forma tenra. Nessa cena, o espectador vai descobrindo aos poucos que ela está em um parquinho. Essa era a ideia. Tentar usar de modo tenro a relação daquele lugar com ela.

Sylvie (Carré) sozinha após ouvir a voz do filho depois de anos

Como foi o trabalho de dirigir crianças?

OLIVIER - O garoto, Dylan Cortes, é de Montevidéu. Ele era muito profissional, com experiência no palco e com comerciais. Ele chegava a ser profissional até demais em alguns momentos (risos). Nós tínhamos que buscar uma inocência nele, tinha que buscar por sua ingenuidade. Isso porque ele era um ator que sabia exatamente o que fazer. Eu acredito que um ator infantil consegue se sair melhor em uma performance quando você não o trata como criança. Então, com ele acabou sendo fácil

E teve o uso do futebol que tornou as coisas mais fáceis, por ser uma linguagem universal.

OLIVIER – Sim. E nas cenas na caminhonete, todos eles pareciam muito naturais. Não era improvisação, pois sabíamos o modo como queríamos filmá-los. Mas a forma como Ramzy se aproximou deles, brincando sobre ser melhor jogador que todos eles, foi algo natural, que os deixou bem à vontade.

RAMZY – Sim.  Mas, também, foi muito estranho para mim me colocar naquela posição de ficar seguindo as crianças de carro, como um predador. Durante as filmagens, quando tinha pausas, eu sempre dizia isso ao Olivier. “É muito estranho essa situação. As crianças não me vêem. Eu fico as seguindo, me escondendo.” E ele dizia: “Confie em mim.” E ele estava certo.

Mas o seu personagem não estava confortável com aquela situação.

RAMZY – Exatamente. Não estava. Também não era muito natural para mim atuar daquela maneira. Porque eu estava muito desconfortável com aquilo.

Maria, fazer um filme como este, que tipo de portas você espera que abram para sua carreira?

MARIA – Espero que todas. (risos). Na verdade, não é a primeira vez que faço um filme voltado para o público estrangeiro. Mas é a primeira vez que atuo em um filme falado em parte em outro idioma. E esse foi um grande desafio. E a verdade é que eu não falava francês antes do filme. Eu aprendi especialmente para esse papel. Então, posso esperar por algumas criticas em relação ao idioma. Em algum ponto, isso me mostra que posso me preparar para um personagem, mas também que quando um autor quer que eu fale em outro idioma, eu vou ter que falar. Eu tenho que aprender e fazer. E nesse sentido isso me abriu outras portas para poder encarar esses desafios. Eu me sinto mais confiante.

Maria, seu personagem começa o filme como uma pessoa carinhosa com o sobrinho, amável. De um momento para o outro, você precisa mudar totalmente para uma pessoa egoísta e um tanto agressiva. E isso acontece tão rápido. Como foi essa mudança?

MARIA - Foi difícil. Por um lado, a construção do personagem foi muito discutida com Olivier, pois na criação do casting, ela era diferente do que acabou sendo. Ela seria alguém tinha mais ou menos quarenta anos, e falava muito bem francês. Que teria uma aproximação maior para uma atriz francesa. Quando ele decidiu que eu iria interpretá-la, não somente mudou a idade da personagem, como também mudou muito o idioma. E ela acabou sendo originária de outro lugar. Por um lado é isso. Por outro é que o personagem de Maria, para mim, é o mais fascinante no filme. Pois ele é o único que muda realmente durante todo o roteiro. É o único de todos os personagens que não tem todas as informações. É o único que não sabe toda a verdade.  Por isso que ela tem essa reação. Pois ela percebe que todos mentiram, todos sabiam de algo, menos ela. E isso acaba por mudar sua vida. E ela fica sem ação, sem saber o que fazer. Acaba  sendo algo bonito no personagem. Porque a torna humana. Essa mudança repentina, quando ela não sabe o que fazer, mas que, finalmente se dá conta que não era esse o caminho correto a se tomar. Ela percebe que seu sobrinho merece conhecer a mãe. E foi isso o que mais me pareceu fascinante no personagem. Essa mudança.