Filme libanês Cafarnaum
oferece reflexão pela quase desesperança
Indicada ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro,
obra de
Nadine Labaki traz análise da miséria e de dogmas falhos
Por João Paulo Barreto
Há um momento de Cafarnaum,
novo trabalho de Nadine Labaki (Caramelo,
E Agora Onde Vamos?) no qual Zain, o trágico garoto que a câmera segue em
sua vida sem infância pelas ruas de Beirute, parece fugir das pressões que o
mundo lhe coloca nas costas para se permitir observar um homem vestido de Homem-Aranha
(ou Homem-Barata, como o filme pontua). É um dos poucos momentos em que o
lúdico, comum e saudável à realidade de qualquer criança, é permitido existir
na vida daquele triste menino. Essa “ausência de infância” que a trajetória do
garoto possui é o que norteia toda a obra da diretora libanesa.
Obrigado a amadurecer antes de ao menos poder entender o que
é ter maturidade, Zain, cuja própria idade desconhece, tem em sua rotina a
proteção de sua irmã caçula como foco e conseguir diariamente o sustento de sua
família como meta. Neste ínterim, percebe o risco que passará a menina quando
uma mancha de sangue na roupa denota a chegada de sua primeira menstruação. Ao
ensiná-la a conter o fluxo e alertá-la dos riscos que aquela nova fase lhe
trará, Zain demonstra de forma ainda mais clara o nível de sua compreensão
daquele universo que o cerca. Um ambiente no qual é comum homens se casarem com
crianças e a geração de filhos é encarada não como algo a ser planejado (e
evitado no caso daquelas pessoas), mas abraçado como um presente de algum deus
que venha a reger a infeliz vida daquelas pessoas.
Na maturidade que lhe é imposta, Zain vive em um mundo que
não o quer. Um mundo no qual sua existência lhe é questionada a cada momento
pela realidade que o cerca. Gradativamente, ele mesmo começa a questionar o
caos (que o título original acerta ao batizar assim) de sua própria vida, na
qual a incerteza de um dia a mais sem saber se ao menos terá o que comer lhe é
imposta. Fugindo de seus pais, se exila em um parque de diversões, algo que
remete ao breve lúdico que a vida lhe oferece mesmo que momentaneamente.
Curiosamente, é naquele ambiente de escape infantil que conhece alguém que lhe
dará abrigo e, em mais um forçar de sua maturidade, a quase função de pai,
quando circunstâncias emergenciais lhes são apresentadas.
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A maturidade forçada até mesmo na figura paterna que lhe é imposta |
REFLETIR A MISÉRIA
Podendo soar para muitos como uma espetacularização da
miséria, na qual a vida de Zain Al Rafeea (um garoto cuja rotina real não se
afastava tanto do que é visto em tela pelo seu personagem homônimo), parece
receber um holofote, mas não soluções práticas para que ele escape de um
trágico futuro, o filme de Nadine Labaki ultrapassa tais julgamentos por lançar
uma necessária reflexão do mal que dogmas e costumes atrasados como o que vemos
nos pais de Zain causam àquelas pequenas vitimas. São vidas perdidas diante da
miséria que lhe é infringida por governos omissos e religiões oportunistas e
opressoras. Em certo momento, a própria figura do pai amaldiçoa seu casamento e
a imposição recebida desde sempre para ter uma família.
Em seu protagonista, Labaki oferece para o espectador mais
do que uma manipulação emocional diante de tanta barbárie pela qual passa Zain.
A perda da inocência é o ponto de maior impacto para quem presencia a saga
daquele menino. Alguém que abraça a violência por querer vingar-se não somente
de um mal infringido à sua irmã, mas por enxergar naquele extravasar a única
forma de não enlouquecer diante de tamanha ausência de esperança. Naquela
ausência, culpar aqueles que lhe trouxeram para tal mundo é a única forma que
lhe resta de se fazer ouvir.
Mesmo que um sorriso prenuncie de forma tímida um traço de
mudança positiva naquele menino que finalmente passa a existir oficialmente, a
crueza de dogmas religiosos nocivos que sustentam toda a negligência proposital
de um Estado já fez a sua parte de modo infelizmente definitivo no
desestruturar da natureza daquela e de muitas outras crianças.
*Texto publicado originalmente no jornal A Tarde, dia 28/02/2019
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