Quando o afeto e a compreensão derrubam preconceitos
Com ecos do cinema de Ozu, Entre Laços é uma imprescindível análise do
conceito de família no século XXI
conceito de família no século XXI
Por João Paulo Barreto
Nenhum cineasta oriental representou tão bem em seus filmes
a família japonesa do seu próprio tempo quanto Yasujiro Ozu. São dele as mais
tocantes histórias de busca e reconhecimento de uma cumplicidade entre pessoas
de um mesmo clã. São dele as mais belas histórias relacionadas ao cuidado
necessário com os pais idosos e as lições que os mesmos trazem às confusões
mentais vinculadas à imaturidade de seus filhos. É de Ozu o retrato perfeito da
representação da família dentro de seu contexto histórico da primeira e começo
da segunda metade do século passado.
Com os longos enquadramentos semelhantes aos vistos na
filmografia do mestre, diálogos preenchendo panorâmicas de modo a destrinchar
aqueles dramas ao espectador de forma sutil, sem artifícios expositivos em
excesso e com os dramas familiares sendo colocados em um contexto
imprescindível de discussão acerca do que são tais núcleos no século XXI, a
cineasta Naoko Ogigami conseguiu apresentar em Entre Laços uma obra singular cujas nuances e estilo no modo de
trabalhar tais discussões não somente remetem ao estilo como Ozu fazia em seus
filmes, mas atualiza tal influência de forma a reinventá-la para um novo
contexto.
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O equilíbrio familiar que tanto fazia falta à Tomo |
Aqui, a diretora e roteirista traz uma análise da família
tão perfeita quanto as feitas pelo seu compatriota. Em seu filme, Ogigami saúda
Ozu de modo não somente a homenageá-lo, mas trazer para o cinema contemporâneo
nipônico uma atualização dos conceitos de família que o mestre trabalhou tão
bem, e que, desta vez, ganham contornos ainda mais importantes e urgentes. Na
história de Rinko, uma mulher trans que adota Tomo, a sobrinha de seu namorado,
a discussão acerca do afeto encontrado na criação perfeita que ela dá à
criança, e que a mesma não encontra sob a guarda da sua irresponsável mãe
biológica, permite ao espectador a percepção de uma complexidade profunda nas
camadas que a realizadora se propõe a trazer com sua obra.
REVENDO (PRÉ)CONCEITOS
Na pureza da personalidade ainda em formação da pequena
Tomo, uma forma de ainda salvá-la do estigmatizar de preconceitos. O roteiro de
Ogigami desenvolve gradativamente a personalidade da criança, fazendo-a
perceber as pessoas ao seu redor a partir da nova perspectiva que ela encontra
no convívio com sua nova família.
Ao seguir este aspecto, a diretora acerta ao criar um
equilíbrio notável nas rimas visuais da obra, como quando uma tentativa de
suicídio por parte de um garoto que se vê proibido de extravasar seu sentimento
e afeição por outro menino é representado como um pedido de ajuda cujo pretenso
socorro é direcionado para a criança errada. Note como, neste momento, o som
inicialmente diegético (de dentro do filme) de um violino tocado pelo suicida
toma conta da cena, tornando-se a música a embalar a dor não somente física
daquele que foi tomado pelo desespero, mas de Rinko, cujo amor por Tomo é
colocado em julgamento, e pela menina, que percebe o quão frágil é aquela
perfeita nova estrutura familiar que ela conseguiu. Isso tudo embalado por um quase
réquiem. A sensibilidade aqui é palpável.
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O tricô usado não como metáfora para o encontro e libertação |
TRICÔ COMO METÁFORA
Na utilização de preceitos budista para representar o
equilíbrio que Rinko busca para sua vida, ela determina a si mesma a meta de
tricotar 108 “pênis” para, assim, poder queimá-los em um ato simbólico da sua
mudança total. Após isso, planeja alterar legalmente seu nome. Ogigami traz, aqui,
uma outra riquíssima rima temática, quando coloca a personagem a explicar para
a pequena Tomo que o tricô, para ela, é uma forma de extravasar toda sua raiva,
frustração e depressão que o mundo ao seu redor lhe impõe por conta de sua
opção de gênero. De temperamento explosivo, a criança experimenta o ato e
percebe-se de fato a diminuir suas frustrações.
Durante um momento de fúria por saber que um hospital se
recusa a colocar Rinko em uma ala feminina, Tomo adentra no leito da mãe
adotiva e começa a tricotar entre lágrimas raivosas. Naquele ponto, ela ainda
possuía esse artifício como meio de fuga. Em seu desfecho, após já ter havido o
simbólico ato da queima das peças tricotadas, a menina extravasa sua raiva em
tapas a esmo, destinados a sua progenitora. É neste ponto que ela percebe não
ter mais tanto o artifício terapêutico que lhe fora ensinado por Rinko, quanto,
do mesmo modo, o próprio suporte de sua nova família, que começa a lhe ser
retirado de forma súbita e dolorosa. A dor da perda naquele segundo lhe é tão
pungente que apenas a violência física lhe soa como solução em seu extravasar.
Mesmo que tal extravasar seja substituído logo em seguida pelo desespero e
pedido de perdão diante da possível perda da mãe.
Em um filme de temas precisos, Entre Laços abarca uma série discussões urgentes. A sutileza de
suas camadas e rimas, bem como a referência a um cinema clássico como de Ozu,
fazem do filme de Naoko Ogigmi um achado.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde de 10/06/2018
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