segunda-feira, 6 de julho de 2020

Ringo Starr 80 Anos | Papo com João Barone e Charles Gavin



Ringo 80


TRIBUTO Responsável pela popularização da bateria como instrumento fundamental no Rock and Roll e membro da banda pilar que ajudou a moldar a cultura pop no século XX, 
Ringo Starr chega aos 80 anos

Por João Paulo Barreto

“Por muitas vezes, na infância, os médicos disseram a minha mãe que eu ia morrer. Continuo aqui.” Com essa frase, Richard Starkey, universalmente conhecido como Ringo Starr, abre sua participação no documentário Anthology, lançado em 1995, quando ele tinha 55 anos de idade e, junto com Paul McCartney e George Harrison (e John Lennon em falas de arquivo), rememorou a história da banda que ajudou a consolidar como a mais importante do século XX. Hoje, Ringo chega aos 80 e, sim, continua por aqui e tocando sua bateria. Ainda bem. Com aquela maneira até então incomum de segurar as baquetas, diferente do chamado “traditional grip” oriundo do Jazz, Ringo revolucionou a música quando, diante de uma audiência de mais de 70 milhões de pessoas, tocou bateria em 9 de fevereiro de 1964, no Ed Sullivan Show, em Nova York, durante a primeira visita dos Beatles aos Estados Unidos. Em uma metáfora perfeita, John Bryant, notório baterista da banda de Ray Charles, afirmou que, ali, “Ringo mostrou ao mundo que a força era necessária para colocar ênfase no ‘rock’ (rocha) de Rock and Roll. Então, ele segurou as baquetas como se fossem martelos e se empenhou para construir as fundações do Rock”.

Com uma infância repleta de problemas de saúde, Richie, como era chamado (o nome Ringo surgiria algum tempo depois por conta de sua paixão por faroestes, estilo no qual trabalharia como ator), ficou anos internado por conta de um grave caso de peritonite, uma inflamação oriunda de uma apendicite supurada. Nesse período, viu a morte de perto e a superou. Mas não pela última vez. Criado por uma mãe solteira (o pai, um confeiteiro, foi embora quando ele tinha cinco anos), eram palpáveis as dificuldades em sua família durante os anos da Segunda Guerra Mundial e o período pós-conflito, quando a Inglaterra (e Liverpool, no caso) se reconstruía dos bombardeios sofridos.

Ringo em estúdio com os Beatles: técnica em prol do trabalho conjunto

DESTINO TRAÇADO

No mesmo obrigatório documentário de 1995, Ringo afirma que sempre teve olhos para a bateria. “Nas vitrines, enquanto todos os garotos olhavam para as guitarras, eu só via a bateria”, conta. Instrumento caro, apenas jovens de classes abastadas podiam ter um kit completo. Era o caso de Pete Best, primeiro baterista do embrião que viria a ser os Beatles, ainda contando com cinco integrantes (Stuart Sutcliffe no baixo). Por ter um instrumento, Pete Best foi chamado por George Harrison de última hora para entrar na banda, que tinha alguns shows agendados em inferninhos noturnos da boêmia Hamburgo, na Alemanha. Movidos a prelundin, um estimulante, chegavam a tocar 8 horas por noite. Ringo, naquele momento, fazia parte da Rory Storm and The Hurricanes, banda de Liverpool que já tinha alcançado certa fama local e buscava fugir do tradicional Skiffle, ritmo dominante nos anos 1950 britânicos, seguindo uma vertente mais voltada para o Rock and Roll influenciados por nomes dos Estados Unidos como Chuck Berry, Bill Haley & His Comets, Little Richard, Eddie Cochran e, claro, Elvis Presley.

Durante aquela primeira ida a Hamburgo, Ringo estreitou os laços com John, Paul e George, com quem chegara a tocar na mesma ocasião por lá e em Liverpool. Tendo outras experiências profissionais com aqueles que viriam a ser seus parceiros de vida na música, a amizade gerou uma confiança que não seria esquecida por eles no momento chave da virada na vida de Ringo e dos Beatles. Após diversas dificuldades com um temperamental Pete Best, a banda, quando confrontada pelo produtor George Martin em relação às limitações do batera, na ocasião da gravação do primeiro disco, Please Please Me, ao final de 1962, decidiu optar pelo talento de Ringo em detrimento às constantes ausências e problemas comportamentais de Pete Best. George Martin sugeriu a troca do baterista por Andy White, exímio músico que chegou a tocar uma versão de Love me Do, primeiro single dos Beatles. Mas John, Paul e George já tinham tomado sua decisão de convidar Ringo, o melhor baterista de Liverpool, que receberia naquela mesma noite um telefonema convocatório do empresário Brian Epstein e, bom, com o perdão do clichê, o resto é História. E com H maiúsculo.

Durante a última apresentação ao vivo dos Beatles, em janeiro de 1969

INFLUÊNCIA

Membros de duas bandas formadoras do cenário rocker brazuca, João Barone, bateristas dos Paralamas do Sucesso, e Charles Gavin, que durante 25 anos segurou as baquetas nos Titãs, têm em Ringo Starr a presença definidora de um norte a seguir como músicos. Barone salienta a entrada de Ringo na banda como ponto de ignição para o quarteto de Liverpool. “Quando o Ringo entrou para a banda, os Beatles deram certo. Começaram  a ganhar a reputação deles. Porque foi a partir desse momento que a banda se projetou para virar o fenômeno que eles viraram. E isso só atesta a sua importância. Porque, muitas vezes, já tem outros casos de bandas que acabaram porque o baterista saiu, ou perderam a importância porque entrou outro no lugar. E o Ringo foi aquele cara que teve esse papel importantíssimo na amalgama do fenômeno beatle”, explica Barone.

João Barone em show dos Paralamas Foto - Fotorobproduções

Pesquisador musical e apresentador do programa O Som do Vinil (Canal Brasil), Gavin traz o marco divisor que Ringo representou desde aquela lendária apresentação no Ed Sullivan Show. “A partir daquele momento, o baterista ocupou um espaço. Ringo trouxe não só a figura do baterista, mas tirou aquela coisa de ficar sempre ali atrás, por razões óbvias, tudo bem. Mas ele deixou de ser coadjuvante. Ele trouxe a presença do baterista para o lugar do protagonista. Em pé de igualdade com os outros. Eu nunca vi ninguém dizer que o John era mais importante que o George ou que o Paul era mais importante que o Ringo. Isso que era genial nos Beatles. Todos ali eram importantes. Todos ali, de alguma forma, tinham o seu espaço, o seu papel a cumprir”, aponta Gavin. No decorrer de treze discos lançados entre 1963 e 1970, a marca experimental e precursora de Ringo ajudou a moldar a unicidade dos Beatles. Diante de talentos tão impares quando Lennon, McCartney e Harrison, o baterista soube dar consistência às criações deles, tornando  o som da banda algo distante de atitudes individualistas, vaidosas ou ególatras. Charles Gavin aponta essa personalidade técnica do beatle em faixas centrais. “Em Something, Ringo traz coisas que cumprem o papel de sua bateria em uma balada. Ele usa o silêncio. Em Come Together, ele faz o mesmo. Ele usa a pausa. No refrão, ele toca só o bumbo. Hoje não se usa muito essa técnica. Mas se você observar algumas das grandes músicas dos Beatles, a parte da bateria é muito simples. Ele era um baterista que simplificava a parte rítmica. Sabia não ser espalhafatoso”, pontua Gavin.

Charles Gavin, pesquisador musical e baterista dos Titãs entre 1985 e 2010

João Barone confirma essa capacidade técnica de Ringo destacando a sua presença como ponto de construção conjunta da banda.  “Ele demonstrou ao longo das obras primas dos Beatles a sua capacidade de pensar em cada uma das músicas. Em fazer com que as coisas funcionassem dentro dos somatórios. Isso é uma virtude. O músico em si tem uma ideia musical de quando ele está construindo. Ele tem uma percepção musical do que está ouvindo. Mas o público em geral não tem muito isso. Uma pessoa que tem uma certa instrução, uma certa referência musical, é capaz de entender a música pelo seu somatório. Cada uma das partes, se você for desmembrar, você vai ter determinadas sensações e percepções. Mas o público fica meio sujeito a uma visão mais superficial da música, do efeito causador. Então, muitas vezes equivocadamente, as pessoas são levadas a achar que Ringo era um baterista limitado”, explica Barone.

Após os Beatles, Ringo lançou mais 20 álbuns solo, sendo o último deles ano passado, em outubro. O nome do disco? “What’s my Name”, uma alusão à pergunta que faz nos seus shows ao vivo. Na resposta do púbico, ele sempre treplica: “é por isso que eu estou aqui”. Após superar a quase morte prematura na infância; o alcoolismo e a dependência química durante os anos 1970 e 1980; ter se tornado um exemplo de saúde e longevidade a partir dos anos 1990 e pelo século XXI adentro, que seu carisma e sua genialidade técnica permaneçam fisicamente entre nós por muito mais tempo. Seu nome e legado, porém, já são eternos.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 07/07/2020


sexta-feira, 26 de junho de 2020

Selo ELAS | Papo com Helena Ignez, Sofia Federico e Barbara Sturm

Gerações 
Femininas 

Helena Ignez (Foto: Acervo Pessoal) e Sofia Federico (Foto: Marcos Povoas)

Atuando desde 2018 no aumento do potencial artístico e comercial de longas metragens, e oferecendo mentorias profissionais a diretoras de cinema, Selo ELAS seleciona novos filmes baianos de Sofia Federico e Helena Ignez 

Por João Paulo Barreto

Com roteiros finalizados e em fase de captação de recursos, dois filmes baianos de ficção dirigidos por duas representantes de gerações distintas da cinematografia do estado, Sofia Federico e Helena Ignez, estão entre os 14 longas metragens (sendo três deles documentários) selecionados pelo Selo ELAS, iniciativa da ELO Company que traz às cineastas mentorias personalizadas em um programa de incentivo a produção feita por mulheres.

Helena Ignez, veterana atriz e diretora, comemora a marca dos seus 80 anos de idade e 60 de carreira com o projeto Dona Tonha, seu sétimo longa metragem por trás das câmeras. Após o surpreendente documentário Fakir, uma abordagem fascinante de personagens femininas que marcaram o país no século passado pela resiliência e questionar dos preceitos de uma sociedade machista e misógina, seu novo filme, Dona Tonha, uma produção da Layepas Produções Artísticas,  tem roteiro assinado por Ceicça Boaventura e, segundo Helena, se aproxima do documentário anterior na saga da protagonista por conta dos “extremos que se tocam nas duas obras”. Helena Ignez explica: “Em Fakir, o meu maior interesse estava em trabalhar e conhecer esses personagens femininos e masculinos que marcaram a cultura popular do século XX. Em Dona Tonha, pretendo dar voz a mais uma personagem feminina, mas em outro contexto, com outro tipo de resistência, solitária, no sertão, com uma cultura religiosa forte em torno dela e, ao mesmo tempo, uma necessidade profunda de ser feliz. O machismo é presente na vida dessas mulheres, tanto as faquiresas como o entorno da Dona Tonha”, explica Helena Ignez. O filme contará no elenco com nomes como Rita Assemany, Chico Diaz, Othon Bastos e Harildo Déda. 



SOFIA FEDERICO

Com seu primeiro longa metragem, após uma estrada na qual traz na bagagem premiados curtas, Sofia Federico escreve e dirige Tempo Meio Azul Piscina, filme que conta a história de Zaila, profissional que trabalha como restauradora de imagens, fotografias e postais da velha Salvador. Zaila, de 35 anos, passa pelo trauma de perder uma filha durante o parto. No trabalho de restauração, uma nova realidade é criada por ela, que encontra nessa rotina uma maneira de lidar com o luto e com sua dor. Na cumplicidade de Zaila com uma vizinha, Hebe, que acaba de se tornar mãe, a realidade da restauradora se transforma através daquele afeto com a amiga que carece da sua ajuda para cuidar do próprio filho.

Foram duas as ocasiões em que conversei com Sofia acerca do projeto. A primeira foi em setembro de 2018, momento da seleção para o CineMundi, programa que promoveu encontros entre diversos profissionais do audiovisual mundial na edição do CineBH, na capital mineira. Agora, após a participação no Selo ELAS, Sofia explica que “o projeto ganhou mais tônus, sobretudo quanto ao desenho da produção, estratégia de financiamento e percepção do potencial que o filme tem de ocupar um espaço interessante nos mercados nacional e internacional”, atualiza a cineasta e complementa: “Percebo que as pessoas que estão tendo acesso ao roteiro gostam da história e da forma que escolhi de contá-la. O roteiro foi contemplado no ano passado com o Prêmio Cabíria 2019 e, neste ano, está como finalista do FRAPA 2020 - Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre, um dos principais eventos voltados ao roteiro de cinema e TV na América Latina”, pontua a diretora, que tem Tempo Azul Meio Piscina produzido pela Benditas - Projetos Criativos.

SELO ELAS

Bárbara Sturm, diretora de Conteúdo da ELO Company, e criadora do Selo ELAS, explica como funciona o processo de seleção e mentorias. “O Selo ELAS foi criado com objetivo de aumentar o número de filmes brasileiros dirigidos por mulheres, em um mercado onde existem muitas realizadoras em atividade, de todos os lugares do país, e com histórias originais e interessantes. Analisamos todos os projetos que recebemos com interesse na distribuição da ELO Company com o mesmo critério artístico e executivo, independente de quem exerça a direção”, garante Bárbara, que, também, coloca como foco do selo uma cinematografia mais ampla, a abranger diversos locais do Brasil, e não só o sudeste. “Todo final de ano, eu seleciono, como curadora da empresa e do ELAS, os projetos que temos contratados e com direção feminina que vemos potencial no Brasil e no mercado internacional, sempre buscando ter, pelo menos, a metade deles como primeiros filmes e projetos fora do eixo Rio/SP - fomentando o cinema brasileiro como um todo”, finaliza. 

Barbara Sturm, diretora de Conteúdo da ELO Company e criadora do ELAS Foto: Felipe Rau

Para Sofia Federico, a participação no Selo ELAS trouxe uma maior solidificação ao projeto Tempo Azul Meio Piscina. “As mentorias foram super importantes! Não somente para mim, como roteirista e diretora, mas, também, para a produtora, a Benditas Projetos Criativos. Tivemos cinco encontros com profissionais de diversos campos, especialistas em roteiro, produção, legislação e contratos, e pós-produção. Essa é uma ação super importante do Selo ELAS, e que traz resultados efetivos. Fizemos muitos ajustes ao projeto, ouvimos e acolhemos boa parte das críticas. Ele vai amadurecendo a cada escuta. O resultado é que agora estamos prontinhas para filmar”, salienta Sofia.

CULTURA RESISTE

Sem qualquer incentivo à Cultura como patrimônio e indústria no Brasil; com um desmonte do mercado de cinema por parte de uma Ancine sob censura e tendo um agravante que é a atual pandemia, o mercado cultural brasileiro sofre com as arbitrariedades e incompetência do atual (des)governo. Sofia Federico e Helena Ignez têm em suas trajetórias experiências de presenciar diversos momentos da produção cinematográfica nacional. “Cinema brasileiro é sinônimo de resistência. O cinema chegar até aqui foi uma conquista importante de muitas pessoas, grupos, entidades, governos. Quando eu falo “chegar até aqui”, faço questão de trazer os números do setor audiovisual como um todo, que é um mercado que emprega cerca de 100 mil pessoas e gera mais de R$ 20 bilhões ao ano. Em 2017, o PIB do audiovisual superou o da indústria farmacêutica! É importante colocar os números, porque, hoje em dia, só dão valor a quem apresenta impacto na economia. O surpreendente é que, apesar dos números, a cena que está sendo montada no momento pelo governo brasileiro é de um esquadrão de tratores e motosserras prestes a avançar em direção a uma floresta imensa. O cinema brasileiro é essa grande floresta. Os motores estão roncando e a pá dos tratores está erguida em nossa direção”, alerta a diretora de Tempo Meio Azul Piscina.

Sofia traz um enérgico aviso em sua fala. Mas salienta, também, o ato de resistência atrelado ao fazer cinema. “O cenário é de uma tragédia colossal a caminho. Mas, prefiro deixar a cena em suspensão, abandonar esse filme ruim e acreditar que haverá resistência. Como sempre, resistiremos - seja para impedir o avanço das máquinas, seja para reconstruir a floresta inteira”, finaliza. Helena Ignez, que desde os anos 1960 é testemunha das diversas batalhas travadas pelo cinema brasileiro, é enfática: “Atravessamos 21 anos de ditadura militar. Estamos preparadas para resistir. O cinema brasileiro continuará e será forte como sempre. Esse (des)governo está caindo. Fora Bolsonaro!”.

Fora!

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 27/06/2020


sábado, 20 de junho de 2020

Partida | Papo com Caco Ciocler e Georgette Fadel


Viagem Insólita 


Com Partida, cineasta Caco Ciocler traz melancólica, porém, contundente e esperançosa análise do diálogo entre diferentes ideologias políticas 
no rastro da ascensão fascista da eleição de 2018 

Por João Paulo Barreto

Diante da tragédia social e política oriunda da ascensão e vitória nas urnas de uma candidatura calcada no espalhar de notícias falsas, baseada em um discurso de ódio a minorias, de exclusão da Cultura como meio de fomento e desenvolvimento do cidadão, e alimentada pelo uso calculado do fanatismo religioso como meio de angariar votos, o medo e a apreensão de muitas pessoas naquele não tão distante outubro de 2018 eram palpáveis. Tal tragicidade anunciada acabou por ser confirmada de maneira ainda mais pesarosa, uma vez que, menos de dois anos depois, mais de quarenta mil brasileiros e brasileiras (em números oficiais) foram vitimas da irresponsabilidade insanamente calculista de um projeto de governo que prega o descaso e o caos na Saúde Pública do país que finge governar para todos.

No melancólico Partida, o cineasta Caco Ciocler nos transporta para aquele final de 2018 de maneira a nos fazer refletir sobre o que poderíamos ter sido caso fosse outro o resultado daquele trágico dia. Com a tristeza e o choque do domingo no segundo turno da eleição para presidente abrindo sua mescla de documentário e ficção, e com a última semana daquele ano a ilustrar a busca pela compreensão na rotina de seis dias de um grupo de profissionais da arte durante uma utópica viagem de ônibus de São Paulo ao Uruguai na esperança de conhecer o ex-presidente José “Pepe” Mujica, Ciocler traz para Partida a tentativa de um diálogo entre dois possíveis lados da política. Lados que, apesar de contrastantes em ideologias e meios de vida, compartilham, ao menos, um pouco de humanidade. Tal diálogo preside na figura da atriz Georgette Fadel, alguém cuja posição de esquerda se torna uma busca por um modo mais justo de enxergar a sociedade e o mundo como um lugar comum a todos, e o choque de suas profundas ideias com a superficialidade opinativa da direita representada pelo empresário e ator Léo Steinbruch, cujas opiniões se restringem ao sarcasmo e à rasteira e solúvel ojeriza ao PT e aos, em suas palavras, “16 anos no poder sem nada resolver”.

Caco Ciocler dirige Georgette Fadel em cena tensa de Partida
  
FICÇÃO E REALIDADE

Na estrutura de sua direção e captação de seus atores em cena, Ciocler aparece orientando-os a não representar, mas, sim, deixar suas ideias fluírem. O filme, porém, não é totalmente espontâneo em suas falas, tendo, em uma quebra de parede, os momentos de preparação para tais diálogos trazidos à tona ao espectador. Mas isso, importante frisar, não serve como um desencantar do público diante do encontro com algo engendrado em sua construção, mas como uma percepção de como a arte como profissão e a função social daqueles artistas são indissociáveis. Em suas ideias contrastantes, os “personagens interpretados” por Fadel e Steinbruch se opõem ideologicamente, mas são exatamente os dois cidadãos brasileiros que se embatem dentro daquele confinamento sobre os eixos do ônibus a viajar para o Uruguai.

”Esse jogo entre ficção e realidade sempre teve uma intenção que existisse”, explica o diretor Caco Ciocler. “A principio, eu orientei que não deveria haver personagens. Mas é óbvio, e eu digo isso no filme, é óbvio que os personagens naturalmente começarão a aparecer. E é muito interessante ouvir, por exemplo, o Léo Steinbruch dizer, depois dessa experiência, que não sabia mais o que era ele e o que era o personagem. Ele me disse apenas que sabia que tinha que reagir de um jeito que interessasse ao filme, mas que não era exatamente ele ali”, pontua Ciocler que, em Partida, dirige seu segundo longa. 

Georgette em momento de descontração durante a longa viagem

EMBATES

Dentro de um espaço de confinamento que poderia representar naquele contexto a noção de busca por um diálogo comum em um transporte que nos leve adiante, tal qual é o Brasil como lugar onde diversos povos e culturas de diferentes crenças e ideologias precisam coexistir, Partida tem na presença pungente de Georgette Fadel seu diálogo mais pertinente. E isso é dito não por um ponto de vista voltado a uma visão mais vinculada à esquerda em um posicionamento político necessário, mas por se fazer notório e óbvio que, diante da tragédia brasileira iniciada em abril de 2016 e consumada em outubro de 2018, a proposta de uma forma de governo voltada apenas para privilegiados economicamente não é algo mais cabível em um país onde a fome começa novamente a se fazer presente.

“A esquerda e a direita não são dois lados. Para mim, a esquerda é plenamente viva. Eu vejo a esquerda como uma escuta aberta. Eu vejo a verdadeira esquerda como uma possibilidade de se construir um planeta melhor a todo mundo junto, a cada momento. Ou seja, a inclusão plena de tudo e de todos. Já a direita é como uma visão de mundo que pressupõe a felicidade do que? De uma família apenas? Dos iguais? Dos brancos iguais? Não sei. De parte da população como uma tribo que ignora as outras tribos?”, pontua a diferença entre as escolhas políticas e sociais a atriz Georgette Fadel que, apesar da busca pelo diálogo, salienta a dureza do embate entre ela e Léo. “Esse conflito entre eu e ele foi muito cruel durante a viagem toda. Realmente, era impossível que um fosse até o outro, politicamente. Claro que não no nível pessoal. Eu fiquei amiga do Léo. Mas, se formos para o front, eu vou estar de um lado e ele vai estar do outro”, salienta.

Mujica, Fadel e Ciocler em cena central do filme

“PEPE” MUJICA

Em seu desfecho, Partida consegue, mesmo tendo sido concebido em um momento que não imaginávamos a intensidade das trevas nas quais o atual governo empurraria o Brasil, trazer uma reflexão oriunda de uma das mentes políticas mais precisas na necessidade de uma revisão social e econômica de um futuro que urge em ser menos injusto e excludente. No encontro com o ex-presidente José “Pepe” Mujica, em sua última cena, apesar de merecidamente comemorada por todos, o filme de Ciocler nos coloca em um choque de realidade que reflete, naquele dezembro de 2018, precisamente esse atual e tão sombrio 2020.

“No futuro, corremos o perigo de que, com muito dinheiro, os mais ricos poderão comprar anos de vida”, responde Mujica quando questionado acerca dos anos que estão por vir. Isso em dezembro de 2018. Observando o que ocorre hoje, quando acontece um colapso propositalmente planejado e genocida da saúde pública brasileira, quando vivemos há mais de um mês sem um ministro da Saúde e há quase dois anos sem um real presidente da República, é palpável quem e para quem se governa nesse nosso triste Brasil sequestrado pela mentira.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 21/06/2020


domingo, 7 de junho de 2020

Entrevista - Adolfo Gomes

“Quando se faz uma crítica de cinema ou um filme,
 é preciso oferecer algo de si mesmo”

Adolfo Gomes
cineclubista, programador e crítico de cinema 

O crítico de cinema Adolfo Gomes (Foto Paula Sampaio)

Adolfo Gomes tem em sua presença no audiovisual baiano, na função de cineclubista, programador e crítico cinema, uma identidade pessoal que se mescla com o esforço hercúleo de se valorizar o patrimônio cinematográfico do nosso estado. Trabalhou durante treze anos como programador da Sala Walter da Silveira (local onde faz falta como programador), ajudando a construir, na sala que leva o nome do mais conhecido cineclubista da Bahia, a oportunidade para diversos cinéfilos e críticos em formação (eu, um deles) de mergulhar em filmografias completas, movimentos cinematográficos e escolas do pensamento crítico da sétima arte. Na criação do Cineclube Walter da Silveira, que levou à frente na gestão de Bertrand Duarte na DIMAS (Diretoria de Audiovisual da FUNCEB), diversos encontros entre cinéfilos, realizadores e críticos foram realizados, permitindo alimentar a proposta pioneira na Bahia que o icônico Walter da Silveira lançou na segunda metade do século XX. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), Adolfo é um dos autores presentes em três dos livros lançados pela associação com reuniões de escritos que refletem o pensamento crítico cinematográfico do país. Nesta entrevista ao A TARDE, Adolfo aprofunda suas impressões do olhar destinado ao cinema em tempos fugazes como os atuais, quando a fruição na sétima arte vem se perdendo diante da pressa na absorção simplória de conteúdos do audiovisual.

Por João Paulo Barreto

A crítica de cinema feita hoje, dentro de uma fugacidade na absorção de conteúdos liberados em streaming e na pressa que a internet impõe na análise de filmes e séries, possui um esforço imenso em sua meta de se estabelecer como um meio de reflexão que escape ao simples banal. Qual a sua opinião acerca do processo da escrita crítica dentro dessa realidade atual? Talvez o mais importante seja indagar sobre o que esperamos do cinema nos dias de hoje. Ao meu ver, isso precede qualquer debate. Assim, como “fazer filmes” tornou-se algo relativamente acessível e banal; escrever sobre filmes, por consequência, reflete algo dessa natureza instantânea do registro audiovisual, que tende a ser mais fugaz, descartável do que perene e reflexiva. Antes, quando se filmava uma cena, era preciso esperar até que, num laboratório, fosse “revelada” aquela imagem, a dinâmica da encenação pretendida dependia dessa contingência técnica-temporal. O mundo agora é mais visível e pragmático neste sentido. Vemos as coisas, via de regra, em tempo real. Portanto, o fazer cinematográfico atual já não lida mais com o tempo da filmagem e percurso de produção do mesmo jeito. O intervalo que havia entre a captação e a visualização da imagem foi abolido pelo digital. É semelhante ao que acontece com a crítica. Escreve-se e publica-se da mesma forma acelerada. O que quero dizer com a analogia, é que esse ritmo vertiginoso se traduz, na minha opinião, numa certa frivolidade do olhar, ao mero tomar partido, o posicionar-se apressadamente a favor ou contra, em detrimento da problematização das questões apresentadas por uma determinada obra audiovisual. Se um filme é, face uma análise crítica, bom ou ruim, isso deve resultar de um itinerário reflexivo, argumentativo e até histórico, e não pronunciado como uma sentença. O cinema é, acima de tudo agora, uma arte das incertezas e da fluidez. Cabe pensar um pouco mais sobre o dispositivo audiovisual - seu alcance, possibilidades e fragilidades – do que simplesmente na sua consequência, o filme.

O aprofundamento junto a necessidade de um tempo de fruição e absorção também se faz necessário na escrita crítica. Neste aspecto, para você, o processo de construção fílmica se aproxima do processo de construção textual da crítica de cinema? 
Pode parecer demasiado condescendente com a crítica situá-la no mesmo patamar da realização. No entanto, penso que a construção fílmica, sobretudo atualmente, implica resolver ou se impor demandas críticas e textuais. A produção teórico-crítica e, ao mesmo tempo, o imaginário fílmico consolidado fazem com que já não haja mais inocentes. É difícil, tanto para um crítico quanto para um realizador, delimitar as influências, o impacto e a importância que filmes, poéticas e leituras pré-existentes têm no processo criativo contemporâneo. Com praticamente tudo ao nosso alcance, há o grande desafio de evitar a mera colagem, o rearranjo do que já foi feito, a revisita persistente . Trata-se de uma constatação: A maioria das realizações e das críticas atuais é excessivamente descritiva. Então, percebo uma convergência na produção e fruição. Isso sim, infelizmente, equaliza as duas funções de uma maneira geral. No entanto, existem rupturas nos filmes e nos escritos sobre cinema. Quer dizer: espaços de transgressão. Para ilustrar isso, tomemos como exemplo um filme da natureza de O Rei do Cagaço, de Edgard Navarro. A cena inicial, o registro do ato de defecar, subverte a lógica descritiva. É uma imagem tão endógena, magmal, tão "nova" e desconcertante, que parece nunca vista antes. Navarro transforma um gesto fisiológico em outra coisa, numa paisagem lunar. É como se fossemos os primeiros a pisar na lua ou a presenciar tal passo. Em síntese, o filme demanda da crítica imaginação. É preciso, quando se faz uma crítica de cinema ou um filme, oferecer algo de si. E uma das coisas mais pessoais e transgressivas que podemos conceber, neste sentido, ainda é a imaginação.

Cena de O Rei do Cagaço, de Edgard Navarro - Disponível no YouTube
Na comparação entre a linguagem da escrita crítica e a linguagem cinematográfica, são notórios os exemplos de profissionais da crítica que se tornaram exímios cineastas. Esse apuro no olhar dentro da análise textual reflete de que maneira no olhar do fazer cinematográfico? 
Certa vez, o cineasta alemão Werner Herzog declarou prescindir da história do cinema, pois as imagens que buscava nos seus filmes não têm paralelo, nem derivam do que já havia sido visto e filmado. Entendo o que ele quis dizer e não me parece, ainda hoje, nem exagerado, nem presunçoso da parte dele. No Brasil, tivemos o José Mojica Marins, o Ozualdo Candeias e, em certo sentido, o Glauber Rocha que também poderiam reivindicar prescindir da história do cinema. A utopia deles é tão frondosa que isso soa possível, seus filmes tornam crível o sonho de uma autonomia criativa e histórica dessas proporções. É claro que existem outros realizadores assim, de exceção. Mas para todos os demais, a história do cinema é imprescindível, igualmente o olhar crítico.

Neste aspecto da capacidade do profissional da crítica levar à audiência um norte no que se refere ao aprofundamento na História do cinema, qual sua opinião acerca da importância da profissão? Outrora, o crítico era uma espécie de cartógrafo que percorria o território do cinema descobrindo e documentando suas paisagens (os cineastas, movimentos estéticos e revoluções culturais) com a autoridade de um desbravador. Toda uma geração de cinéfilos, como a minha, buscava o primeiro contato com realizadores e filmes - na altura, praticamente inacessíveis - através dos escritos, das críticas. Claro, havia ainda a importância de legitimação artística do cinema que emergia da reflexão estética elaborada nos textos. Tais instâncias da crítica desapareceram, foram incorporadas pelo mercado cultural como uma etapa de quase merchadising e divulgação. A grande contribuição crítica da atualidade não está mais em revelar ou tutelar a arte fílmica, mas em tentar organizá-la diante do caos de oferta por meio da curadoria, da proposição de associações e de links entre filmes e propostas criativas. Há quem diga que o específico cinematográfico é a montagem. Diria que o que define a crítica no momento é a economia de recursos: ver menos filmes, ver filmes de maneira mais certeira e rigorosa e por mais vezes. Na contramão da quantidade, da opulência, um certo franciscanismo curatorial.

O cineasta alemão Werner Herzog
Você tem vasta experiência como curador e programador de sala de cinema. Em como tais experiências refletiram no aprimoramento de sua construção textual como crítico?
Não tenho método, nem sequer uma estratégia de construção textual. Sempre procurei desenvolver um olhar crítico a partir de uma indagação central e pessoalíssima: o que é o cinema para mim? Minha resposta sempre foi mais existencial do que estética. Reconheço: esse é apenas um dos paradoxos da minha relação com os filmes. Como se trata, sobretudo, de uma relação de sobrevivência (preciso do cinema para existir), minha aproximação com o ofício da programação e da curadoria foi natural. Para obter as cópias e ver os filmes, precisava de argumentos e justificativas, do contrário não seria possível exibi-los, acessá-los. Eram outros tempos. Os filmes tinham presença física, peso, diâmetro e demandavam a experiência coletiva da projeção. À medida que via esses filmes, ampliava meu olhar, me aproximava das pessoas e queria compartilhar com elas outras obras. Assim, minha cinefilia foi sendo moldada criticamente e se retroalimentando das curadorias que fazia. Mais do que um crítico, sempre fui um cineclubista.

Para além da vaidade estilística na escrita, creio que o profissional da crítica deve focar em um contexto específico da obra e o tempo sobre o qual ela busca refletir. Para você, qual a função da escrita crítica cinematográfica como fator de reflexão social e política? Para quem não faz muita distinção entre cinema e vida, como eu, é algo incontornável, uma questão de cidadania. Sempre tive uma relação visceral com a arte e com os filmes em particular. Não existe o mundo do Godard e a sociedade, por exemplo. É, para mim, uma coisa só. Portanto, sinto o Godard como um pai, um mentor. Sempre encarei como um ato político ver um filme, escrever sobre ele - em última análise o cinema é também um meio de inserção social, de esperança, de construção de utopias. A escrita, qualquer escrita, não deixa de ser um testemunho histórico para nós mesmos e para os outros. É a força dela: captar uma emoção e traduzi-la em palavras, num discurso. Por si só, mais do que uma função, é um instrumento de reflexão ampla.

O cineasta francês Jean-Luc Godard
Em conversa com o crítico francês Jean-Michel Frodon, perguntei-lhe acerca da proposta de análise crítica sem a necessidade de se esgotar todas as discussões e nuances oferecidas pela obra. O seu processo de escrita segue caminho semelhante?
Meu ponto de partida sempre é uma ideia. Escrevo para esclarecê-la e fazer vir à tona um sentimento, uma impressão concreta e objetiva. Talvez não seja um crítico, simplesmente busco ter um olhar crítico. Quando escrevo nunca quero esclarecer um filme, explicá-lo ou circunscrevê-lo. Escrevo para descobrir o efeito do filme sobre mim, sobre o cinema. Estou em busca daquela ideia que ele, o filme, faz despertar em mim.

*Entrevista originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 08/06/2020


 


terça-feira, 2 de junho de 2020

After Life


A vida 
como um sopro 


NETFLIX Em tempos de dolorosa reflexão acerca da morte, After Life, série de Ricky Gervais, chega à segunda temporada oferecendo, dentro do humor ácido, 
exata análise do luto e do (in)conformismo 

Por João Paulo Barreto

Lidar com a tristeza do luto é algo que não deve ser prejulgado. Diante da dor da perda, cada pessoa terá um comportamento único. Foi Stephen King que escreveu no seu livro, Saco de Ossos, lançado em 1998, que “o luto é como um convidado bêbado em sua casa. Alguém que sempre volta da porta para lhe dar um último abraço de despedida”. Essa despedida, porém, nunca de fato acontece. Eu acrescentaria que, muitas vezes, tal convidado bêbado acaba sendo a própria pessoa vitima daquele luto. Vitima daquela perda de alguém a quem amou tão intensamente que a dor que toma conta do lugar dentro do peito onde o(a) outro(a) esteve presente se torna a nova e confiável companhia. Torna-se um estado de constante repetição e esforço para prosseguir. E é muito dessa constatação que propõe os doze breves episódios de After Life.

Tal repetição, como bem citado na série ao referenciar o clássico Feitiço no Tempo, é o que define a vida de Tony (Ricky Gervais), jornalista da Gazeta de Tambury, cidade ficcional que recria as comuns aparências de localidades do interior da Inglaterra. Sendo o homem a exata definição de todas as características físicas e psicológicas descritas acima, a pancada em sua existência e origem do seu luto advém da perda de sua esposa, Lisa, que faleceu em decorrência de um câncer de mama. Sua vida pacata, escrevendo desde sempre para um jornal de distribuição gratuita e que cobre apenas trivialidades da pequena cidade, se justificava para além de qualquer inércia que a sua trajetória profissional poderia dar a impressão de possuir. Seu impulso de vida era unicamente dedicado ao seu casamento com Lisa. Sua felicidade dependia de seu convívio com ela, que, além de esposa, era também sua melhor amiga. E o que mais podemos desejar além disso? Alguém que se torne não somente seu parceiro por toda a vida, mas, também, seu cúmplice e melhor amigo(a)? E foi justamente isso que Tony perdeu quando Lisa sucumbiu ao câncer.

Tony (Gervais), seu pai senil e a enfermeira cuidadora

CONFORTÁVEL DOR

Apesar de soar niilista em alguns momentos, mas sempre sagaz em suas observações, seu personagem segue em uma relação de inconformismo diante da perda e de um conformismo perante o luto. Em determinada cena, Tony diz que a dor se torna um conforto. Uma sensação de normalidade. Quando ele se sente minimamente em um estado de suposta alegria momentânea (não confundir com felicidade, friso), ele percebe que aquele não é o seu eu natural. Voltar à dor é necessário para que, contraditoriamente, ele se sinta confortável. E nesta sua rotina de apenas seguir as horas do dia, seu único conforto está na companhia de sua adorável cadela de estimação e nos vídeos que gravou de suas brincadeiras e outros momentos que passou com Lisa. Neste aspecto, é válido observar a maneira orgânica como tais registros servem de flashbacks para o espectador conhecer Tony antes da amargura tomar conta de seu senso de humor e de sua existência. Ao invés de desenhar a narrativa diante do passado como uma quebra da realidade de Tony, Gervais, também roteirista e diretor, nos mantém dentro do mesmo estado temporal de seu protagonista, permitindo experimentar junto com ele aquelas pílulas de felicidade ao voltar ao passado que tanto lhe fez bem e que agora é seu único refúgio.

ANÁLISE DA HUMANIDADE

“Pessoas preferem ser uns merdas famosos do que não serem famosos de modo algum”, profere Tony ao sair de uma entrevista nonsense na qual pais vestem o filho bebê como um mini Hitler apenas para terem um pretexto para sair no jornal local como uma piada. Em uma das cenas que serve como maneira de Gervais explorar sua crítica ácida à sociedade fútil e escrava da necessidade de existir virtualmente, o roteirista aproveita para ilustrar impressões no que tangem a outros vários aspectos que resumem a humanidade no século XXI. Tais momentos de entrevistas, inclusive, servem desde pontos de alívio cômico para Gervais destilar tanto sua veia ácida às diversas situações que se apresentam como exemplos da estupidez humana. Além disso, também funcionam como espaço aos seus ótimos coadjuvantes, dentre eles o pacífico e hilário, Lenny (o comediante Tony Way, o bobo da corte em Game of Thrones), que aguenta as provocações de Tony sem esquentar em momento algum. 

Tony e Lisa (Kerry Godliman): vida antes da tempestade

Suas discussões no ambiente de trabalho, também, são oportunidade para o também diretor e roteirista da série inserir seu ponto de vista relacionado a religiões. Notoriamente ateu, Gervais transforma seu alter ego também em um ateísta, inserindo pontuais e pertinentes análises, por exemplo, sobre a ideia católica de que o deus da bíblia é o único existente, ignorando crenças que outras pessoas possam ter em Rá, Ganesha ou Zeus (“Da mesma forma que você não acredita em outros deuses, eu não acredito no seu”). Ou mesmo quando confrontado sobre a ideia (injustamente definida como niilista) de que sua não crença em reencarnações ou vida após a morte o levaria a tornar a sua própria vida desnecessária e passível de ser encerrada (“Você não interrompe um filme que está gostando apenas pela fato de saber que ele vai acabar. Então, porque eu deveria fazer o mesmo com a minha vida? Ela é preciosa justamente por se a única que eu tenho”). 

Tony e seus colegas de jornal: Sandy (Mandeep Dhillon) e e o hilário Lenny (Tony Way)

Nessas discussões sobre a sua personalidade a viver apenas no mundo material, mas que valoriza aquela única chance de existir, mesmo que brevemente, neste planeta, Tony flerta bastante com a ideia de suicídio, ponto que After Life consegue trabalhar de maneira delicada, sem descambar para um melodrama frágil e, também, sem banalizar tão séria questão. No seu flerte com a cuidadora de seu pai idoso e senil, Tony lhe fala que gosta daquela companhia por representar uma repetição do seu dia a dia, na citada referência a Feitiço do Tempo, clássico com Bill Murray. No seu mundo de eterno luto, ao menos aquela companhia lhe serve de aceno para um futuro diferente e de um possível recomeço. Com um personagem tão pessimista, saímos de After Life contraditoriamente renovados em um otimismo muito bem vindo.


*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde dia 03/06/2020







domingo, 31 de maio de 2020

Let it Be - 50 anos



O Fim do Sonho


Há 50 anos, Let it Be, o último disco lançado pelos Beatles, chegava às lojas e firmava-se 
como o epitáfio preciso de uma banda cuja influência e músicas seriam eternas


Por João Paulo Barreto

Apesar de não ter sido o último álbum efetivamente gravado por John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr (este seria o canto dos cisnes, Abbey Road, gravado e lançado no segundo semestre de 1969, com sua famosa faixa de pedestres na capa), Let it Be, gravado de maneira conturbada no começo daquele mesmo ano, mas lançado somente em maio de 1970, registrou o que quase seria um melancólico final para a maior banda de rock da História.

Concebido como um plano de retorno aos palcos (os Beatles não faziam shows desde 1966), era originalmente chamado de Projeto Get Back, que tinha sua faixa título a simbolizar justamente essa volta às canções cujas apresentações ao vivo seriam foco do álbum. Além do disco, a banda, encabeçada por uma ideia original de Paul, planejou lançar em filme todo o processo de concepção do LP, com as sessões de gravação no frio e pouco acolhedor Estúdio Twickenham sendo registradas por uma equipe de filmagens. A ideia foi colocada em prática, mas o que acabou sendo visto nos arquivos foi o declínio emocional de quatro amigos cujas personalidades se formaram juntas, mas que alcançavam, naquele ponto, um maturidade e vontade de se lançar em diferentes caminhos. Curioso pensar que o mais velho dos quatro, Ringo, tinha apenas 29 anos naquele janeiro de 1969, mês em que o disco foi gravado.

Clima tenso: os rapazes durante as sessões no Estúdio Twickenham

No entanto, o que vemos nas imagens captadas não se tratava apenas de animosidades. Havia ainda sorrisos e a cumplicidade familiar entre aqueles gênios. Para se entender como aquele momento de tensão chegou, uma série de fatores precisa ser colocada à mesa. E, não, não sejamos simplórios e medíocres em culpar apenas Yoko Ono por aquela separação. Para além desse apontar egoísta de dedo, vale lembrar que a morte do empresário Brian Epstein, em 1966, fez com que os quatro milionários garotos precisassem tirar o foco de suas composições para prestar atenção em suas finanças. Ainda assim, mesmo com o peso da perda do homem por trás das cortinas, naquele ano eles iniciaram as gravações de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o que muitos consideram o melhor disco de rock da História.

Porém, os conflitos entre Lennon e Macca acerca de quem deveria assumir a gestão financeira da banda (Paul queria o sogro, Lee Eastman; John queria o empresário dos Stones, o notório pilantra Allen Klein) começaram a corroer a unicidade do grupo a partir de 1967. Somando-se a isso os baques dos, considerados à época, “fracassos” do filme e disco Magical Mystery Tour, e a tumultuada gravação “solo, mas em conjunto” do White Album, é possível se justificar o crescente desânimo dos jovens adultos em permanecerem juntos.

Billy Preston cumprimenta Paul na chegada ao prédio da Apple

NOVO LOCAL

Após perceberem que o Estúdio Twickenham não propiciaria o conforto necessário para as gravações fluírem, a banda deixou o lugar e seguiu para a sede de seu selo, a Apple, na notória Savile Row, Londres, local onde, no dia 30 daquele janeiro de 1969, realizariam no telhado do prédio sua última apresentação ao vivo. A mudança colaborou para um melhor astral, corroborada pela presença do tecladista Billy Preston no estúdio. Lá, as execuções passaram a fluir melhor. Para o guitarrista e membro da Cavern Beatles, exímia banda baiana cover dos rapazes de Liverpool, Eric Assmar, o pulso de Paul McCartney foi primordial para a criação do disco. “Percebo nesse trabalho uma presença criativa mais consistente por parte de Paul, em relação a John, o que pode ser explicado em parte por conta de McCartney ter tomado mais a frente da condução do trabalho e dos arranjos, enquanto Lennon ainda lidava com o vício da heroína, fora os problemas internos da banda, o que na prática acabou limitando sua participação no álbum”, pontua o músico.

Seu colega de banda na Cavern, o guitarrista Ted Simões, salienta, ainda, a ideia do disco se diferenciar de projetos como Revolver e Sgt. Peppers por conta de seu planejamento para uma possível volta da banda aos palcos. “Depois de passar um período apenas lançando músicas e discos sem se preocupar em tocá-las para um público, em Let it Be eles se preocuparam em criar canções para que pudessem ser executadas ao vivo. Isso é muito difícil. É bem complicado você compor um disco pensando em uma coisa e, depois, compor pensando em outra. É bem desafiador. E eu acho que todas as canções ali são belíssimas para se tocar ao vivo”, opina o músico.

A Cavern Beatles em sua fase Sgt.Peppers: Ted e Eric ao centro

LET IT BE... NAKED

Mesmo com todas as tentativas de levar o disco à frente, seu lançamento acabou por ser adiado. As masters, então, ficaram paradas na Apple durante os meses seguintes de 1969. Foi quando, a convite de George Harrison e John Lennon, Phil Spector embarcou na ideia de moldar as novas canções para o lançamento que não mais se chamaria Get Back, mas, sim, Let it Be. Experiente produtor, Spector trazia na bagagem trabalhos como Be My Baby, das Ronettes, e Unchained Melody, dos Righteous Brothers. Para o álbum dos Beatles, trouxe experimentações orquestrais em canções como The Long and Winding Road e colocou em prática o seu notório processo de produção chamado Wall of Sound, que consistia em um explorar mais denso das capacidades musicais em estúdio , com reverberações, ecos e camadas sonoras.


Marcelo Costa e seus três momentos Let it Be
Foto: Lilliane Callegari 
Tudo isso, após lançado em 1970, não agradou Paul McCartney, que só escutaria o álbum da forma como queria em 2003, com o lançamento de Let it Be... Naked, versão, como o próprio nome entrega, “nua”, do que seria o disco dos Beatles. Para o crítico musical e editor do site Scream&Yell, Marcelo Costa, há algo além de uma simples preferência em saber qual das duas versões é “a melhor”. “Aprendemos a amar o Let it Be do jeito que ele é, porque passamos a vida ouvindo-o dessa maneira. Não somos o Paul, ou seja, não temos uma ligação pessoal de artista e obra que possa comprometer esse amor. Dito isto, Let it Be... Naked é maravilhoso por nos permitir ouvir o mesmo álbum de duas maneiras diferentes. É fato que toda a orquestração deixou tudo meio exagerado, e a versão “Naked” carrega uma beleza delicada perto do arranjo de Phil Spector, mas não é caso de escolher essa ou aquela, e, sim, de se apaixonar pelas duas”, explica o jornalista.

Anda em sua análise acerca do que representa o legado do disco, Marcelo Costa emociona com sua definição. “Let it Be simboliza o atestado de que tudo na vida pode acabar, que podemos nos reconstruir e seguir em frente. Esses quatro rapazes mudaram a cultura mundial em diversos âmbitos extrapolando a música. E seguiram em frente. É uma despedida triste, carregada de dor, frieza e distanciamento, e que marca muito exatamente porque estamos falando de pessoas que se amavam e que eram grandes amigos um do outro, mas que, no fim, foram engolidos por algo que era maior do que eles e maior do que a banda: a própria História. Eles deixaram para a História lições de vida importantes e grandes canções. Pode se esperar mais da vida?” 

Speaking words of wisdom...

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 01/06/2020




quinta-feira, 28 de maio de 2020

O Adeus a Conceição Senna

A diretora, atirz e escritora, Conceição Senna, que partiu dia 27, aos 83 anos


LUTO Na partida da atriz, escritora e cineasta baiana, Conceição Senna, o cinema brasileiro perde o pioneirismo de uma das lutadoras pela afirmação da mulher nordestina no audiovisual 


Por João Paulo Barreto e Rafael Carvalho

Faleceu na quarta-feira, aos 83 anos, no Rio de Janeiro, a diretora, escritora e atriz baiana, Conceição Senna. Natural de Valente, Conceição teve papel importante na filmografia baiana, atuando em obras pilares como o censurado à época Caveira My Friend, de Álvaro Guimarães; O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha; o marco da ficção cientifica do baiana, Abrigo Nuclear, filme de Roberto Pires; Coronel Delmiro Gouveia, filme de Geraldo Sarno;  A Coleção Invisível, de Bernard Attal, além de Iracema – Uma Transa Amazônica, na qual atuou sob a batuta do companheiro de longa data, seu esposo, o também baiano Orlando Senna, que co-dirigiu o filme ao lado de Jorge Bodanzky.  

Como diretora, Conceição teve seu foco em documentários, tendo filmado três deles: Memórias de Sangue, de 1987, filme sobre a cidade de Canudos, local onde passou sua infância; Brilhante, documentário de 2006 sobre um revisitar ao município de Lençóis, local onde o diretor Orlando Senna filmou, em 1977, Diamante Bruto, longa que tinha José Wilker como protagonista. Em 2018, Conceição lançou o terceiro e último filme, Anjos de Ipanema,documentário sobre o movimento cultural em torno do píer de Ipanema, local de confluência de diversas personalidades da música, cinema teatro e literatura no Rio de Janeiro dos anos 1970.

Orlando e Conceição Senna em foto dos anos 1970

DOCUMENTÁRIO BIOGRÁFICO   

Lara Belov, que co-dirigiu ao lado de Jamile Fortunato o documentário O Amor Dentro da Câmera, fala sobre a perda de Conceição, cuja história e parceria ao lado de Orlando Senna se tornaram tema do longa ainda a ser lançado. “Já estamos na fase de finalização do filme, colocando os créditos. Eu conheci Conceição ainda na minha adolescência, quando fiz uma oficina de roteiro em Lençóis. Jamile fez uma oficina com Orlando. Começamos uma amizade que nos ligou muito. Fui estudar em Cuba, onde ela e Orlando viveram anos antes. Ela era apresentadora de um programa na TV cubana chamado Ventanas al Sul, que teve a maior audiência em Cuba nos anos 1980 e 1990”, pontua Lara.

A importância de Conceição Senna na valorização das mulheres dentro do audiovisual também é salientada por Lara. “Num momento em que era ainda mais difícil para as mulheres fazer a sua arte, seu trabalho, ela sempre lutou por fazer isso. Uma pessoa emotiva, que falava o que queria, que expressava seus sentimentos. Ela tinha uma sinceridade enorme. Conceição não teve filhos biológicos, mas teve muitos ‘filhos’ e ‘filhas’ por onde ela passou”, declara Lara Belov.

Conceição e a diretora Lara Belov durante gravações Foto: Jamile Fortunato

A produtora baiana, Solange Souza, da Araça Filmes, que produziu o documentário Brilhante, 
também destaca a importância de Conceição, sua presença no audiovisual brasileiro e luta contra o preconceito a nordestinos e mulheres. “Para mim, ela foi mais que uma amiga. Foi uma irmã, uma mãe. Sempre dizia para gente que tínhamos que enfrentar esse preconceito isso com a cara e a coragem. Principalmente as mulheres. Sempre estava presente em negociações do audiovisual brasileiro. Como atriz, escritora, diretora e roteirista. No período em que Orlando foi secretário de Cultura, as reuniões sempre aconteciam em sua casa. Ela e Orlando foram importantes articuladores na Cultura do audiovisual”, afirma Solange.

Foto do acervo pessoal da produtora Solange Souza com Conceição 

Em 2018, por ocasião do Cine Ceará, A TARDE conversou com Conceição por telefone acerca de sua trajetória e sobre filme, Anjos de Ipanema, que seria exibido no festival. Sobre seus dois filmes anteriores, Conceição trouxe lembranças preciosas. “Quando Orlando esteve lá em Lençóis para filmar Diamante Bruto, a cidade estava desmoronando. Ele captou muito da beleza do lugar. O filme deu muita visibilidade a Lençóis. Tanto que, hoje, trata-se de um dos pólos turísticos principais do Brasil. Quando voltei lá para filmar Brilhante, eu quis abordar o mote do ‘pode um filme transformar uma cidade?’, uma vez que foi justamente isso que o trabalho de Orlando fez”, declarou a cineasta à época.

Com o último filme, Anjos de Ipanema, Conceição revisitou memórias afetivas de uma época intensa, quando viveu o movimento cultural e hippie na capital fluminense dos anos 1970, lugar onde viveu até os últimos dias. Na mesma conversa, ela me falou que havia encerrado sua contribuição cinematográfica com Anjos.  “Esse é o meu terceiro e último filme. Nos três, eu busquei de alguma forma abordar as transformações que passavam as cidades onde vivi, Canudos, Lençóis e Rio. Mas, sendo baiana, quis homenagear a Bahia presente no Rio, cidade que escolhi passar meus dias. Aqui tem o chamado ‘Quadrilátero Baiano de Ipanema’, quarteirão formado por ruas cujos nomes levam homenagens a heróis da História da Bahia e após homenagear Canudos e Lençóis nos meus dois primeiros filmes, foquei no Rio”, disse-me Conceição com empolgação naquele dia.

Honra de ter entrevistado Conceição durante Cine Ceará em 2018 Foto: Luiz Zanin

Tendo vivido os anos 1970 na capital fluminense em toda uma efervescência cultural que escapava do cabresto dos anos de chumbo, Conceição se recorda de uma resistência dentro da arte. “Foi uma época marcante culturalmente, onde as pessoas falavam muito de amor, paz, solidariedade, coisas em falta nos dias de hoje”, disse-me com certo pesar na voz, mas que não deixava seu sorriso fugir por inteiro.

Autora do romance autobiográfico A Menina, a guerra e as almas (que deve se tornar filme pelas mãos da diretora Manuela Dias), na mesma conversa, Conceição disse que planejava encerrar sua carreira como diretora para focar na literatura.

É dessa serenidade que vou me lembrar. 

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 29/05/2020


domingo, 24 de maio de 2020

Série Baiana Pequeno Gigante | Papo com equipe


Choque Político Baiano 


13 EPISÓDIOS Série baiana Pequeno Gigante, exibida na TVE às quintas-feiras,
traz nas relações políticas de Salvador reflexão acerca do jogo mesquinho
de interesses que tem na base popular suas vitimas imediatas 

Por João Paulo Barreto

Dentro de um choque entre raízes afetivas e culturais, ambições, escrúpulos e caráter, a construção do protagonista de Pequeno Gigante, série baiana que chega ao seu terceiro episódio semanal (de um total de 13) na próxima quinta, na TVE Bahia, se dá entre os diversos conflitos que o personagem do parlamentar Davi Passos (vivido por Guilherme Silva, de Café com Canela) tem no seu constante nado com tubarões dentro da política soteropolitana.

Vereador de origem pobre, defensor da comunidade onde cresceu, a Nova Nigéria, e em luta contra a especulação imobiliária que ameaça a existência do lar onde vive até hoje, Davi é um símbolo de contraste da política a qual estamos acostumados a ver. Homem negro, sobrevivente desde criança, quando ainda vivia em (e foi expulso de) Itaparica, das injúrias e tentativas de apagamento que as classes privilegiadas e predatórias infligiam em sua existência, a figura de Davi como um político de ideais firmes, mas distantes da ingenuidade, dá a Pequeno Gigante, desde seu episódio inicial, uma pertinente discussão acerca do que significa fazer política social.

Guilherme Silva, no papel do vereador Davi Passos: dilemas e conflitos (FOTO: CAIO LÍRIO)

Desde a sua abertura, com a fogueira do progresso a destruir seu lar na ilha, até as mesmas chamas criminosas voltarem a destruir sonhos na sua fase adulta, em Nova Nigéria, a figura de Davi é trazida como a de um sobrevivente. Nesse ínterim, o conhecemos como um articulador, alguém que dominou a citada arte de nadar com predadores da política. E de saber, também, lidar com os dois lados daqueles interesses. Na festa onde o seu padrinho político, o cacique político, senador Saul Dias Mendonça (um dos mestres do teatro baiano, Harildo Déda, que traz a Saul a leitura de Maquiavel em uma direta referência a outro já finado cacique), decidirá quem será o seu candidato a prefeitura de Salvador, uma série de nuances e olhares que desenham como funciona a promiscuidade de interesses naquele jogo. 

Em uma rima contrastante, a rival política de Davi, a vereadora Amanda (Ana Tereza Mendes), é questionada acerca de seus interesses naquele confronto com o colega. A pergunta direta e repetida acerca do que ela quer exatamente delineia para a audiência interpretações variadas, e vai encontrar um paralelo direto na cena seguinte, quando um favor sexual é recompensado com cocaína em uma boca do tráfico dentro da Nova Nigéria. O jogo de interesses políticos e de dominação é o mesmo, mudando apenas os riscos imediatos e a submissão violenta. 

Comunidade da Nova Nigéria luta contra o monstro da especulação imobiliária (FOTO: CAIO LÍRIO)


DICOTOMIA SOCIAL

Pequeno Gigante tem seu time de roteiristas formado por Anderson Soares Caldas (que também dirige a série), Gustavo Erick, Jarbas Éssi, Sylvio Gonlçalves Vitor Sousa e Lia Vasconcelos. Aqui, Lia explica que o planejamento do roteiro e da montagem para a cena da festa funcionou de modo a salientar uma dicotomia social, uma vez que a reunião de luxo que a festa onde o grupo de políticos se encontra é entrecortada por uma festa que acontece em paralelo na Nova Nigéria, local onde a base eleitoral de Davi reside. “Queríamos apresentar as contradições sociais através da comparação, por isso utilizamos o recurso da montagem paralela. As duas sequências foram bem trabalhadas para que pudéssemos enfatizar a dicotomia social, as distinções de classe, e, ao mesmo tempo, o gosto pelo poder, as alianças e jogos de interesse, que não dependem de categoria social, como fica evidente na cena”, explica Lia.

Na citada rivalidade entre o idealismo atento e nada ingênuo de Davi, a ambição bem como o instinto de afirmação e sobrevivência de Amanda, se dá um embate que leva o espectador a refletir sobe como aquelas alianças e competições se refletem em uma realidade dentro da política local de Salvador. A cidade, que passou nos últimos 12 anos por uma mudança trágica em seu gabarito arquitetônico, com as mudanças no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), que permitiram alterações predatórias em locais como a orla e Paralela, tem tais temas tratados com sagacidade pelas mãos e mentes por trás da escrita dos 13 episódios. 

Oriundo da comunidade, Davi luta na política baiana contra a despropriação (FOTO: CAIO LÍRIO)

Co-roteirista, Vitor Sousa pontua, ainda, que o argumento original da série foi escrito justamente em 2010, “período em que o mercado imobiliário efervescia e os debates e conchavos políticos sobre o PDDU se alinhavavam. O curioso é que, mesmo 10 anos depois, esses temas ainda estão muito em evidência hoje”, salienta Vitor. Sobre a situação da Salvador de 2020 ainda a se refletir na série, o co-autor destaca justamente tais reflexos. ”Penso que a arte tem mesmo essa missão de levantar um espelho para a sociedade e, nesse sentido, Pequeno Gigante é um espelho que cabe exatamente no cenário que vivemos atualmente”, finaliza

ETNIA E GÊNERO

Para o diretor da série, Anderson Soares Caldas, as personagens femininas da série constroem com firmeza essas relações de poder. “Tais relações quase sempre estão nas mãos dos homens. E no geral são homens heterossexuais, brancos, que estão nas posições de poder. Com as personagens femininas, queremos trazer essa reflexão. São mulheres fortes e que conseguem construir os espaços delas. Não é aquela história machista da mulher que está por trás do grande homem, mas aquela que o faz junto ao homem. E que constrói o que ela está querendo construir”, esclarece o diretor.

No papel do vereador Davi Passos, Guilherme Silva traz uma presença em cena que coloca seu personagem como alguém que sabe onde pisa, manejando com sagacidade estratégica aquelas cordas. Diante dos conflitos externos daqueles conchavos políticos, com esquivas e ataques planejados, cercado de falsas gentilezas e sorrisos milimetricamente medidos dentro daquele mundo hipócrita de interesses, Davi segue construindo sua carreira buscando manter-se fiel ao que acredita dentro de sua criação e origem. Assim, é instigante pensar em como tais conflitos se tornarão internos na consciência de Davi. 

Milena Passos (Evana Jeyssan): presença feminina e firme na série (FOTO: CAIO LIRIO) 

Experiente ator nos palcos baianos e do sudeste, Guilherme classifica a sua experiência no papel de Davi como uma vitória. “Eu, como uma pessoa preta, um homem negro, ver essa representação dentro de um roteiro escrito para uma série de televisão, isso é muito bom. Batemos de frente com isso a todo tempo. E é um processo muito mais de sobrevivência do que vivência. De como nós, negros, enfrentamos na sociedade a própria questão do racismo sistemático. Isso é exaustivo, mas a gente continua perfurando esses bloqueios para chegar onde precisamos,” salienta Guilherme. Sobre a construção do seu personagem e seus choques políticos, o ator explica o recrutamento de Davi desde a infância para aquele mundo: “Ele tem esse acompanhamento da sagacidade para as questões políticas desde cedo. Isso vem de uma manutenção dessa honra, a qual Negro Mármore, seu mestre de capoeira, passou para ele. A valorização da sua cultura. Dele como um indivíduo pertencente”, finaliza o ator.

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 25/05/2020