Bibliotecas humanas
Com Seculares, série em
atual produção, cineasta Henrique Dantas aborda
a oralidade de pessoas com mais
de 100 anos
Por João Paulo Barreto
Em um país cuja memória se esvai de modo proposital e a tentativa
de manipulação visando o esquecimento seletivo de fatos tornou-se uma
estratégia explicita para aqueles que dominam o poder de maneira cínica e
vergonhosa, colocar em foco a oralidade dos idosos que realmente estiveram
presentes na construção da História do Brasil nos últimos cem anos se torna uma
maneira de compartilhamento da verdade.
Com a série documental Seculares – O mundo a mais de cem, contemplada
no edital de 2017 do IRDEB, Bahia na Tela, e atualmente em fase de produção e
filmagem, o cineasta Henrique Dantas traz entrevistas com pessoas que
alcançaram a expressiva marca dos cem anos de vida. Trata-se de um trabalho que
encontra relação com uma função importante desse tipo de cinema que é o resgate
de memórias, além de uma necessária valorização e respeito pela terceira idade.
Henrique Dantas, responsável por trabalhos como Filhos de João – Admirável Mundo Novo
Baiano, documentário sobre os Novos Baianos; Sinais de Cinza, que abordou a história do cineasta Olney São
Paulo, vitima das torturas da ditadura militar, e o recente A Noite Escura da Alma, que lançou foco
no período ditatorial em solo baiano, dessa vez leva sua lente para uma
abordagem intimista da vida de diversos personagens desconhecidos, mas com
marcantes histórias de vida e uma oralidade singular no contar dessas
trajetórias.
“Trata-se de um mistério esse negócio da memória. Por mais que a
gente fale dela, não sabemos como ela se processa. Eu lembro de Luis Buñuel, no
seu livro Meu Último Suspiro, que afirmou que você lembra apenas o que
quer, tanto as memórias boas quanto as ruins”, explica Henrique ao falar do
conceito da série.” A fronteira entre a memória e o esquecimento é um
mistério”, complementa. Na criação dessa
proposta original de pesquisa, o diretor salienta a dificuldade de ter acesso à
leitura especializada no assunto. “Conversei com um geriatra e uma pesquisadora
da UFBA, e ambos trouxeram esse detalhe que não há muitos estudos voltados para
pessoas com mais de 80 anos de idade. É como se buscassem apagar da humanidade
a velhice”, afirma.
Essa ausência de estudos acabou levando o modo de criação da série
Seculares para um caminho de
desenvolvimento diferente. Henrique explica: “É o primeiro trabalho que eu faço onde eu não tive leitura uma leitura preparatória. O processo tem sido muito de ‘feeling’, de sentir nas entrevistas qual abordagem deverei seguir com cada pessoa”. Acaba que a percepção do diretor segue um norte no qual cada tema é descoberto no momento em que as conversas são iniciadas. “Já entrevistamos quatorze seculares. Depois do encontro, você tem certeza que encontrou algo muito valioso, um irôko (orixá que representa o tempo na forma de uma árvore), uma árvore do tempo. Essas pessoas são o próprio tempo”, pontua Henrique.
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Henrique Dantas: busca por registros centenários de vida FOTO: Fabricio Ramos |
A série contará com 13 episódios de 26 minutos cada. O planejamento de Henrique Dantas é criar uma rima temática nas entrevistas que vão compor cada episódio. “Há vários temas que insiro nas conversas. Varias personagens são pessoas do interior. Os temas nessas abordagens variam muito. Folclores, como encontros com lobisomens; primeiros contatos com a televisão, com a eletricidade”, explica Dantas. O realizador salienta que muitas entrevistas tiveram esse desenvolvimento acerca do contato com invenções do ser humano. “Com algumas delas, eu perguntei sobre a primeira vez que viram uma aeronave. Eu achava que seria um avião, mas muitas lembraram de quando viram não um avião, mas, sim, um zepelim. E disseram que, à época, as pessoas saíam correndo por achar que era algo alienígena”, afirma entre sorrisos.
Outro detalhe importante está no aspecto da solidão dos idosos. “Uma coisa curiosa nas entrevistas que já fiz foi perceber que, quanto mais humilde é a família da pessoa centenária, maior é o acolhimento dela. Quanto mais rica, de classe média alta, maior é a queixa de solidão na qual é deixado o idoso,” explica Henrique.
BUSCA POR CENTENÁRIOS
Nessa construção, a voz principal que Henrique buscou trazer à tona são as de memórias que foram silenciadas. “Além da memória dos idosos, ainda tem a questão social. Ou seja, a História é sempre contada do ponto de vista de quem ganha. E nessa guerra que a gente viveu, foram os homens brancos europeus saíram vencedores. Chegaram aqui em minoria e conseguiram destruir os índios, destruir os negros, que já trouxeram como escravos e com suas dignidades aniquiladas. Buscaremos usar as memórias dos pretos, dos índios , das mulheres, dos ciganos. As memórias silenciadas. A intenção é que 80% dos entrevistados sejam de pessoas nessas condições,” salienta Henrique Dantas.
O diretor pontua que o projeto ainda está em busca de novas fontes para participar. “Quem conhecer pessoas com mais de 99 anos e dispostas a dar entrevistas, pode entrar em contato pelo número 071 98697 2715. Trata-se de um projeto muito importante nesse resgate. Quando morre um centenário, morre com ele uma biblioteca viva”, finaliza.
*Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, dia 11/08/2019
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