(Intouchables, FRA, 2012) Direção: Olivier Nakache e Eric Toledano. Com François Cluzet, Omar Sy, Anne Le Ny, Audrey Fleurot, Clotilde Mollet.
Por João Paulo Barreto
Intocáveis é uma versão mais leve de Mar Adentro. O filme dirigido pela dupla de cineastas Olivier
Nakache e Eric Toledano (a partir de um roteiro escrito por eles mesmos e baseado
em fatos reais), apesar de não possuir a carga de tristeza e discussão ética do
filme de Javier Bardem, emociona e faz rir a partir da mesma premissa: a de que
as coisas poderiam estar bem piores, então vamos rir para não deixá-las
chegaram ao ponto de nos fazer chorar.
Vítima de um acidente de
parapente (espécie de paraquedas planador), o milionário Philippe (Cluzet,
sósia de Dustin Hoffman em certas cenas) é um tetraplégico que passa os dias em
sua mansão sob os cuidados de uma equipe de criados especializada em mantê-lo
confortável com sua deficiência. De massagens destinadas a manter a circulação sanguínea
à alimentação ministrada como que a um bebê, o homem de meia idade passa os
dias em um mundo culturalmente rico, mas onde se considera condenado a viver.
Com os cuidados recebidos, ele afirma que poderá viver com essas limitações até
a faixa dos 70 anos. Cansado da comiseração dos enfermeiros destinados a cuidar
dele, Philippe resolve contratar Driss (Omar Sy), jovem de origem africana,
ex-detento, que não demonstra nenhuma compaixão pelo estado dele e que só está
na entrevista de trabalho para conseguir a assinatura que o permitirá renovar o
seu seguro desemprego.
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Driss traz para a vida de Philippe mais do que comiseração |
Contando com uma química perfeita
entre os protagonistas, Intocáveis acerta
ao evitar trazer o foco da relação entre os dois para a melancolia sofrida por
Philippe. Se seguisse por esse caminho, o filme fatalmente cairia em uma
armadilha piegas que prejudicaria um roteiro que sabe oscilar de forma ideal
entre o drama e a comédia. Essa comédia, alias, se deve justamente à já citada
relação entre Driss e Philippe. Com destaque para as tiradas hilárias do primeiro
em relação ao rebuscamento cultural do segundo, o filme tem nas coversas dos dois
seus melhores momentos. Como quando Driss assiste a uma ópera em alemão e não
consegue controlar seu riso ou quando, no aniversário de Philippe, é
apresentado às diversas composições clássicas e diz conhecer Vivaldi por causa
dos jingles telefônicos tocados nas chamadas de espera da Secretaria do Trabalho
Francês.
Em outro ponto de acerto, a trama
evita classificar Driss como alguém castigado pela vida. Claro, o homem é uma
pessoa com antecedentes criminais, imigrante africano em solo francês; alguém
cuja família composta por vários irmãos pequenos se acumulam em um apartamento minúsculo
(a rima visual envolvendo a banheira da casa da família de Driss com a do seu
cômodo privado na casa de Philippe é bem eficiente) e que a ausência constante
para com a mãe adotiva a faz agir com abdicação à qualquer tipo de ajuda que
ele queira oferecer agora. Porém, esses dramas pessoais são apenas apresentados
pelo filme, sem a necessidade de um destaque maior. A verdadeira história do longa
é a interação entre os dois protagonistas e a forma como um acaba influenciando
de forma positiva a vida do outro.
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Dependência mútua: a dupla acaba por criar uma amizade além do profissional |
Clichês estão presentes,
obviamente, mas o modo como são inseridos acabam por não criar um resultado
negativo. Como no momento em que Driss afirma que não há forma de o convencerem
a cumprir uma das funções exigidas nos cuidados para com Philippe. Na cena
seguinte, lá está ele cumprindo a tal renegada função. Ou na relação entre
Driss e os outros empregados da mansão de Philippe, algo que começa conturbada,
mas que logo se torna amigável pela simpatia cativante do rapaz.
Quando os créditos finais sobem,
a sensação de bem estar trazida por esse leve drama francês se perdura por um
longo período. Talvez se deva ao fato da falta de pretensão desse longa. O peso
da tragédia na vida do verdadeiro Philippe, que conhecemos no final do filme,
se dissipa a partir da amizade entre esses dois homens. O peso da tragédia se
perde como no momento em que Philippe volta a voar e convence Driss a fazer o
mesmo. Ou quando ambos riem da forma que Philippe conseguiu de conseguir prazer
sexual. A vida é uma só. Chega uma hora em que não é mais conveniente se
lamentar. Trecho de livro de autoajuda, ok, mas ainda eficiente ao se observar a
sensibilidade de uma obra como Intocáveis.
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