Comédia romântica traz reflexão sobre valorizar
relacionamentos
Com Mateus Solano, Talvez
uma História de Amor derrapa em alguns momentos, mas acerta ao ilustrar a
perda em uma relação amorosa
João Paulo Barreto
Baseado no livro homônimo do francês Martin Page, Talvez uma História de Amor é tão
simpático quanto seu próprio título já entrega. Daqueles tipos de trabalho que
podem até não despertar sua atenção por conta de um já esperado final romântico
e meloso, mas que, ao menos, podem garantir sua curiosidade devido a incomum e
nonsense trama. Nela, Virgílio (Mateus Solano), é um publicitário boa praça que
joga baralho com a vizinha idosa, cumprimenta a todos com gentileza, mas que
foge de relacionamentos amorosos. A surpresa aqui é que ele vive em um, mas não
sabia. Ou melhor, não se lembrava. E ainda mais surpreendente: só percebe sua amnésia
após ouvir um fora da namorada deixado em uma mensagem na secretária
eletrônica. Quando entende que nem se quer se lembra quem é a dona daquela voz,
resta pouco ao metódico homem a não ser procurar sua psiquiatra, fazer uma
tomografia e esperar pelo pior (cena que inclui uma participação hilária de
Gero Camilo).
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Metódico, Virgílio vive seu pesadelo pessoal de esquecimento |
O filme é a estreia em longas metragens de Rodrigo Bernardo,
cineasta por trás de diversos curtas e da série (Des)Encontros, onde já abordava
temas ligados a relacionamentos românticos. Com Talvez uma História de Amor, é perceptível uma maturidade do
diretor e segurança em sua câmera através da ilustração visual do TOC e da
personalidade de hábitos rotineiros e metódicos de seu protagonista. Ao
apresentar a figura de Virgilio ao espectador, Bernardo consegue utilizar bem posicionamentos
estáticos em quadros amplos nos quais nota-se a presença solitária do homem junto
a itens milimetricamente posicionados, desde os quadros nas paredes, móveis e
utensílios domésticos de sua casa, até as peças que compõem sua mesa de
escritório, como posts it, papéis e canetas em perfeita justaposição (sendo
este, claro, um artifício pra lá de batido). Mas, mesmo em certos aspectos
previsíveis, é pertinente observar que os elementos aparentemente estáticos
ilustrados pelo filme e que compõem seu dia-a-dia vão se alterando e
tornando-se caóticos à medida que sua confusão mental se agrava.
ANÁLISE DE RELACIONAMENTOS
Gradativamente, quando a busca por Clara, a namorada
esquecida, se torna infrutífera e a ordem planejada na vida do publicitário
começa a desmoronar em uma série de acontecimentos descabidos (a suspensão do
fornecimento de energia elétrica e água de sua casa ou a ordem de empacotar
seus objetos oriunda do dono do apartamento, por exemplo), é curioso notar como
visualmente isso é ilustrado pelo diretor, que transforma o lugar uma vez
irretocável em uma bagunça, repleta de caixas e sem luz. Neste ponto,
inclusive, o roteiro acerta em demonstrar visualmente a busca do protagonista
pela resolução do mistério e pelas suas lembranças através de um capacete com
lanterna, item comum em escavações. A rima visual contida no ato de Virgilio “enxergar
no escuro” de sua casa as lembranças de sua vida a dois com a ajuda de um
instrumento comumente utilizado em escavações denota bem a ideia de perda de
uma relação cujo valor não dado por uma das partes a faz cair em um abismo de
esquecimento. E esse é um dos pontos de profundidade que se escondem atrás de
uma história aparentemente simples, mas que carrega uma mensagem bastante
pertinente acerca do equilíbrio necessário em relacionamentos.
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Sozinho na multidão: Virgílio tenta desvendar o mistério |
Envolto em uma áurea de comédia romântica, com direito a
cenas em Nova York, algo que remete aos filmes de Norah Ephron (que é até
homenageada no filme) e, claro, por conta de um encontro no topo de um prédio,
nos faz lembrar de Segredos do Coração, com
Warren Beatty e Annette Bening, Talvez
uma História de Amor pode ter seus momentos em que o roteiro demonstra-se
repetitivo, como as sequências de encontros seguidos de Virgilio com as várias
amigas que podem levá-lo à Clara, ou a absurdamente irreal utilização dos
telões em Times Square para enviar um recado (tudo engendrado simplesmente em
questão de minutos e após um telefonema), mas, como disse lá no começo, acaba
sendo um filme cuja simpatia de sua premissa e reflexão trazida acerca do risco
oriundo de um desgaste em relacionamentos cujo um único lado apenas é
priorizado, acaba por ganhar o espectador. Ele nos faz pensar, inclusive, no
clássico Brilho Eterno de uma Mente sem
Lembranças, o que não é pouco. E
sair do cinema refletindo sobre isso é algo por demais recompensador quando nos
propomos a simplesmente assistir a uma comédia romântica.
*Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde de 17/06/2018
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