quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Aleluia - O Canto Infinito do Tincoã


Espírito e Arte Livres



Com exibição especial amanhã no Glauber, Aleluia – O Canto Infinito do Tincoã, doc de Tenille Bezerra sobre Mateus Aleluia, define a maestria e grandeza de um artista único

Por João Paulo Barreto

Em suas imagens iniciais das águas calmas do rio Paraguaçu, navegado em uma paz bucólica, os sons de povos nativos a compor o quadro são interrompidos pela violência dos tiros que anunciam os sequestros provocados pela escravidão humana. Do extirpar doloroso oriundo da retirada de homens, mulheres e crianças do solo a que pertencem para seguir como aqueles que fizeram a roda da brutalidade capitalista girar em outro continente, ao banzo sentido como uma pungente lembrança do lugar de onde vieram, um caminho de resistência física, cultural e religiosa se faz presente.

Aleluia – O Canto Infinito do Tincoã, documentário dirigido por Tenille Bezerra acerca do músico baiano Mateus Aleluia, fala de um artista que cantou essas dores durante toda a sua vida. Mas que cantou não somente tais dores da tristeza, como, também, a alegria do pertencimento. Da felicidade de poder ser parte de algo maior. De algo eterno. Esse algo reside no orgulho de compor uma resistência que ultrapassa o conceito de apenas uma religião.

“O Candomblé tinha vindo para o Brasil com os africanos, na época do tráfico de escravos. E tudo o que veio com o tráfico de escravos ficou relegado à segunda categoria. Ficou como subcultura. O Candomblé era subreligião. Era preciso quebrar esse paradigma. O Candomblé era uma religião como outra qualquer. Mostrar que a música cantada nos rituais era uma música que tinha todo um trabalho como uma música bachiana e outras coisas mais”, afirma Mateus durante o filme. A afirmação age como definição para uma trajetória de vida fiel à suas raízes como ser humano e como artista.


Mateus Aleluia em seu terra natal, Cachoeira, às margens do rio Paraguaçu

PONTE BAHIA - ANGOLA

Membro, junto com Dadinho e Heraldo, do grupo musical Os Tincoãs, que ficou em atividade nessa formação de 1963 até 2000, Mateus Aleluia traz nessa citada trajetória uma afirmação que se destaca pela valorização de uma identidade imprescindível. Aquela que segue de mãos dadas entre as raízes da sua cultura, arte e da sua religiosidade. Como pilares, estes são os três suportes que tornam imortais o trabalho musical criado tanto com seus dois parceiros quanto em sua carreira solo.


O artista em sua labuta: serenidade de uma vida plena 
No filme de Tenille Bezerra, é palpável uma sensação de liberdade na vida de Mateus, um artista cujo pensamento preciso transparece muito do que é vital para uma reflexão acerca do mundo atual. Acerca da importância de uma identidade. Acerca da valorização dessa identidade como algo crucial. A cineasta destaca essa noção de vida que a trajetória de Mateus Aleluia traz para sua arte e salienta a cumplicidade e amizade surgida nos sete anos que durou a produção.


“Da idéia inicial até hoje se passaram sete anos. Quando Seo Mateus aceitou o meu convite para fazer o filme, eu ainda não tinha um projeto estruturado. A idéia inicial era um documentário musical sobre os Tincoãs, que na época não eram conhecidos como são hoje. Comecei a filmar mesmo sem ter financiamento (o filme foi feito graças ao Fundo de Cultura da Bahia e ao FSA, através da ANCINE). Passei a acompanhá-lo nas viagens, nos shows e no cotidiano em casa. Dessa convivência surgiu uma forte relação de amizade que hoje se reflete em diversos projetos que desenvolvemos em parceria”, explica Tenille.

Aleluia – O Canto Infinito do Tincoã é um filme que cria essa ponte entre Luanda e Cachoeira. Que cria uma ponte, também, entre o quase garoto Mateus de um tempo passado com a presença austera, tenra e afetuosa desse senhor com cabelos brancos e expressão compenetrada. “Nada foi, tudo está aqui. Eu estou falando de 1963 como se fosse hoje”, diz Mateus entre sorrisos. E conclui: “A gente fica assim, mas é só fechar os olhos por alguns segundos e estamos vivendo aquilo.” A frase é dita sem preciosismo, sem qualquer sensação de ficar preso ao passado, mas, sim, com uma compreensão de uma vida plena. “É tudo tão efêmero. Quem captou, captou. É como um acorde perfeito. Ele é perfeito naquele momento. Dentro de segundos à frente, talvez, ele já não seja nem tão perfeito. Já não carrega aquela emoção que carregou há pouquíssimo tempo antes“, define Mateus com exatidão.


LIBERDADE E PERTENCIMENTO

Tenille Bezerra fala sobre o estreitar de uma amizade entre ela e Mateus Aleluia como uma das forças para a criação da identidade do filme. “A relação de amizade e confiança me permitiu conhecer em profundidade Seo Mateus e aos poucos fui entendendo como sua experiência, em constante deslocamento, marcou seu pensamento e a relação que ele tem com a arte,” explica.  

Esse entendimento traz para o filme uma estrutura que passeia pelas fases da vida de Mateus Aleluia, os locais onde ele viveu, Cachoeira, Luanda, nos quais o espectador é convidado a adentrar e a conhecer. Isso sem didatismo. O filme deixa de lado a opção de destrinchar a trajetória de Mateus, dando à audiência a oportunidade de conhecê-lo a partir de seus deslocamentos. “É a partir dessa liberdade que Seo Mateus emana que o filme foi se tecendo, tendo o deslocamento como signo mais forte. Deslocamento temporal (uso de materiais de arquivo com imagens de hoje), deslocamento geográfico (passamos de Cachoeira a Luanda), deslocamento existencial “, explica a diretora. Pedagogo de formação, inquieto por natureza, Seo Mateus é um dos raros espíritos livres de nosso tempo”, conclui Tenille.

Sobre a liberdade, Mateus traz uma observação que nos permite a reflexão tanto acerca desse significado, quanto uma análise da importância e da perenidade da sua arte como criação. “A gente fala muito de liberdade, mas nós não estamos preparados para liberdade. Nós estamos preparados é para o aprisionamento. Nós só não queremos ser aprisionados. Mas queremos aprisionar. A gente quer a nossa liberdade para poder aprisionar o outro. E a arte, não. A arte é livre. Ela não quer aprisionar nada. Ela nem está preocupada se você a reconhece ou não. Para mim a arte é isso. Ela é o momento. Ela é um sopro.” 

Preciso, mestre.

*Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, dia 09/01/2020




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