“Doutor” em Pilantragem
Tendo o respeito pela inteligência do público como prioridade
de seu roteiro, Better Call Saul chega
à quinta temporada na Netflix fazendo jus à sua genial origem: o marco Breaking Bad
Por João Paulo Barreto
Breaking Bad, pilar
da TV no século XXI e série definitiva em termos de construção de roteiro no
que tange aos arcos dramáticos de seus protagonistas, trazia Walter White,
personagem magistralmente interpretado por Bryan Cranston, em uma perfeita
curva dramática de 180 graus a representar todas as violentas mudanças que a
sua vida teve em dois anos de trajetória errática. Refletindo de modo exato o “ficando mau” do seu título original na
figura de Walter a se transformar gradativamente no “cozinheiro” de metanfetamina
e assassino Heisenberg e, claro, tendo que lidar com as brutais consequências
de seus atos, BrBa trazia um brilhantismo na escrita de seu criador, o
roteirista e diretor Vince Gilligan. Nesta escrita, era perceptível um respeito
pela sua audiência fiel, colocando de maneira crível as situações daquele mundo
do crime em paridade às frustrações profissionais de um inteligentíssimo, mas
fracassado, White, que se vê, aos 50 anos, com uma esposa grávida, um filho com
paralisia cerebral e com a data de sua morte agendada por um câncer devastador.Torcíamos
por aquele homem que, devagar, vai ganhando nosso asco e rejeição por seus
atos. Assistindo Breaking Bad, o
público sentia a segurança de estar diante de um seriado dramático que
privilegiava tanto a humanidade de suas figuras centrais (o Jesse Pinkman de Aaron
Paul e sua devastação psicológica, por exemplo), quanto a noção de realidade
que os profundos temas da série traziam consigo.
Dentro desse variado grupo de personagens inesquecíveis
estava Saul Goodman, o competente advogado com um, digamos, flexível código
moral. Vivido pelo notório comediante do programa de auditório Saturday Night
Live, Bob Odenkirk, Goodman, a partir de sua aparição original na segunda
temporada de Breaking Bad, passou a
roubar (sem trocadilhos) todas as cenas nas quais participava. Sua sagacidade
como advogado só se equiparava com o poder que ele tinha em observar as brechas
legais do Direito e como isso o ajudaria a lidar com seus clientes traficantes,
assaltantes, espancadores e trambiqueiros em geral, para usar apenas quatro
adjetivos. Todos eles culpados, friso. Odenkirk, na pele do asqueroso Goodman,
tinha uma personalidade magnética, que levava os olhos dos fãs de Breaking Bad diretamente a ele. Ao
acabar a série, no distante setembro de 2013, mais do que um encerramento do
perfeito arco dramático de Walter White e da curiosidade pelo que aconteceu a
um liberto Jesse (algo que só descobrimos ano passado, no não menos brilhante El Camino), ansiávamos por saber mais da
trajetória de Saul Goodman (ou it´s all
good, man!, em sua referência à malandragem inerente ao dono daquele
pseudônimo).
![]() |
Jimmy em seu momento de virada para Saul |
PARCIMÔNIA E SAGACIDADE
Corta para fevereiro de 2015, e o primeiro episódio de Better Call Saul vai ao ar pela Netflix.
Nele, não é o repugnante Saul Goodman que aparece, mas, sim, um adorável Jimmy
McGill, o carismático e boa praça advogado que se esforça para ganhar (pouco)
dinheiro como defensor público em causas onde os réus são pessoas sem condições
financeiras para arcar com os custos processuais gerados pelos seus crimes. Passando-se
cinco anos antes dos eventos iniciados em Breaking
Bad, Better Call Saul trabalha o desenvolvimento e mutação de seu
protagonista de modo parcimonioso. E esse é o ponto mais notável no crescer dessa,
digamos, gênese de vários elementos que vimos na outra série criada por Vince
Gilligan, que, aqui, tem como co-criador o roteirista e diretor Peter Gould. Não
há pressa em criar rimas temáticas forçadas entre as duas séries visando
qualquer catarse dos fãs. Um dos méritos é uma independência temática e de ritmo
entre os programas. Claro que, logo de cara, estão dois queridos e conhecidos
personagens: o próprio Goodman (ou Jimmy) e o competente “consultor de
segurança” da rede de restaurantes Los Pollos Hermanos, Mike Ehrmantraut
(Jonathan Banks). Mas Gilligan e Gould, juntamente a um azeitado grupo de
roteiristas (muitos deles oriundos de Breaking
Bad), sabem de modo preciso como construir aquelas pontes entre os seriados.
Vivendo à sombra do peso do nome McGill, que tem na figura
do seu irmão mais velho, o renomado e bem sucedido advogado Charles “Chuck” McGill
(Michael McKean, o eterno David St. Hubbins, de This is Spinal Tap), a imponência e o respeito social advindo da
nata da profissão do Direito, Jimmy é apresentado pela série que leva seu
futuro bordão como nome, em uma rotina de trabalhos estafantes e de cuidados
pelo irmão doente e semi-aposentado. No carisma e personalidade magnética do
homem, além do seu histórico de trambiques e problemas com a lei, um disfarçado
atrito com o irmão idoso, que suporta Jimmy por precisar dele, mas não nutre a
mínima confiança no caçula. Nessa construção de amor e desprezo, a necessidade
da presença de Jimmy em sua vida gera a Chuck uma amarga sensação de manter por
perto alguém que precisa estar em constante vigilância devido ao seu histórico
de desonestidade. Tendo, hoje, um diploma de advogado, as tendências perigosas
de seu irmão mais novo se multiplicam. E essa relação é um dos pontos para
entendermos como Jimmy caminhou para se tornar Saul, alguém cuja necessidade de
andar na linha já ficou para trás há tempos.
![]() |
Velhos rostos: Mike e Tio Salamanca |
DRAMA PROFUNDO
Nas citadas pontes entre as duas séries, vemos ressurgir
pouco a pouco personagens marcantes como Hector “Tio” Salamanca e Gustavo Fring,
figuras cujas origens já conhecemos, mas que têm, aqui, seus desenvolvimentos a
pavimentar suas personalidades insanas, assassinas e calculistas. Mas é na
figura de Mike, o articulador de olhos mortos, mas um adorável vovô preocupado
com o futuro da neta, o outro lado de uma balança dramática precisa. Tendo seu
passado violento e traumático como o ex-policial que perdeu um filho para
colegas corruptos na força, destrinchado de maneira densa pela série, o Mike
Ehrmantraut de Better Call Saul dá a
Jonathan Banks uma oportunidade de (des)construir aquela figura anti-heróica
que aprendemos a amar em Breaking Bad. Em
tal desconstrução, a dor do pai que perdeu o filho, mas soube vingá-lo de
maneira catártica, é o que é salientado de maneira pontual na melhor origem que
a série trouxe logo em sua temporada inicial.
Caminhando para o seu sexto e derradeiro ano em 2021, Better Call Saul se consolida, junto ao
recente El Camino, como o terceiro
pilar desse universo ficcional indefectível criado por Vince Gillingan há 13
anos. A inteligência do seu público cativo agradece.
Nenhum comentário:
Postar um comentário