Depois de Horas
YOUTUBE Em Horas em Casa, Denise Fraga e Luiz Villaça trazem reflexões (com humor e drama) acerca do confinamento e dos absurdos que tivemos acessos nesses cinco meses de pandemia
É curioso tentar iniciar essa matéria sem apelar para a frase "Em tempos de confinamento...", linha de abertura em tantos textos do jornalismo cultural nos últimos (quase) seis meses. Talvez seja pelo fato de não estar escrevendo acerca de saídas para tal confinamento dentro de opções de leitura, de filmes, de atividades físicas ou de trabalho para pessoas que têm a sorte de poder laborar em casa (para não usar o "inglesado" termo home office). Enfim, são opções de enxergar formas de conseguir passar pelas 24 horas do dia enquanto pessoas sãs mentalmente. Pessoas que podem ser consideradas conscientes da gravidade da situação pandêmica que muitos (o próprio "mandatário" da nação, inclusive) já pararam de encarar com a seriedade necessária. Aqui, a ideia não é trazer opções para ela, mas falar dessa realidade de clausura e como a mesma tem afetado seres humanos reclusos e, também, muitos daqueles que por necessidades urgentes e de sustento, precisam se arriscar em sair à rua. Na figura dessas várias pessoas que espelham muitos brasileiros e brasileiras está a atriz Denise Fraga, que encarna em um monólogo preciso nossas diversas angústias, preocupações, questionamentos (factuais e existenciais), além, também, de alguns poucos prazeres encontrados em uma rotina em casa de forma compulsória.
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Denise Fraga em uma das suas muitas personagens de Horas em Casa |
Horas em Casa, websérie semanal disponível no YouTube, foi idealizada por Denise, por seu parceiro profissional e de vida, o cineasta Luiz Villaça, bem como pelos roteiristas Rafael Gomes, Silvia Gomez e Cassia Conti, e traz a rotina não somente da atriz, mãe e dona de casa, Denise. Em sua maneira enérgica e de um carisma singular, enxergamos em Denise Fraga a presença de professores, de entregadores, de vizinhos, de filhas e filhos, de pais de adolescentes, dos próprios adolescentes, de jornalistas, de cientistas, enfim, de uma vasta gama de personagens encarnados pela atriz de maneira a trazer não somente a leveza e graça daquelas situações, mas de nos fazer refletir acerca dos muitos absurdos e tristezas com as quais nos deparamos durante os últimos meses.
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Um dos novos medos advindos com a pandemia vem dos cuidados com objetos |
COMÉDIA E DRAMA
Nas várias situações abordadas e direcionadas para os acontecimentos recentes, Horas em Casa consegue trazer algo além de risos pela identificação da audiência com os relatos das personagens interpretadas por Denise. Em um dos episódios, por exemplo, a vemos falar sobre a brutalidade policial na morte do menino João Pedro, em maio, no Rio. Em outro, vemos o relato de um entregador que prefere trabalhar até tarde para poder chegar em casa e encontrar a filha já dormindo, sem correr o risco dela querer abraçá-lo. O texto nos dá essa precisa noção do drama reflexivo para além da (eficiente, friso) comédia que a série propõe como foco.
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A realidade de muitos sortudos que podem trabalhar em casa: a série também aborda quem precisa sair |
EMPATIA PELO OUTRO
As abordagens das várias personagens interpretadas por Denise Fraga trazem uma reflexão sobre como cada realidade difere na maneira como as pessoas, conscientes da necessidade de isolamento para conter o contágio, têm enfrentado o confinamento. "As diferenças se escancaram", explica Denise. "Parece que jogaram um contraste na humanidade, porque aparece (o modo) como cada um lida diferente com o mesmo problema. As diferenças ficam muito visíveis, muito acentuadas. O programa partiu disso. Dessa inquietude da gente de pensar: 'mas e a pessoa que está vivendo em 70m², com crianças de sete e seis anos tendo aula pela internet? E quem está vivendo em um cômodo com sete pessoas? É a gente ir se colocando nas diversas situações", pontua a atriz.
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O cineasta e roteirista Luiz Villaça em entrevista de 2019 sobre Eu de Você |
*Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, dia 16/08/2020
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