Por João Paulo Barreto
42ª MOSTRA SP – Lars von Trier e seu sadismo reflexivo
Jack, em certo momento, é questionado acerca dessa sua
exclusividade feminina, em que a possibilidade de uma retração sexual é
inserida. Ao rechaçar tal fato, o mesmo afirma já ter matado homens. Porém,
nenhuma dessas mortes é exibida no filme (as únicas são impedidas em seu
clímax), confirmando a ideia de uma provocação.
Principalmente quando o lugar de vitima feminina é colocada na roda, diante de
um argumento um tanto ridículo de que “a culpa é sempre masculina”. Impossível
não pensar na recente leva de denúncias contra figurões em Hollywood quanto a
acusações de assédio. Mas isso é von Trier a apenas provocando. A profundidade
dos temas que seus filmes trazem são bem
mais atrativas, ressalto.
Riqueza visual e auto-avaliação
![]() |
Na vestimenta a referenciar Dante, Matt Dillon se destaca como Jack |
Muito parecido em sua estrutura com o anterior, Ninfomaníaca, ao penetrar diversos temas
atrelados à condição psíquica de seu protagonista, o cineasta dinamarquês abrange
um vasto leque de elementos culturais, dentre estes a arquitetura, afinal, essa
é a profissão que Jack afirma possuir. Além disso, a rima temática e visual que
a explicação acerca da construção dos telhados com o da tal casa que ele
constrói no final fascina, principalmente ao ouvirmos o protagonista comparar a
entrada da luz pelo telhado e os pontos cegos que a mesma não alcança como algo
relacionado ao olhar divino. Sendo assim, desde o começo percebe-se algo mais
profundo do que somente provocações misóginas em seu roteiro.
O título, além de uma referência à profissão de Jack, vem do
poema homônimo escrito por W.W. Denslow, que, também, escreveu o conto da Chapeuzinho
Vermelho, algo que von Trier faz questão de referenciar no último ato. Porém,
distante de um ato simplório com a tal relação visual entre figurino e
temática, o cineasta instiga o público ao inserir os conflitos psicológicos de
Jack em sua derrocada, como uma visita guiada ao purgatório, onde, levado por
Virgílio (Bruno Ganz), não por acaso personagem homônimo da obra de Dante
Alighieri, nos arcos do purgatório. As recriações das imagens a mostrar, por
exemplo, a Barca de Dante, enchem os olhos.
Sádico em sua proposta, mas justificável em seu resultado
final, A Casa que Jack Construiu traz,
também, uma espécie de auto-avaliação do próprio von Trier, quando, diante das
diversas polêmicas que trouxe com seus
filmes no decorrer dos anos, resolve revisitá-los em uma condição de análise
própria. Um cinema como auto-análise provocativa e necessária, mas sagaz na
construção profunda de um personagem que fascina por suas camadas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário