Os
espelhos da natureza humana segundo Jordan Peele
Autor
do cultuado Corra!, diretor foca nas
várias faces e
origens da violência com o horripilante Nós
Por João Paulo Barreto
Jordan Peele apresenta em seu novo filme, Nós, uma pungente análise da crueldade
que fica à espreita. A crueldade que dobra indivíduos e os fazem ceder perante
aquele sentimento impetuoso vinculado ao sadismo e que pode vir à tona a
qualquer momento. Aqui, a teoria do doppelgänger,
originária da cultura alemã, que traz a ideia de que cada pessoa possui sua
cópia oposta em algum lugar, é a proposta que guia o roteiro de Peele. Nessa
proposta, a ideia de que as faces da maldade se fazem presentes em todos se
sobressai. Mas esta é apenas uma das várias que o cineasta traz em seu rico
estudo do comportamento humano e o limite (ultrapassável ou não) definido para
este pela violência. Na história da família Wilson, cuja mãe de dois filhos,
Adelaide (Lupita Nyong’o), carrega um trauma vinculado à infância, o reencontro
da personagem com esse trauma e as consequências desse mergulhar é o que move aquela
trama que, por debaixo de uma camada de horror slasher, uma reflexão precisa acerca do limiar da natureza violenta
que cada um pode possuir se faz presente.
Enquanto em Corra!,
Jordan Peele criou um acido e genial texto acerca do racismo e de suas
formas de manifestação, mantendo a discussão em seu filme de estreia em torno
da ideia da diferença racial ser encarada absurdamente por alguns como uma
questão de exotismo e/ou fetichismo, em Nós,
apesar de trazer uma família de protagonistas negros, essa proposta não
segue para uma discussão esperada por muitos espectadores acerca desse fato.
Aqui, a violência atinge todos, não somente a família afro-americana formada
por Adelaide, Gabe e filhos, mas, também, a de seus amigos caucasianos, cujo encontro
com seus duplos se dá na mesma forma sanguinolenta e vingativa. Em Nós, essa violência atinge e se origina
em todos, independente de sua etnia, gênero ou classe social. Essa natureza
violenta está na superfície de todos e é justamente essa a ideia que Peele quer
trazer em seu filme. O mal está na violência e na cultura da mesma.
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Doppelgänger |
ALEGORIA CATÁRTICA
Há diversos túneis não utilizados no subterrâneo de
cidades estadunidenses, diz uma das linhas do texto que abre Nós. Descobriremos a razão para aquela
inserção textual de modo gradativo, quando a explicação para os duplos que
invadem a casa da família Wilson se apresenta. Até lá, a percepção desses
túneis como labirintos internos da mente de cada personagem daquela história é
plena. São nestes labirintos que a dicotomia entre bem e mal reside. E nada
mais sugestivo que os coelhos a habitar um deles, quando a ideia de seguir o
coelho branco nos remete a Alice caindo pelo fosso de sua mente. A diferença é
que a loucura necessária ali surge de modo mais violento para os que habitam
aquele universo sádico de Nós.
Na alegoria dos duplos (ou doppelgänger), Peele concede uma catarse cinematográfica àquela
reflexão vinculada ao ultrapassar da linha entre o humano e a barbárie. Porém,
do mesmo modo que o diretor brinda os fãs do cinema de gênero com um espetáculo
visual que beira ao gore, ele nos
permite observar algo além daquele frenesi sanguinolento. Por trás daquela
adrenalina, está a percepção de como a compreensão, o diálogo e, com o perdão
do clichê idealizado, o amor podem delinear e construir um destino harmonioso
para cada pessoa. O olhar de Adelaide para o seu filho e o desvendar de seu
passado que lhe chega ao encerrar aquele trauma dá ao espectador essa mesma
conclusão. O meio constrói o individuo. As relações humanas os definem.
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Red, a dupla maligna de Adelaide |
“NÓS SOMOS AMERICANOS”
Todos possuem suas causas. Todos acreditam estar
certos naquilo que defendem. E Jordan Peele está ciente disso ao inserir em
seus duplos uma causa, uma luta por uma sobrevivência que eles exigem possuir e
que estão dispostos a cometer atrocidades no intuito de alcançar. E isso
independe do fato deles desconhecerem noções de comunidade e respeito àquilo
que é diferente. E, aqui, a importância de salientar que as figuras em questão
são espelhos de nós mesmos como seres humanos. Nada nos difere deles
fisicamente. E quando se chega ao ponto de sobrevivência, nem mesmo o
comportamento explosivo e violento se faz díspar. No entanto, a corrente
demonstrada pelas mãos dadas por todos aqueles seres, a percepção de que a
maioria que está ascendendo é a aquela do outro lado do espelho, nos aterroriza
tanto quanto a ideia de um duplo maligno a nos espreitar no quintal de casa.
Trata-se de uma obra que coloca principalmente os
Estados Unidos em uma análise da violência que parece guiar o país. Mas tal
análise não se enquadra aqui apenas ao lugar de origem do roteirista Jordan
Peele, podendo ser aplicado a atos de crueldade que nascem do ímpeto de indivíduos
oriundos de qualquer parte do mundo. E, da mesma forma como os habitantes do
submundo a trajar vermelho no universo de Nós,
tais indivíduos estão dispostos a machucar inocentes e morrer defendendo as
insanidades nas quais acreditam.
E, claro, o foco aqui é, obviamente, a trumplândia. Afinal, apenas para
ficarmos em fatos recentes, foi lá que um homem abriu fogo contra fieis de uma
igreja do Texas e onde carros foram jogados contra multidões durante uma
manifestação em Charlottesville, no estado da Virginia.
Quando os duplos da família Wilson surgem pela
primeira vez, sua apresentação vem acompanhada pela resposta de Red, oposta de
Adelaide, para a pergunta “quem são vocês?”. A réplica? “Somos americanos”.
Nada mais direto e preciso, Jordan.
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*Texto originalmente publicado na versão on line da Revista Continente
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