Capitã
Marvel vai além da ação ao destacar
força de personagem
feminina
Em tempos de xenofobia e racismo tão evidentes,
Marvel
Studios acerta ao levantar crucial discussão
Por João Paulo Barreto
O que poderia se render a um roteiro simplório e
maniqueísta de bem vs mal (ou, pior, humanóides bonitos vs aliens lagartos
feios), o texto por trás de Capitã
Marvel, novo filme da Marvel Studios, acaba por gerar uma reflexão
importante em tempos nos quais a política se tornou um instrumento abertamente
utilizado para justificar atitudes racistas e xenofóbicas. Nesse estruturar de
sua trama, o diálogo se torna o principal instrumento dentro do entendimento
entre dois povos diferentes cuja sobrevivência de seu legado como seres vivos é
meta para ambos. E é justamente neste pilar que o longa acertadamente se
sustenta.
Apresentando Carol Danvers (Brie Larson), ou apenas
Vers, sua identidade alienígena, a militar Kree que luta para manter as
fronteiras do planeta Hala livres dos Skrulls, uma raça de transmorfos, Capitã Marvel se ambienta em 1995, ano
no qual, após uma luta contra os Skrulls, a capitã cai na Terra e segue em
busca dos seres que também vieram parar no planeta. Como motivo para diversas
piadas, a começar pelo local onde a jovem despenca (uma loja da Blockbuster,
popular locadora de filmes em VHS), o ano no qual se passa a trama do filme
rende muitas brincadeiras com o uso lento da internet naqueles primórdios da
tecnologia, período no qual pagers anunciavam futuras mensagens instantâneas e
leitores de CD player levavam alguns minutos carregando dados para leitura.
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Força da personagem em um passado obscuro |
Com essa ambientação, a obra dirigida pela dupla
Anna Boden e Ryan Fleck, aproveita diversas oportunidades para estabelecer um
início para o já consolidado universo cinematográfico Marvel, apresentando
elementos símbolos como o Tesseract que contém a uma das Jóias do Infinito, bem
como figuras que se tornariam a cara daquele mesmo universo. Nesse viés, os
conhecidos (e impressionantes) rejuvenescimentos que a Marvel já trouxe em
outros filmes, aqui, traz versões de atores como Samuel L. Jackson e Clark
Gregg, apresentados mais jovens de forma a criar para a trama diversas possibilidades
de desenvolvimento com as origens de seus personagens, todas elas muito bem
aproveitadas por Boden e Fleck, também creditados como roteiristas.
XENOFOBIA EM XEQUE
É pertinente observar como o filme, aproveitando o
pilar inicialmente citado de basear-se na paranóia da desconfiança perante
aquele que está próximo a você para criar uma reflexão acerca do preconceito,
consegue gerar no espectador atento justamente essa análise de como esse medo
do desconhecido, apesar de justificável em alguns aspectos, pode ser nocivo. E
ainda no aspecto de criar reflexão, o longa traz a presença de duas personagens
femininas cuja força e capacidade de sobressair-se em um ambiente comumente
observado como masculino as tornam ainda mais fortes, principalmente ao colocá-las
como modelo a ser seguido pela filha de uma delas.
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Paranoia como ponto de desconfiança |
Criando cenas de ação envolvendo aeronaves em
cânions, algo que remete de modo satisfatório a perseguições em estrelas da
morte, além de colocar a protagonista em voos solos que ilustram todo o poder e
capacidade da protagonista, o aspecto visual de Capitã Marvel é de encher os olhos, tornando possível um
entretenimento que ultrapassa os aspectos plásticos por conseguir unir efeitos
especiais e argumentos de reflexão de forma orgânica, sem forçar lições ao
espectador, mas permitindo-o pensar acerca do que lhe está sendo apresentado
como algo além de um simples filme pipoca.
E, claro, iniciar seus créditos com uma bela homenagem
a Stan Lee, recentemente falecido, com suas participações nas produções do
estúdio ilustrando a sua logomarca é um bônus que fará muito fã das histórias
em quadrinhos se emocionar. Como ele mesmo gostava de dizer, Excelsior!
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 11/03/2019
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