O Tigre e o Zumbi
ESTREIA Com Army of the Dead - Invasão em Las Vegas, diretor
Zack Snyder revisita, dezessete anos depois, o gênero de seu filme de estreia, e
volta a brincar com as possibilidades do imaginário do Horror Zumbi
Por João Paulo Barreto
Há um momento de Army of the Dead - Invasão em Las Vegas no qual um tigre zumbi (!!) aparece em cena. Com seu rugido estrondoso e ameaçador, metade do corpo apodrecido pela putrefação cadavérica e ossos aparentes logo abaixo da superfície de seu pêlo carcomido, a besta digital adentra em cena, caminhando por uma Vegas devastada em destroços. O momento serve como um preparo de terreno do filme a criar expectativa e temor. Pelo fato de não ser abatida logo de cara pelo grupo liderado por Dave Bautista, percebe-se que se trata exatamente disso. Uma apresentação inicial para algum momento catártico que veremos mais à frente. E que momento! Mas, não se preocupe. O que acaba de ler não foi um spoiler, mas apenas uma percepção e explicação concreta de como o cineasta Zack Snyder busca nesse seu revisitar ao tema "filmes de zumbis", dezessete anos após Madrugada dos Mortos, saídas para as não repetições (ou minimizá-las ao máximo) de ideias já vistas em outras obras dentro desse gênero. Mesmo não sendo mais novidade neste tipo de filme (já vimos animais zumbis antes), a proposta de um tigre zumbi tão brutal, ágil e violento quanto um animal "vivo", entrega bem a proposta de Snyder na busca por trazer algo para além do convencional quando falamos de mortos-vivos.
O desafio é grande. Afinal, não somente o mestre George Romero
como referência que já guiava o, até então, futuro diretor de 300 e Watchmen na sua primeira incursão pelo estilo há quase duas décadas
com a refilmagem de um clássico, mas, hoje, some-se a isso uma quase
banalização do tipo de obra, com a demasiada quantidade de temporadas de The Walking Dead e suas derivadas, além
de outros filmes que abordaram essa proposta nestas duas décadas do século XXI,
sendo alguns com esmero e outros deixando a desejar. Dentre os da primeira
opção, está o excelente sul-coreano Train
to Busan (no Brasil, lançado sob o pobre título de Invasão Zumbi - perceptível a falta de originalidade por aqui na
proposta de nomes nacionais), filme de 2016 que trabalhava de maneira frenética
a criação da ferocidade das criaturas mortas (tais quais as que vemos com
Snyder), bem como a inserção de um drama/conflito familiar entre os personagens
principais.
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A besta digital de Zack Snyder |
REGRAS E MESCLA DE GÊNEROS
Na coletiva de imprensa para divulgação do filme, o cineasta Zack Snyder falou sobre esse propósito de buscar escapar das ideias pré-concebidas do gênero "filme de zumbi", bem como acerca das possibilidades que a proposta de novos direcionamentos poderia trazer. "Eu meio que desenvolvi essa ideia de um zumbi que escapa da área 51 e termina em Las Vegas. Um muro é construído ao redor da cidade. E isso remete a vários filmes que eu cresci vendo, como Fuga de Nova York (filme de 1981, dirigido por John Carpenter). Sempre fui fascinado pelas regras desses filmes. O que o público iria esperar de uma ideia pré-concebida que fazem de um filme de zumbi? O quão longe o público iria conosco dentro dessas regras? E foi assim que começou. Era algo que estava conosco (Zack e a produtora Deborah Snyder) há anos", explica o diretor.
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Dave Bautista em seu papel de protagonista |
PARALELOS "ROMERICOS"
Como exemplificado com as diversas obras citadas, em um gênero cinematográfico já tão explorado no decorrer dos anos e que enveredou por estilos que variam entre o terror, o suspense, a ação frenética e a comédia, há uma opção interessante para o espectador atento que almeja algo além da diversão catártica trazida pelo jogo de caça e caçadores entre vivos e morto-vivos. Funcionando, desde os clássicos iniciais de George Romero, como metáforas para a paranoia estadunidense com o comunismo, além das alusões precisas ao consumismo e à escravidão advinda do capitalismo, os filmes de zumbi têm essa verve intrínseca às suas propostas. Em Army of the Dead, porém, mesmo talvez inserida sem tal propósito de análise, está a ideia de um grupo de vivos que se arrisca (ao ponto de morrer nas presas de zumbis) no resgate de um fortuna situada dentro de um cofre no meio de uma cidade condenada.
Bom, ver a ironia do fato de que nas pérolas iniciais de Romero, os zumbis caminhavam por entre corredores de shoppings em uma alusão exata ao que somos, e que nós, os vivos, tentávamos salvar o que mais interessava (nossa pele), é, no mínimo, curioso de se observar como a mesa virou. Hoje, adentramos no covil das feras na tentativa de deixarmos de ser exatamente os zumbis da base da pirâmide. E não estou falando apenas do roteiro de Snyder. Touché!
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