O absurdo como reflexão de uma realidade
Eu Não Sou uma Bruxa traz
análise da manipulação
cultural como meio de manter duras existências
estagnadas
Por João Paulo Barreto
Entre a sagacidade de uma voraz crítica à exploração
política, financeira e midiática de uma crença folclórica e quase religiosa atrelada
à ignorância alheia e à utilização de um realismo fantástico que caminha de
mãos dadas com a brutalidade de um mundo misógino, Eu Não Sou uma Bruxa apresenta sua protagonista, uma garota de nove
anos inicialmente sem nome que, acusada de ser uma bruxa, tem à sua frente a
imposição da escolha de aceitar tal rótulo ou ser transformada em uma cabra.
Esse é o começo do primeiro longa dirigido pela experiente
cineasta Rungano Nyoni. Nascida em Zâmbia, Nyoni tem em seu currículo uma série
de curtas metragens, incluindo a co-autoria do soberbo roteiro de The Mass of Men (O Peso dos Homens),
filme vencedor do Panorama Internacional Coisa de Cinema em 2013. Trazendo sua lente
para reais relatos de acusações de bruxarias ocorridas na mesma Zâmbia, África,
a cineasta criou uma potente análise da citada utilização da fé como modo de
dominação física e intelectual. Na presença da criança acusada de bruxaria, a
noção precisa do início de uma doutrinação baseada na exploração perene de
seres humanos.
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Shula e sua prisão física e mental dentro de um esquema de manipulação |
Levada para viver em uma espécie de campo para bruxas junto
a outras mulheres, sendo a maioria composta por idosas (algo que denota tal
perenidade) também acusadas, puramente na base do “achismo”, de bruxaria pelas
autoridades e cidadãos locais, a pequenina recebe o nome de Shula (algo como
“desenraizada”), refletindo, assim, o tratamento hostil que concedem à criança.
No local, são obrigadas a trabalhar em lavouras e, exibidas como atração
turística, são vitimas do olhar estrangeiro em uma clara alusão à omissão e ao
secular estripar da África pela presença do branco. Da mesma maneira, não
somente uma observação pontual ao olhar externo, mas, também, uma forma de
trazer a denúncia para a exploração desse folclore utilizado como justificativa
a condenar tais mulheres a trabalhos braçais em plantações e sem qualquer
remuneração. A presença de um oficial do governo conhecido como Sr. Banda
(Henry BJ Phiri) que se mantém como guardião de Shula demonstra bem esse oportunismo atrelado a uma
dominação política através da ignorância.
SURREALISMO E TRAGICIDADE
Nyoni, em seu roteiro, insere toques de surrealismo
fantástico, quando vemos todas as supostas bruxas presas a carretéis. Com
cordas de pano atreladas às suas costas, limitam seus movimentos, mantendo-as
presas não somente de maneira física àquela realidade, mas, também, mental. Na presença da estreante Maggie Mulubwa, com
sua expressão observadora e, ao mesmo tempo, desafiante e triste, que se
transforma em sorrisos momentâneos e tão carregados de tristeza quanto, a
cineasta Rungano Nyoni tem um tesouro que traduz exatamente o peso de seu
filme.
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O podres poderes e a opressão intelectual em prol do econômico e político |
Como Shula, a pequena Maggie traduz sua tragicidade de forma
dolorosa, como quando afirma se arrepender de ter escolhido ser uma bruxa ao
invés de cabra, ou quando escuta através de um chifre o som de crianças em uma
escola. A fotografia, aqui, é de David Gallego, notório diretor de fotografia
responsável pelos tons de O Abraço da
Serpente, de Ciro Guerra. Uma das cenas que fazem essa presença de Gallego
notável é quando Shula se vê dentro de um crânio de um animal, sendo mirada no
contemplar de sua realidade trágica por olhares estrangeiros, em um
enquadramento preciso de Nyoni a salientar a prisão tanto corpórea quanto
intelectual de Shula.
Durante a sessão, alguns risos nervosos surgiam entre os
presentes na sala de cinema. Perceber a maneira como tais risadas eram abafadas
rapidamente faz o espectador atento refletir sobre a proposta de Nyoni em trazer
um tema tão violento, mas sem perder seus toques de reflexão diante do citado
surrealismo que remete a contos infantis (o caminhão com os carretéis é um
exemplo) ou a proposta de abordar o absurdo daquela situação inserindo momentos
diretos de crítica àquele ambiente, como quando Shula é levada a um programa de
entrevistas e o apresentador questiona a possibilidade dela não ser uma bruxa,
mas, sim, apenas uma criança. A resposta acaba não vindo de ninguém. É o
silêncio omisso que refletirá exatamente o trágico da vida de Shula.
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