Confinados em Si
CINEMA Realizado antes da pandemia, A Nuvem Rosa, de Iuli Gerbase, filme brasileiro selecionado para o prestigiado festival de Sundance, utiliza o confinamento para desconstruir
personagens psicológica e fisicamente
Por João Paulo Barreto
"O inferno são os outros". Com essa frase
proferida por um personagem da peça Entre
Quatro Paredes, de Jean-Paul Sartre, o norte para a compreensão de A Nuvem Rosa, filme escrito e dirigido
pela cineasta Iuli Gerbase, tem um primeiro passo em seu trilhar. Selecionado
para a mostra competitiva World Cinema Dramatic, do prestigiado Sundance Festival,
nos Estados Unidos, que vai até o dia 03 em plataforma digital, o longa de
estreia da roteirista gaúcha aprofunda-se na ideia do isolamento físico e
emocional de Giovana e Yago. Os dois formam um casal confinado tanto nos
cômodos de uma casa quanto no desejo de libertação de suas angústias e
sentimentos. Trata-se de um filme que traz a análise do equilíbrio de um
relacionamento fadado ao fracasso pelas prisões que ele criou tanto para si
próprio quanto aquelas às quais precisou
se adaptar para continuar resistindo. O
inferno está nos outros que nos cercam, bem como, dentro da sanidade de cada um,
há, também, um inferno particular.
Trazendo a ideia de uma nuvem tóxica a manter as pessoas presas em casa sob o risco de morte caso tenham contato com o ambiente externo, o longa é baseado em estudos acerca do criação de personagens aprisionados, publicados em dissertação de mestrado escrita pela própria diretora, cuja defesa aconteceu em 2017. O roteiro escrito por Gerbase foi filmado em 2019, distante de qualquer ideia de que aquela realidade poderia ser a de todos nós em um futuro bem próximo quanto o de 2020 se apresentou. Sartre, com a peça Entre Quatro Paredes a abordar o contexto de isolamento, juntamente a Luis Buñuel e o seu marco O Anjo Exterminador a ilustrar outro exemplo de análise comportamental humana em situações de confinamento e tensão, são duas das outras obras trazidas pela cineasta na composição de seu texto.
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Giovana e Yago: confinados em uma nova realidade |
"Eu queria explorar esses personagens em diferentes situações. Temos os protagonistas, um casal de que recém se formou. Temos uma amiga da Giovana, que, ao contrário, se separou, ficando trancada sozinha em casa. Temos uma menina com as amigas dela na casa dos pais destas. E a gente tem o pai idoso do Yago, preso com uma pessoa que ele já conhece, mas não gosta, que é o seu enfermeiro", explica Iuli ao falar acerca da criação das dinâmicas comportamentais das pessoas que ela criou para seu roteiro.
PRISÕES FÍSICAS
No destrinchar de suas camadas, o texto de Gerbase permite
análises desses aprisionamentos em variadas nuances. O desmoronar daquele relacionamento
entre Yago e Giovana que, mesmo em suas diferenças, foi forçado a começar por
conta da necessidade de se confinar ; a ideia de uma prisão dentro de uma
infância alienada e distante de um mundo anterior que, para aquela criança,
possui naquele estado de adaptação sua (única) realidade conhecida; a prisão
física dentro de um corpo e mente a ceder para a degeneração de uma doença, com
a inserção de uma personagem a perder seu discernimento e capacidades mentais.
Em sua história, A Nuvem Rosa se torna
uma concisa observação do humano como vitrine para diversos ímpetos, bem como
para as limitações que contêm tais ímpetos.
"Nesse estudo, eu via muito, também, quais aprisionamentos
temos na nossa vida antes do COVID, antes da nuvem rosa, antes deste
aprisionamento de fato. Então, eu também quis explorar essas questões. O pai do
Yago mostra um aprisionamento do corpo físico. Quando temos uma doença, ficamos
limitados e presos a ela. Ou, enfim, o nosso corpo é mortal e a gente tem um
limite de liberdades com o que fazer com ele ", pontua a diretora e roteirista.
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Chegada da nuvem rosa: flerte com a ficção científica |
NOVAS ADAPTAÇÕES
Em nossas prisões, a adaptação e a recusa àquelas novas realidades
parecem travar batalhas entre si. Do
mesmo modo, aos poucos, as personagens criadas pela roteirista vão cedendo e se
deixando levar por aquele "novo normal", para usar um termo em voga no
definir do que é essa maneira recém chegada de se comunicar. "Recém
chegada", inclusive, soa como um termo equivocado para citar esse novo
padrão de contato social, à distância, travado apenas diante de telas, áudios,
vídeos e palavras escritas. "Nós já
estávamos em uma era muito virtual. Porque, às vezes, tem amigos que antes de
ter tanto WhatsApp, Facebook e Zoom, a gente talvez já visse mais desse modo do
que hoje em dia. Às vezes, falamos tanto e tão constantemente pelo celular com
alguns amigos e acabamos vendo-os pouco. Claro, eu estou falando antes da
pandemia. Mas houve essa adaptação para o virtual", compara Iuli.
LEMBRANÇAS MARCADA
Em A Nuvem Rosa, a questão da perda desse contato, da resistência versus aceitação, é aprofundada, levando sua audiência a não somente penetrar naquela realidade do casal ficcional como, também, perceber-se vivendo dilemas semelhantes. "Tudo vai para o virtual, só que tem coisas que não se sustentam no virtual. E há outras que se sustentam. Eu imagino que para os adolescentes está sendo muito difícil. Imagina quem ia ter o seu primeiro ano na faculdade? Ou ia se formar no colégio, se formar na faculdade? Não vai ter aquele momento de celebração, aquele momento de conhecer as pessoas", reflete a diretora. As lembranças que criamos durante fases da nossa vida em uma formação inicial, juvenil, são as que nos sustentam por anos a fio quando tormentos mentais podem surgir. Quando perdemos tais encontros, tais experiências, tais sensações geradas a partir da interação, a partir do contato com outros, como podemos nos tornar adultos saudáveis? Observando novas gerações perderem isso, pensar em um futuro menos pessimista se torna tarefa difícil.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 29/01/2021
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