Albatroz
propõe
um cinema que tira o espectador da inércia
Com roteiro de Bráulio Mantovani, filme de Daniel
Augusto
cria intricada e recompensadora trama para o público atento
Por João Paulo Barreto
No cinema nacional mainstream (com distribuição garantida e grandes selos de produção
ilustrando os créditos iniciais na tela), são um tanto raras as obras que te
desafiam além do clichê da comédia de costumes ou do pastelão global. Por isso,
é com bastante atenção que a estrutura incomum de narrativa de Albatroz, filme dirigido por Daniel
Augusto (Não Pare na Pista) e
roteirizado por Bráulio Mantovani (Cidade
de Deus e Tropa de Elite 1 e 2), deve ser observada pelo espectador
que se aventure na sessão deste breve (90 minutos) e ótimo exemplar da produção brasileira que entra em cartaz esta
semana.
Com uma intricada trama que brinca com o senso de
realidade do seu protagonista e, por consequência, com o do próprio espectador,
Albatroz traz uma mistura de elementos
narrativos num modo de construção que, gradativamente, derruba um a um os meios
de decodificação que o público venha a aplicar na compreensão dos seus atos. Mas,
não se assuste. O filme, ao final, se torna uma experiência recompensadora para
os que se arriscam neste decodificar. Sem seguir a estrutura clássica de
começo, meio e fim, e preferindo levar a audiência a visitar os acontecimentos
de sua trama de modo a ela mesma construir aquele quebra-cabeça, a obra de
Daniel Augusto acaba sendo um exercício que, em certo momento, beira o
metalinguístico.
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Simão e Catarina - Casal em conflito |
FOTOGRAFAR SONHOS
Ao misturar realidade e sonho em seu roteiro, o
escritor Bráulio Mantovani alcança um intento palpável na sua narrativa: o de
manter o espectador diante de uma escolha idiossincrática do que ele está vendo
diante de si. Não dando todas as respostas, Mantovani cede à audiência a opção
de acreditar ou não naquilo que está vendo. Na trama, o fotógrafo Simão
(Alexandre Nero), após ganhar fama mundial por registrar um ataque terrorista
com suas lentes (e ser acusado de oportunismo pelo ato), decide largar o ofício
e afirma estar interessado em “fotografar sonhos”. Neste novo rumo de Simão, o
reencontro com Alicia (Andrea Beltrão), uma antiga namorada, acaba por causar
um maior desequilíbrio na vida do homem. Alicia, que se tornou escritora e,
agora, se propõe a registrar em livro a trajetória de seu relacionamento com o
fotografo, decide ajudá-lo no intento de registrar sonhos.
É justamente neste ponto que passamos a entender a
proposta de Albatroz como uma obra de
sci-fi que não dá pistas fáceis ao
seu público, inserindo conspirações dentro de pesquisas científicas de
neurociência, figuras que remetem ao noir clássico (com a presença femme fatale de Alicia), e à proposta
mais difícil: a de representar em imagens os delírios e sonhos de seu
protagonista. Para o diretor Daniel
Augusto, a maior dificuldade residiu nesta representação dentro da linguagem do
cinema entre o que era sonho e sua diferenciação da realidade. “O cinema já
nasceu dividido. Há um aspecto que tem os Irmãos Lumiérè, que é um cinema mais
documentário, mais ligado ao real, e tem um aspecto (Georges) Mélìès, que vai
para o sonho, etc. Essa ideia do cinema que vai para o sonho atravessa a sua história”,
explica.
Em seu aspecto visual, Albatroz acaba por ser muito bem sucedido no aspecto do delírio de
seus personagens e o modo como este delírio se manifesta imageticamente para o
público. Dentre diversas obras que vêm à mente do espectador, a de Michel
Gondri, Brilho Eterno de uma Mente sem
Lembranças, é a que se destaca. Mas Daniel faz questão de frisar outras. “Eu
gosto muito do Brilho Eterno de uma Mente
sem Lembranças. É um filme de referência pra mim. Na vida, na verdade. Mas, na história do cinema, outras obras
buscaram essa representação. Você tem Cão Andaluz, você
tem o Expressionismo Alemão, você vai ter de certa maneira o próprio filme noir
impregnado pela fantasia, mas de uma outra maneira. Ou seja, isso atravessa a história
do cinema. É uma conversa com essa
tradição, na verdade. De como fazer do cinema um sonho”, complementa.
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Simão: tormenta após reconhecimento mundial |
PAPEL VS. TELA
O diretor propôs o desafio dessa escrita ao
roteirista Bráulio Mantovani. “Antes da ideia de Albatroz surgir, eu falei pra o Bráulio que gostaria muito de fazer
um filme que pudesse ser interpretado de mais de uma maneira. Não só duas
maneiras, mas de pelo menos três ou mais formas pelo espectador. Mas que fosse
um filme que ao mesmo tempo o público não perdesse a atenção. Ou seja, que ele
ficasse o tempo todo ligado no que estava vendo. Então, seria uma espécie de
quebra cabeça. Como fazer um quebra cabeça, mas que o espectador no final
chegasse a alguma conclusão? Mesmo que cada espectador monte essas peças de uma
maneira diferente, já que as peças se encaixam em mais de um lugar”, explica
Daniel.
Se para o diretor, a proposta de representação
visual das linhas escritas por Mantovani era algo a instigar, para as atrizes
Andrea Beltrão e Maria Flor era palpável a impressão de estar diante de uma
matéria prima que renderia resultados surpreendentes tanto para a audiência
quanto para elas mesmas durante o processo de dar corpo àquelas palavras.
Andrea, que tem em Alicia uma presença de narradora daquela história e peça
crucial nas respostas ao espectador, explica que não teve essa noção durante a
criação de sua personagem. “O roteiro era não linear. Era todo desconstruído
com uma narrativa dentro dele bem diferente. As cenas não se seguiam umas às
outras em uma lógica, em uma coerência. Apesar, claro, de haver uma lógica
própria do filme, o que é muito interessante. Mas, eu só fui perceber que a
história passava pela narrativa dessa personagem, que é a escritora Alicia,
quando o vi pronto. Antes, eu fiquei muito mergulhada em cada cena e não achava
que o filme tivesse nessa personagem um peso como narradora. Achei que muito
bom”, relembra Andrea.
Maria Flor, que interpreta Catarina, compositora de
jingles e atual esposa de Simão, explica que o processo de mergulhar no roteiro
de Bráulio foi algo singular diante de outras experiências. “Eu acho que o
Daniel e o Bráulio conseguiram criar essa atmosfera para a gente, onde cada
cena é como se ela se encerrasse nela mesma. Então, a gente não ficou criando
personagens com uma psicologia complexa. Tentamos realmente entender e falar: ‘essa
cena é isso aqui que a gente está contando’. E isso foi um exercício diferente,
para mim pelo menos”, afirma.
Ao final, Albatroz
acaba sendo uma oportunidade do espectador se desafiar naquele decifrar das
pistas apresentadas pela obra. Um aventurar recompensador, friso.
*Matéria publicada originalmente no Jornal A Tarde, dia 06/03/2019
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