A Vertigem Cinéfila do Oscar
Com Brasil no páreo de Melhor Documentário, festa do cinema
acontece hoje, a partir das 20h, com transmissão ao vivo pela TNT, TV Globo,
Globoplay e pelo portal G1
Por João Paulo Barreto
“Previsão para a noite do Oscar?”, replicou-me João Carlos
Sampaio, com aquele notório riso de canto de boca. “Chuva fina, temperatura
amena e cama atrativa para deixar bem longe de mim as três horas de duração
dessa cerimônia chata”. Foi assim que, em 2012, o irônico e saudoso crítico de
cinema deste impresso me respondeu quanto lhe perguntei sobre suas predileções
na festa do cinema mundial (mundial? será?) que, naquele ano, premiou O Artista.
De certa maneira, Janjão de Aratuípe, em sua sabedoria,
tinha razão. O Oscar sempre foi essa coisa espalhafatosa, cafona, longa e,
alcançando em 2020 sua 92ª edição, a impressão ainda é a mesma, acredite.
Quando não há algo que chame a atenção como a troca dos nomes dos premiados em
2017 ou o preciso monólogo de abertura de Chris Rock em 2016, para muitas
pessoas, cinéfilas ou não, passar as três horas contínuas vendo a cerimônia não
é um programa muito atrativo.
Porém, eu confesso: ao menos para esse escriba cinéfilo, há
algo de magnético nessa festa que o faz ficar acordado (mas se rendendo a
Morpheus logo após a primeira hora), mesmo que o batente cedo na segunda feira
de manhã seja obrigatório. Assim, o apanhado de apostas, predileções,
estatísticas baseadas em outras premiações do mesmo período não deixam de ser uma
boa muleta para aqueles que, assim como eu, tentam acertar os ganhadores nos
dias que precedem a cerimônia que acontece hoje, com transmissão ao vivo direto
do Teatro Dolby, em Los Angeles.
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Joaquin Phoenix e sua já lendária atuação como Coringa |
APOSTAS NO PALHAÇO
Levando isso em consideração, após observar premiações como
o Screen Actors Guild Awards, Critics’s Choice Awards, BAFTA e Globo de Ouro, é
muito improvável que Joaquin Phoenix deixe de ser premiado com um Oscar por sua
brilhante caracterização como o atormentado Arthur Fleck, o coringa do filme
homônimo dirigido por um surpreendente (e de currículo não muito cativante)Todd
Phillips. Em uma construção impressionante, na qual não somente a transformação
física é observada, mas todas as nuances e choques entre dor e riso
involuntário, violência e carência afetiva, insanidade e niilismo são trazidas
à tona por um personagem que representa muito de uma sensação comum ao cidadão
que, atualmente, é esmagadas por um sistema
político e social pernicioso. Premiar Joaquin Phoenix por esse papel possui
muito significado como mensagem da função do cinema como agente modificador, ou
ao menos, de uma reflexão mais profunda acerca da sociedade.
Neste quesito de premiar filmes cuja mensagem política e
social se fazem presentes para confirmar uma obrigação do cinema como algo além
do entretenimento, Parasita, indicado
aos prêmios de Direção e Roteiro Original (o talentoso coreano Bong Joon Ho),
além dos dois prêmios de Melhor Filme (falado ou não em inglês), é um dos
grandes favoritos (e meu preferido) em todos estes quesitos. No entanto, pelo
menos nas indicações de Fotografia (o brilhante Roger Deakins),Direção e Melhor
Filme, o vencedor deve ser o épico de guerra 1917, do britânico Sam Mendes, uma imersão técnica e emocional na
missão de dois soldados durante a Primeira Guerra.
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A obra prima Parasita |
BRASIL PRESENTE
Na categoria de Melhor Documentário, a cineasta Petra Costa
tem, contraditória e ironicamente ajudando a divulgar a importante denúncia
contida em seu trabalho, uma campanha governamental de ataques contra o seu
filme, Democracia em Vertigem. Sim,
apesar de todas as tentativas do atual (des)governo em tentar manchar a
reputação do doc e (creia) da própria diretora de Elena e O Olmo e a Gaivota, tal
destaque concedido pela vias oficiais do Planalto tem servido como uma maneira
de demonstrar a importância da obra em seu registro histórico do golpe
parlamentar de 2016.
Independente de qualquer posicionamento político, o longa tem
em seu resultado final uma prova contundente de todo movimento de sabotagem do
processo democrático. Movimento este que utilizou todo o aparato da mídia
televisiva e impressa representada pelas famílias que detêm tais concessões
para ajudar a demonizar a esquerda, levar à derrubada da presidente da
República, Dilma Rousseff, e condenar “sem provas, mas com convicções” o pré-candidato
líder nas pesquisas para a eleição do ano passado.
Em um país cuja cultura é tão esculachada pelos ignorantes
que atualmente detêm o poder, onde projetos que teriam financiamentos da
Agência Nacional do Cinema (ANCINE) devem “passar por um filtro” (leia-se:
censura) e onde cartazes de obras nacionais são retirados do prédio onde se
localiza a agência, difamar o representante nacional no Oscar, a maior vitrine
que o cinema, essa gigante indústria, meio tão palpável de geração de renda e
emprego no Brasil, confirma muito bem a incompetência e mediocridade do atual
presidente do país.
Mas o mundo está de olho. E nada como uma vitrine de
audiência tão impressionante quanto o Oscar para provar isso.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 09/02/2020
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