Olhos que Condenam
Baseado em uma história real, Luta por Justiça traz o empenho de jovem advogado na batalha contra
o racismo assassino que construiu os Estados Unidos
Por João Paulo Barreto
“Soube que ele era culpado no momento em que olhei para
ele”. Essa foi a frase proferida por policiais nos depoimentos referentes à prisão
de Walter McMillian, errônea e desonestamente acusado do assassinato de Ronda
Morrison, uma jovem de 18 anos, branca, residente do Alabama, no sul
estadunidense. Em uma investigação tendenciosa e repleta de furos, na qual não
se conseguia achar um suspeito, McMillian, um homem negro, sem antecedentes
criminais, pai de dois filhos, foi falsamente relacionado como cúmplice de Ralph
Meyers em outro assassinato cometido por este. Assim, após criar a armadilha
legal, a polícia corrupta e racista da cidade de Monroeville não tardou a
acusar Walter, também, pelo assassinato da jovem Ronda. A frase entre aspas
acima define bem a ação que urge da reflexão contida em Luta por Justiça.
Just Mercy (em seu título original) traz a perseverança do advogado
Bryan Stevenson (Michael B. Jordan, também produtor do filme), quando, recém
formado em Harvard, decide, ao invés de seguir uma carreira lucrativa em
escritórios de advocacia, abraçar a análise minuciosa dos casos de condenados à
cadeira elétrica no estado do Alabama. Ao abrir um centro de representação
jurídica para pessoas sem condições financeiras para arcar honorários
advocatícios, Stevenson passa a se dedicar, ao lado da colega Kris Ansley (Brie
Larson), a verificações mais detalhadas de casos no intuito de evitar que penas
de morte sejam executadas.
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Jamie Foxx vive Walter McMillian |
CULPA PRÉ-DEFINIDA
Ao ilustrar seu filme com a
brutal história de McMillian (vivido por um intenso Jamie Foxx), baseada no livro
do próprio Bryan Stevenson, o diretor e co-roteirista Destin Daniel Cretton trouxe
não somente uma análise profunda do racismo nas terras ianques, bem como uma
reflexão acerca da pena de morte como um método falho, desumano e injusto de se
fazer justiça. “O olho por olho deixará todo o mundo cego”, frase atribuída a
Mahatma Gandhi, constrói de forma pertinente essa reflexão. Acabar com a vida
de um criminoso é a resolução para o problema? Ou este problema social deve ser
lidado de maneira pragmática, porém com uma diferenciação daquilo que nos
coloca como pessoas, não como animais vis? Minha consciência e humanidade
seguem para a segunda opção.
No longa, neste aspecto da
discussão sobre a pena de morte ainda ser legalizada em alguns estados da
trumplândia (mesmo que a cadeira elétrica, desde 2008, não seja mais adotada),
há o fato de que a maior parte dos presos que terminam no corredor da morte
possuem falhas em seus processos judiciais e, ainda por cima, serem em sua
grande maioria afrodescendentes. “Aqui, se você é negro, você já nasce
culpado”, afirma, dolorosamente, na pele de Jamie Foxx, Walter McMillian.
Deste modo, ao se aprofundar
nesta imprescindível questão, o roteiro de Cretton e Andrew Lanham (que, curiosamente,
havia escrito o constrangedor A Cabana, de
2017) Luta por Justiça coloca seus
personagens habitantes do corredor da morte não de forma caricata, a querer
forçar uma empatia do espectador. Os traumas daqueles homens, alguns deles
culpados dos seus crimes, não são jogados na tela de maneira a redimi-los por
suas lágrimas ou atual estado desespero diante da iminente partida. Não. O
filme oferece contundentes argumentos para que tal máxima contestada sabiamente
por Gandhi não seja colocada em prática.
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Stevenson e McMillian (Jordan e Foxx): momento decisivo |
“JUSTIÇA” SENDO FEITA?
Um deles reside na trágica vida
de Herbert Richardson, uma das 66 pessoas executadas no Alabama depois que a
pena capital foi recolocada em prática. No filme, interpretado por Rob Morgan,
Richardson ilustra precisamente o fato da sentença de morte sendo algo
definitivo, mas que não cumpre efetivamente a ideia de justiça. Assumidamente
culpado pelo crime que cometeu, Richardson sofria de PTSD (Post-traumatic
stress disorder, na sigla em inglês), o tipo de estresse pós-traumático que
aflige diversos soldados quando estes retornam para casa após cumprir com
deveres militares em guerras.
Com tal condição a atormentá-lo,
o crime cometido por Richardson deveria ser julgado a partir de uma
perspectiva, também, médica, tornando possível que sua pena fosse paga através
de um internamento em um hospital psiquiátrico. Mas nada disso aconteceu. A
cena de sua execução remete ao À Espera
de um Milagre, filme baseado na obra de Stephen King. Aqui, porém, a
lembrança de ser baseada em algo real nos choca com maior impacto.
Mesmo com alguns personagens
tendo uma participação mal desenvolvida na trama, com uma aproximação
fantasiosa de bom caráter dentro do violento ambiente policial, como aquela que
traz um dos policiais no corredor da morte desenvolvendo certa simpatia pela
causa de Stevenson, mesmo já tendo sido apresentado ao público como um
escroque, Luta por Justiça tem na
função de denúncia de algo tão incrustado quanto o racismo e o prejulgamento
dentro do sistema social e legal estadunidense algo urgente.
O embate emocional das imagens
reais dos presos que cumpriram pena no corredor na morte, sempre na iminência
de sua própria execução, mas que conseguem deixar o local ainda preservando seu
maior bem, e, se tiverem sorte, suas sanidades, concede ainda mais força à
reflexão trazida pela obra.
*Crítica originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 22/02/2020
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