sábado, 22 de fevereiro de 2020

Luta por Justiça


Olhos que Condenam


Baseado em uma história real, Luta por Justiça traz o empenho de jovem advogado na batalha contra o racismo assassino que construiu os Estados Unidos

Por João Paulo Barreto

“Soube que ele era culpado no momento em que olhei para ele”. Essa foi a frase proferida por policiais nos depoimentos referentes à prisão de Walter McMillian, errônea e desonestamente acusado do assassinato de Ronda Morrison, uma jovem de 18 anos, branca, residente do Alabama, no sul estadunidense. Em uma investigação tendenciosa e repleta de furos, na qual não se conseguia achar um suspeito, McMillian, um homem negro, sem antecedentes criminais, pai de dois filhos, foi falsamente relacionado como cúmplice de Ralph Meyers em outro assassinato cometido por este. Assim, após criar a armadilha legal, a polícia corrupta e racista da cidade de Monroeville não tardou a acusar Walter, também, pelo assassinato da jovem Ronda. A frase entre aspas acima define bem a ação que urge da reflexão contida em Luta por Justiça.

Just Mercy (em seu título original) traz a perseverança do advogado Bryan Stevenson (Michael B. Jordan, também produtor do filme), quando, recém formado em Harvard, decide, ao invés de seguir uma carreira lucrativa em escritórios de advocacia, abraçar a análise minuciosa dos casos de condenados à cadeira elétrica no estado do Alabama. Ao abrir um centro de representação jurídica para pessoas sem condições financeiras para arcar honorários advocatícios, Stevenson passa a se dedicar, ao lado da colega Kris Ansley (Brie Larson), a verificações mais detalhadas de casos no intuito de evitar que penas de morte sejam executadas.

Jamie Foxx vive Walter McMillian

CULPA PRÉ-DEFINIDA

Ao ilustrar seu filme com a brutal história de McMillian (vivido por um intenso Jamie Foxx), baseada no livro do próprio Bryan Stevenson, o diretor e co-roteirista Destin Daniel Cretton trouxe não somente uma análise profunda do racismo nas terras ianques, bem como uma reflexão acerca da pena de morte como um método falho, desumano e injusto de se fazer justiça. “O olho por olho deixará todo o mundo cego”, frase atribuída a Mahatma Gandhi, constrói de forma pertinente essa reflexão. Acabar com a vida de um criminoso é a resolução para o problema? Ou este problema social deve ser lidado de maneira pragmática, porém com uma diferenciação daquilo que nos coloca como pessoas, não como animais vis? Minha consciência e humanidade seguem para a segunda opção.

No longa, neste aspecto da discussão sobre a pena de morte ainda ser legalizada em alguns estados da 
trumplândia (mesmo que a cadeira elétrica, desde 2008, não seja mais adotada), há o fato de que a maior parte dos presos que terminam no corredor da morte possuem falhas em seus processos judiciais e, ainda por cima, serem em sua grande maioria afrodescendentes. “Aqui, se você é negro, você já nasce culpado”, afirma, dolorosamente, na pele de Jamie Foxx, Walter McMillian.

Deste modo, ao se aprofundar nesta imprescindível questão, o roteiro de Cretton e Andrew Lanham (que, curiosamente, havia escrito o constrangedor A Cabana, de 2017) Luta por Justiça coloca seus personagens habitantes do corredor da morte não de forma caricata, a querer forçar uma empatia do espectador. Os traumas daqueles homens, alguns deles culpados dos seus crimes, não são jogados na tela de maneira a redimi-los por suas lágrimas ou atual estado desespero diante da iminente partida. Não. O filme oferece contundentes argumentos para que tal máxima contestada sabiamente por Gandhi não seja colocada em prática.

Stevenson e McMillian (Jordan e Foxx): momento decisivo

“JUSTIÇA” SENDO FEITA?

Um deles reside na trágica vida de Herbert Richardson, uma das 66 pessoas executadas no Alabama depois que a pena capital foi recolocada em prática. No filme, interpretado por Rob Morgan, Richardson ilustra precisamente o fato da sentença de morte sendo algo definitivo, mas que não cumpre efetivamente a ideia de justiça. Assumidamente culpado pelo crime que cometeu, Richardson sofria de PTSD (Post-traumatic stress disorder, na sigla em inglês), o tipo de estresse pós-traumático que aflige diversos soldados quando estes retornam para casa após cumprir com deveres militares em guerras.

Com tal condição a atormentá-lo, o crime cometido por Richardson deveria ser julgado a partir de uma perspectiva, também, médica, tornando possível que sua pena fosse paga através de um internamento em um hospital psiquiátrico. Mas nada disso aconteceu. A cena de sua execução remete ao À Espera de um Milagre, filme baseado na obra de Stephen King. Aqui, porém, a lembrança de ser baseada em algo real nos choca com maior impacto.

Mesmo com alguns personagens tendo uma participação mal desenvolvida na trama, com uma aproximação fantasiosa de bom caráter dentro do violento ambiente policial, como aquela que traz um dos policiais no corredor da morte desenvolvendo certa simpatia pela causa de Stevenson, mesmo já tendo sido apresentado ao público como um escroque, Luta por Justiça tem na função de denúncia de algo tão incrustado quanto o racismo e o prejulgamento dentro do sistema social e legal estadunidense algo urgente.

O embate emocional das imagens reais dos presos que cumpriram pena no corredor na morte, sempre na iminência de sua própria execução, mas que conseguem deixar o local ainda preservando seu maior bem, e, se tiverem sorte, suas sanidades, concede ainda mais força à reflexão trazida pela obra.


*Crítica originalmente publicada no Jornal A Tarde, dia 22/02/2020

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