Os Degraus da Insanidade
Com um inspirado Joaquin Phoenix, Coringa
traz origem de lendário
vilão em humano, violento e reflexivo espiral
psicológico
Por João Paulo Barreto
Em um dos recorrentes enquadramentos utilizados pelo diretor
Todd Phillips na sua vertiginosa viagem dentro do labirinto mental de Arthur
Fleck (um Joaquin Phoenix em estado de graça), o comediante fracassado que se
torna o assassino serial autointitulado Coringa, vemos o homem de aparência
frágil subir algumas vezes vários lances de escada em uma conexão entre as imundas
ruas da fictícia Gotham City, ou, a Nova York setentista que o filme soube
emular tão bem de obras como Perdidos na
Noite, Serpico e Taxi Driver.
Aqui, percebemos em suas costas curvadas o peso de sua
existência naquelas constantes escaladas de degraus em diários retornos para o
apartamento decrépito onde vive com sua mãe doente, após mais uma jornada de derrotas
na carreira como palhaço de rua a anunciar promoções de lojas decadentes, animar
crianças doentes em hospitais, ou no alimentar do sonho inútil de fazer sucesso
na comédia de stand-up.
Da mesma maneira, esse retorno também acontece após mais um
dia de violências sofridas e de escape do sufocamento urbano, e, também, após
mais uma tentativa fracassada de se adaptar, através de visitas ao Serviço
Social, a um mundo que o renega rotineiramente. A repetição é a vida de Arthur.
Bem como é uma das precisas definições do inferno
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Arthur e sua condição: risos incontroláveis |
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Não com surpresa o espectador atento percebe naquela escada
constante a bela rima visual ao ver o protagonista iniciar sua pessoal, e, por
isso, aliviante espiral descendente em direção à loucura com um atravessar daqueles
mesmos degraus, só que no sentido contrário, seguindo para a entrega total à
violência catártica e deixando para trás qualquer chance de redenção. Ao subir
aqueles degraus em sua postura de desistência e desânimo, mas, ainda assim,
lutando para de algum modo conseguir escapar, seja com a ajuda de remédios ou
cogitando um interesse amoroso, ainda tem-se ali a presença de alguém que quer
se ver curado e “feliz” como, ironicamente, o chama sua mãe, Penny (Frances
Conroy). Na postura confiante e reversa da descida daqueles mesmos degraus, com
suas roupas berrantes, com uma maquiagem a mostrar seu verdadeiro rosto e em
uma incisiva dança, o que vemos é justamente essa citada entrega à catarse.
ÁSPERA SOCIEDADE
É disso que trata Coringa,
incursão dentro da trajetória do mais conhecido vilão dos quadrinhos do
Batman que, aqui, é desenhado em uma humana e, calcada no real, gênese. É sobre
a perda das amarras na entrega a uma insanidade nociva, brutal e assassina
causada pela crueldade familiar e pela omissão áspera de uma sociedade amarga. Demonstrando
esse peso a martirizá-lo, está a presença física de Joaquin Phoenix.
Com sua impressionante magreza, suas costas arqueadas,
omoplatas protuberantes, uma postura que, de maneira contrastante, desenha
fragilidade e, simultaneamente, força bruta em sua personagem, o ator dá a
Arthur um paralelo de empatia e de medo junto ao público. E essa força bruta é
denotada logo em seu começo, quando, sem camisa e exibindo hematomas da recente
surra sofrida, tenta rasgar o couro de suas botas de palhaço como maneira de
descarregar algo. Aqui, o desenho de som preciso cria justamente essa sensação
de brutalidade escondida sob aquele corpo esquelético. E nas gargalhadas
incontroláveis acompanhadas por um cartão explicativo daquela condição, ou
naqueles risos agudos que ele manipula muito bem, o seu autocontrole é evidenciado
e nós o entendemos com os dentes trincados.
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De Niro na pele de Murray Franklin: nocivo e humilhante oportunismo |
MÍDIA NOCIVA
Em uma Gotham City que representa tudo de ruim que a
desigualdade social pode criar, na qual a ingerência irresponsável de políticos
incompetentes e corruptos desenha o presente, o futuro e o desespero de
cidadãos sem amparo social e vitimas de um capitalismo nocivo, a imagem de um
povo se levantar sob o símbolo de um palhaço assassino dá à experiência Coringa um peso ainda mais relevante.
Distante de qualquer denúncia rasa e insustentável de um suposto teor
irresponsável em suas ideias niilistas, a obra de Todd Phillips concede ao seu
público uma possibilidade imensa de reflexão. “É a vida”, como bem pontua
Robert De Niro na pele de um oportunista apresentador de TV. E observe que isso
vem de um filme que possui um selo de origem nos quadrinhos. Não é pouca coisa.
Inclusive, a presença de De Niro como o anfitrião do
programa de entrevistas e comediante Murray Franklin, uma evidente relação à
subestimada obra O Rei da Comédia, dirigida
por Martin Scorsese em 1982. Aqui, porém, Rupert Pupkin troca de lugar com
Arthur Fleck, mas a mesma carência afetiva está lá presente. O que muda é
somente a intensidade e velocidade de seu caos interno. Como catalisador para
toda fúria do protagonista, Murray Franklin vem como um símbolo de todas
auguras que atormentam Fleck.
No ato extremo a fechar o filme, uma imagem simbólica de diversos monitores de TV exprime o caos causado pelo já batizado Coringa. Alguns dos canais continuam a exibir sua programação normal, com publicidades e episódios semanais “a colocar um sorriso no rosto” do espectador. A vida segue. Mas o caos permanece. Às vezes disfarçado, às vezes evidente. Mas sempre nocivo.
No ato extremo a fechar o filme, uma imagem simbólica de diversos monitores de TV exprime o caos causado pelo já batizado Coringa. Alguns dos canais continuam a exibir sua programação normal, com publicidades e episódios semanais “a colocar um sorriso no rosto” do espectador. A vida segue. Mas o caos permanece. Às vezes disfarçado, às vezes evidente. Mas sempre nocivo.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 05/10/2019
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