Menina dos Olhos de Oyá
Exibido na Mostra de Cinema de Outro Preto e vencedor do
Festival InEdit Brasil, documentário Fevereiros
aborda com esmero a religiosidade e musicalidade de Maria Bethânia
Por João Paulo Barreto
Com projeção ao ar livre na bela Praça Tiradentes, durante a
13ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, Fevereiros, documentário que aborda a história do clã Veloso, mais
especificamente de Maria Bethânia, sua religiosidade e sincretismo, bem como a
paixão mútua da cantora pela escola de samba Mangueira, gerou comoção e emocionou o
público presente no último domingo. Dirigido por Marcio Debellian, que também
assina o roteiro ao lado de Diana Vasconcellos, o filme capta de modo preciso a
relação da interprete com seus pilares tanto de fé quanto musicais e culturais.
Como o próprio nome já diz, o filme tem no carnaval e os
festejos do mês em questão um mote central e ponto de partida em seu
desenvolvimento. Mas, mais do que apenas abordar a dedicação da Mangueira e a
conquista do título no desfile de 2016, Fevereiros
aposta (e ganha) no esmiuçar da proposta da escola de samba no estudo da
relação de Bethânia com suas influências dentro do catolicismo, do candomblé e
do, como já dito, sincretismo que une as duas religiões. Assim, é através dos depoimentos da imortalizada
como “Menina dos Olhos de Oyá”, que adentramos nas raízes da cantora. Em sua
dedicação a manter tradições, logo de inicio a ouvimos dizer que fevereiro é um
mês que ela sempre busca passar em Santo Amaro, sua cidade natal, que, durante
o período, realiza a secular festa em louvor a Nossa Senhora da Purificação.
Entre sorrisos, Bethânia explica que muitos dos itens de vestuário que ela
ganha ou compra durante o ano, ela reserva para usar em fevereiro, em sua estadia
na cidade natal. E que isso é algo prioritário para ela, chegando a mudar
compromissos profissionais e que, inclusive, nunca esteve na lavagem do Bomfim
ou na festa do Rio Vermelho para Iemanjá por conta do choque nas datas dos
rituais na cidade do recôncavo. O corte para a imagem de Bethânia, aos 70 anos,
a correr pelas ruas de Santo Amaro denota essa importância de modo único. Em
uma dedicação singular, a paixão da cantora se torna algo
palpável para o
espectador.
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Caetano relembra os momentos da infância com a irmã |
CAETANO É DEUS
Neste ponto, percebe-se a escolha da montadora Diana
Vasconcellos em usar no filme três abordagens, que acabam por se misturar de
modo fluído, sendo também perceptível o equilíbrio e ritmo alcançado no
resultado. A primeira refere-se à influência da religião católica na sua vida
como um todo, mas mais precisamente na juventude de Bethânia. Sua aproximação
da novena de Santo Amaro, que tinha a matriarca Dona Canô como uma das
principais organizadoras; a primeira comunhão sua e de seu irmão Caetano, cujo
depoimento causa risos pelo receio do músico ao saber que “consumiria o corpo
de Cristo” e, mais impactante ainda, a fala de Bethânia a explicar que tinha
medo da dita onipresença de Deus, tão propagada pelos mais velhos em tom de
ameaça e que, por isso, buscou conforto na figura feminina de Nossa Senhora.
Tudo isso embalado pelo riso ao contar que a criança Caetano a acalmou dizendo
que não precisava ter medo, pois ele era Deus.
Neste encaminhamento, Fevereiros
segue em sua narrativa abordando a aproximação de Bethânia para a religião de
matriz africana, que começara ainda na infância, quando uma irmã de criação teve
experiências de incorporação espiritual na sua presença e de Caetano. Com
inserções de imagens de arquivo, o longa ilustra bem essa relação, com ela
ainda jovem a explicar a Chico Buarque a influência em sua vida (em um diálogo que
prima pelo surreal), a importância de Mãe Menininha do Gantois, sua guia
espiritual, e a tradição em Santo Amaro na presença da fala de Pai Poti e Pai
Gilson, dois representantes da religião na cidade. Aqui, é quando o filme
alcança o sincretismo em sua abordagem, que, mesmo presente desde o começo da
projeção, se confirma na mensagem central da obra acerca da tolerância e do
respeito pelas diversas crenças e credos existentes no Brasil. E, ainda, trazendo
questões vinculadas com o ateísmo de Caetano, Chico e Jorge Amado em paralelo à
admiração que têm pela religião candomblecista, a obra aborda um respeito até
ao direito de não crença. Caetano, inclusive, explica a influência da letra
clássica de Milagres do Povo como
oriunda de uma fala de Jorge, algo que coroa o filme como uma revelação. O
diretor Marcio Debellian explica que “Milagres
do Povo é uma canção fundamental para o filme, pois ela acaba fazendo parte
do roteiro. Nem a Bethânia sabia dessa história de que foi o Jorge Amado que
influenciou o Caetano a escrever aquilo”, afirma
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Chico e Bethânia em dueto mágico |
PESQUISA MUSICAL
Sendo um documentário genuinamente musical, a pesquisa de canções
representou uma parte crucial do trabalho. Desde o hino, Reconvexo, clássico de Caetano gravado por Bethânia, a abrir o
filme como um anúncio da baianidade presente na tela, passando pelo samba de
roda de Santo Amaro, que é algo que a própria Bethânia traz para a narrativa,
até o marco inicial É de Manhã, primeira
composição de Caetano a ser gravada por sua irmã no compacto que trazia Carcará no seu lado A, o longa é
permeado por momentos símbolos dentro da história da musica popular. “Havia
canções que eu já planejava colocar, coisas que eu amo da discografia da
Bethânia. Mas houve outras que o filme pedia. Ao abordar a relação dela com Mãe
Menininha, eu precisava colocar um Ijexá de Oxum, por exemplo”, explica o
diretor. E não somente canções de Caetano se fizeram presentes, como o momento
em que um dueto entre ela e Chico enche a tela ou quando a música de Gerônimo, Salve as Folhas, é utilizada. “Nesse caso,
essa é uma louvação aos orixás. E como era um momento em que o filme falava da
lavagem de Santo Amaro, a música de Gerônimo casou muito bem”, conclui.
TOLERÂNCIA RELIGIOSA URGENTE
Ao final, a mensagem de Fevereiros
rima muito bem com a do próprio enredo da Mangueira, no carnaval de 2016,
quando surgiu o esboço inicial do longa. No entanto, o que mais chama atenção é
o modo como o tema, em pouco mais de dois anos e meio, se tornou tão urgente
para o diretor Márcio Debellian e para o espectador. “Hoje, no Rio, temos um
prefeito evangélico que impõe restrições ao carnaval e emite opiniões terríveis
sobre as religiões de matriz africana. Casos de intolerância religiosa acontecendo
novamente, samba sendo chamado de coisa de bandido”, contextualiza. O documentário leva a uma conclusão ilustrada
muito bem no exemplo dos Veloso, onde Caetano tem uma postura atéia, sua irmã,
Mabel, católica e Bethânia, além de católica, é filha de Iansã, representando
bem sua personalidade e sincretismo. “O papel do meu filme é levar uma
reflexão, e não um juízo de valor. O mais importante é respeitar todas as
religiões e conviver bem entre si. Ver as belezas que todas elas têm”, afirma o
cineasta. Intento alcançado.
*Texto publicado originalmente no jornal A Tarde, dia 19/06/2018
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