Vidas Fugazes e Velozes
Com Ford vs Ferrari, Christian
Bale e Matt Damon vão além de um simples
contar da rivalidade de duas gigantes automobilísticas
contar da rivalidade de duas gigantes automobilísticas
Por João Paulo Barreto
Há um claro desafio no roteiro de Ford vs Ferrari: criar um clímax cinematográfico para uma obra que
tem como pano de fundo uma prova automobilística que dura 24h. O lendário Le Mans, circuito localizado na França,
era notório diante da adversidade proposta aos seus pilotos, que tinham que
atravessá-lo durante um dia inteiro, revezando-se em horas ao volante, para
testar os limites de engenharia das máquinas poderosas que guiavam. Além disso,
obviamente, as próprias condições físicas daqueles homens eram colocadas em
constante risco perante os perigos relacionados à alta velocidade em uma época
que, comparada à atual Fórmula 1, avançadíssima tecnologicamente e com alta
prioridade na segurança de seus profissionais, trazia, naquele tempo, vários
riscos às vidas daqueles loucos por adrenalina.
Assim, para adaptar o roteiro escrito a seis mãos, o
cineasta James Mangold (do excelente Logan)
precisava se ater a algo mais eficiente que uma simples estrutura de
apresentação de personagens e seus respectivos conflitos; à simplória criação
de um antagonista; aos percalços criados por este embate, para, finalmente,
trazer a glória emblemática e derradeira que um filme acerca de provas de
velocidade possui como lugar comum. Deste modo, restou a Ford vs. Ferrari, além de uma utilização contida dos tais momentos
de clímax dentro da proposta relacionada à alta velocidade, investir com maior
cuidado em um desenvolvimento humano de seus personagens.
Na recente filmografia, a obra que mais se destaca nesse
viés é Rush, longa de Ron Howard que
aborda a rivalidade entre James Hunt e Niki Lauda. E foi justamente por se
propor a trazer algo mais impactante dramaticamente do que um espetáculo visual
para fãs do automobilismo, o trabalho de Howard chamou a atenção de maneira tão
precisa. Aqui, porém, apesar de seu título, não é a tal rixa entre as duas
famílias de construtores, a estadunidense e a italiana, que leva Ford vs Ferrari à frente.
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Miles após vitória em Daytona |
AMIZADE EXPLOSIVA
A proposta de Mangold reside na ideia de aprofundar a
amizade entre o ex-piloto e designer automotivo Carroll Shelby (Matt Damon) e o
piloto e engenheiro Ken Miles (Christian Bale), ao mesmo tempo que desenha para
o seu público, leigo ou conhecedor no que tange ao automobilismo (eu me incluo
no primeiro grupo), toda técnica necessária para a construção de carros de
corrida.
Assim, mesmo que diversos momentos da obra tragam sequências
eficientes de provas de velocidade (incluindo a citada corrida francesa, bem
como a estadunidense Daytona, também com 24h de duração), é na relação entre
seus dois protagonistas que o filme encontra sua verdadeira essência,
ilustrando nesta cumplicidade uma demonstração crescente da mecânica por trás
da construção dos veículos de alta performance.
Com um Matt Damon carregando pesado o forte sotaque texano
para desenhar um frustrado Shelby, que teve que interromper sua carreira de
piloto por conta de uma condição cardíaca, Mangold insere um personagem
pragmático que, apesar de se render a momentos de fúria em sua frustração,
consegue balancear bem a relação com o explosivo Ken Miles vivido por Bale. O
britânico, aliás, surpreende mais uma vez na constituição física de seu
personagem. Com uma magreza já característica em diversos de seus papeis,
Christian Bale dá a Ken Miles algo além da aparência suja e de pele avermelhada
pelo calor dos motores com os quais mantém contato durante quase todo o dia na
profissão de mecânico.
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Miles testa a potência de um novo motor |
RIMA COMPORTAMENTAL
Explosivo em sua relação pessoal com aqueles que o cercam,
temos no seu trato profissional uma variação exata para como é desenhado o Ken
Miles de Christian Bale. É perceptível como seu personagem se deixa levar pela
fúria somente quando o que está em jogo é o seu desempenho nas provas de alta
velocidade. Um exemplo disso é quando, logo em sua introdução, o vemos lidar
com ironia e calma diante de um cliente violento, mas, quando é sua
participação em uma corrida que é colocada em jogo, golpes de martelo em uma
lataria de carro, além de uma pesada ferramenta sendo atirada contra Shelby,
tornam-se variações esperadas de seu comportamento que beira o psicótico.
Do mesmo modo, em seu trato familiar, a figura de um homem
atento e cuidadoso com o filho, bem como paciente diante das justas cobranças
de sua esposa diante da delicada situação financeira do seu lar, ajudam o
público a notar como a construção de sua figura explosiva se restringe aos
momentos por trás do volante.
E essa comparação comportamental de sua figura
diante das explosões causadas pela aceleração de possantes motores, criam uma
eficiente rima em seu desenvolvimento, tornando Ken e o Ford que ele pilota
quase que o mesmo elemento fílmico em cena.
Fugindo dos clichês comuns ao optar por não utilizar partes
internas de motores para ilustrar a potência de duas cenas envolvendo carros, mas
evidenciando o clássico design de suas máquinas de corrida, Ford vs. Ferrari acaba sendo uma precisa
reconstrução histórica. Reconstrução de um período em que a ousadia de
engenheiros e de pilotos insanos até encontrava freios em leis da física e da
aerodinâmica, mas nessa citada loucura de seus personagens, a estrada à frente
cedia espaço para algo tão fugaz e breve quanto aqueles momentos velozes: vidas
humanas.
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