O Mal Bem Visível
Mais um esmero da Blumhouse Produções, O Homem Invisível traz releitura de clássico de 1933 unindo cinema
de gênero com uma urgente denúncia ao abuso contra a mulher
Por João Paulo Barreto
Na atualização para os tempos atuais, clássicos cinematográficos
de ficção científica, quando recriados, correm grandes riscos de parecerem
datados em suas propostas ou ineficientes em uma comparação ao contexto de suas
épocas originais. Vide, por exemplo, filmes como O Dia em Que a Terra Parou, marco dirigido por Robert Wise em 1951,
e sua versão de 2008, estrelada por Keanu Reeves. Enquanto o primeiro trazia um
claro tom denunciatório contra a postura belicista das potências mundiais
naqueles anos iniciais da Guerra Fria, quando o fantasma das duas bombas
atômicas lançadas apenas seis anos antes ainda assombrava pessoas de todo o planeta,
seu remake da década retrasada se rendia a uma simplória proposta de filme de
ação. Havia, claro, até um esforço se manter fiel a uma mensagem antibélica,
mas todo tom se perdia diante da necessidade do espetáculo visual.
Adentrando no âmbito dos monstros clássicos da Universal
Studios, cujas adaptações da primeira metade do século XX ajudaram a moldar o
imaginário dos filmes de terror e ficção científica que viriam a surgir, o
cenário não é tão diferente em termos de perda de um frescor (não confundir tal
sensação de perda com preciosismo) que as obras originais possuíam. Um exemplo
dessa perda são as versões do clássico O
Lobisomem, sendo a primeira de 1941 ainda conseguindo construir uma melhor
atmosfera de terror que a sua insossa e homônima de 2010.
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Cecilia (Elizabeth Moss) em momento chave no sotão |
A surpresa, porém, é gigante quando entramos no cinema para
encarar uma adaptação de O Homem
Invisível, cujo apreço pelo clássico de 1933 dirigido por James Whale é tão
grande quanto pelo original literário de H.G. Wells, e percebemos estar diante
de uma pérola do horror tanto físico quanto psicológico, bem como uma peça pungente
de alerta contra abusos em relacionamentos e contra a violência misógina. Claro
que boa parte dessa percepção de sucesso se deve à logomarca da Blumhouse
Productions a abrir o longa. Responsável por filmes como Atividade Paranormal, Corra!, A Visita, Fragmentado e Vidro, a empresa de Jason Blum tem dado
um revigorante frescor às produções do gênero de horror. Aqui, mais uma vez,
não decepcionou.
DENÚNCIA CONTRA MISOGINIA
Utilizando um roteiro que insere a característica vilanesca
de seu personagem título de uma maneira mais orgânica, sem caricaturas, e
calcada em uma brutal realidade (no original de 1933, o personagem enlouquece
gradativamente por conta da invisibilidade irreversível), o filme de 2020,
dirigido por Leigh Whannell, desenvolve tal figura através da perspectiva de
sua namorada, Cecilia Kass (Elizabeth Moss).
Vitima de abusos físicos e mentais, a jovem decide fugir do cárcere
privado onde era mantida por seu namorado, o milionário empresário e
pesquisador do campo da óptica, Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen). E é
neste ponto violento e pesado de sua abordagem que O Homem Invisível se diferencia, deixando de ser apenas um filme de
ficção científica para se tornar um essencial exemplar de uma união entre o
horror e uma temática séria de sua imersão no terror psicológico.
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With a Little Help From My Friends: Cecilia busca ajuda |
Ao construir sua trama nos tempos atuais, Whannell trouxe para
o século XXI não somente o contexto tecnológico de seu personagem título, mas
toda uma proposta de alerta dentro de uma questão grave que é a misoginia. E,
ainda, além de inserir essa discussão no filme, o roteiro de Whannell
desmistifica a postura clichê da presença feminina em filmes de horror.
Normalmente vistas como figuras frágeis, manipuláveis e vitimas de dores
infringidas por presenças masculinas, a Cecilia de Elizabeth Moss se diferencia
por seu pulso firme que, mesmo abalada inicialmente, consegue se sobressair e
defender-se diante de tamanha brutalidade contra si.
TÉCNICA E AMBIENTAÇÃO
Na mescla de uma presença física e psicológica, mas com a
necessária ausência visual de seu vilão invisível, o diretor Leigh Whannell
concede ao espectador uma série de artifícios para desenhar a tensão de sua
obra. Sem necessariamente apelar para os sustos fáceis oriundos dos já
ultrapassados jump scares (inserções
de tons repentinos e altos de trilha sonora ou imagens bruscas para causar
impacto na audiência), Whannell prefere trazer seu foco para a sugestão oriunda
dessa ausência visual. Assim, contorna a ideia do medo pela “simples” proposta
(eficiente aqui, friso) slasher e gore na sanguinolência de seu filme,
preferindo causar mais impacto pela sugestão de tais sustos.
E neste trilhar do horror através da sugestão, a presença
física de seu vilão vai se desenhando aos poucos em cena. E é bastante
recompensador perceber, neste desenhar, as pistas que o cineasta insere de
maneira tão orgânica em elementos que se tornarão recompensas centrais para a
audiência no desenvolvimento do longa. Dois exemplos são a (apesar de não tão
natural) escada com a qual Cecilia presenteia James (Aldis Hodge), o amigo
policial que a acolhe; e a cena de maior impacto, quando um extintor de
incêndio apresentado em um tenso momento anterior ilustra precisamente este modelo
orgânico de pista e recompensa (termo que define artifício do roteiro em
plantar elementos em cena) citado anteriormente.
A melhor recompensa, no entanto, é perceber que ainda há
vida inteligente no atualmente combalido (e quase rendido a clichês) cinema de
gênero.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 28/02/2020
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