O Peso do Labor
Modo de Produção, filme
de Dea Ferraz, traz a desilusão de um Brasil
fadado ao seu próprio passado no
ascender de um desumano neoliberalismo
Por João Paulo Barreto
As imagens das carteiras de trabalho surradas pelo tempo,
com páginas rasgadas e repletas de assinaturas, simbolizam bem a reflexão
trazida por Modo de Produção. A cor
de suas capas, desbotadas pelo constante manuseio, com os carimbos a manchar páginas
e a contar trajetórias, se confunde com a necessidade do labor. Torna-se algo
como a definição para a questão do “apenas” ser alguém. Ser uma pessoa que
possa se dizer digna dessa definição. O trabalho se confunde com a definição do
ser alguém cujo respeito por si mesmo e aquele oriundo da sociedade vira um
peso esmagador em suas consciências.
Em seu documentário, a
cineasta Dea Ferraz, do ótimo Câmara de
Espelhos, traz a rotina no Sindicato de Trabalhadores Rurais de Ipojuca,
Canela e Nossa Senhora do Ó, municípios do interior de Pernambuco. Nos dois
textos a abrir o filme, as definições de cana-de-açúcar e do Porto de Suape
mesclam-se quase como uma receita para o progresso na utópica “promessa de
desenvolvimento econômico e social do Nordeste Brasileiro”. Claro que tal progresso,
com a produção de cana sendo a força motriz movida por milhões de trabalhadores
desde o Brasil Colônia, beneficiava realmente outros, não aqueles que, no suor e
mãos calejadas, lhe forneciam suporte e estrutura.
O próprio Porto de Suape, cuja ilusória condição de salvador de
uma economia, surge como uma miragem no início do filme. A diretora Dea Ferraz
comenta essa condição do porto. “Suape era vendido como o oásis da nova
economia. Quase a salvação do estado e do país. Era uma coisa meio louca na
mídia hegemônica e a gente sabia que na região, aqui em Pernambuco, isso não
acontecia. Trabalhadores chegavam e a maioria era de fora. Os que eram da
região eram os da agricultura, da cana-de-açúcar, que acabavam ficando indo e
voltando de Suape para a cana”, explica Dea Ferraz.
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Dona Doralice: cortadora de cana desde os 13 anos de idade |
BRASIL DE 2013 A 2020
O filme teve suas imagens captadas em 2013. Inicialmente, a
proposta era de um curta metragem integrante de uma série chamada Vulneráveis. Acabou virando um longa. “O
primeiro lugar que visitamos foi o sindicato, para buscar indicações de pessoas
que trabalhavam no Porto. Quando entramos, passamos um dia inteiro lá. Voltamos
outras vezes e ficou muito forte para mim a sensação de que aquele espaço era
realmente o filme”, salienta a diretora. Na citada rotina do sindicato,
diversas queixas de trabalhadores oriundos do plantio, corte e processamento de
cana são ouvidas. São pessoas que labutaram suas vidas inteiras nesse tipo de
serviço. Muitas delas sem o cumprimento de diversas diretrizes de segurança ou garantias
previstas em lei dos seus direitos trabalhistas.
Tais direitos, o filme traz em uma série de pontuações feitas
pelos funcionários do sindicato nas suas orientações. Nestes encontros, onde
cordialmente aqueles trabalhadores são ouvidos, vemos os diálogos acontecerem e
a câmera de Pedro Sotero (mesmo fotografo de Bacurau) a registrar as expressões daquelas pessoas. Pessoas que
vão de encontro àquela instituição trabalhista como uma síntese do lavoro. “O
lugar parecia sintetizar toda uma condição de trabalho,
uma condição de modo de produção do capitalismo que, no fundo, tem a ver com um
modo de existência, um modo de vida de várias pessoas que ficam à mercê desses
empregadores, do capital, da Justiça e do Estado”, pontua Dea Ferraz.
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Sr. Amaro e o funcionário do sindicato a ouvir sua situação |
Duas destas pessoas ganham destaque pela lente da cineasta: sr.
Amaro e sra. Doralice. O primeiro trabalhou por décadas no cultivo da cana. Em
sua necessidade, almeja trabalhar com herbicida por conta do adicional de
periculosidade. Tal pedido representa a relação absurda da necessidade que
o trabalho e o capitalismo causam a alguns. Dona Doralice está ali a ouvir todas
as instruções do funcionário do sindicato. Trabalha desde os 13 anos no plantio
de cana-de-açúcar. Não sabe ler ou escrever, precisando registrar com as digitais
o documento de queixa preenchido pelo sindicato. Seu rendimento varia de 280 a
320 reais por quinzena, não chegando a 800 reais por mês. Em um Brasil pós reforma trabalhista e com um
governo que, assumidamente, governa para ricos e tem na ideia de seu “chefe
executivo” que “ser patrão é uma desgraça no país, com tantos direitos
trabalhistas” ou que “minorias têm que se adaptar às maiorias ou desaparecer”,
pensar no peso que o registro que Dea Ferraz fez ainda em 2013 ganha contornos
ainda mais brutais no Brasil de 2020.
Dentro daquela rotina de várias visitas ao
sindicato, a percepção de que o local, em suas repetições de histórias
semelhantes e acontecendo a pessoas distintas, mudou o filme. Uma percepção de
que o doc, desde sua gênese com a proposta de abordar aquela promessa otimista
de futuro advinda de Suape, foi caminhando até seu lançamento em festivais em
2017 e para sua estreia comercial em 2020, em um paralelo inverso ao Brasil. “O
filme vai caminhando junto com a história do Brasil recente. E é muito triste
perceber que ele nasce de um desejo que vira uma miragem porque caminhamos para
trás. Estamos voltando para os séculos de escravidão. É isso que está
acontecendo no país hoje. Além da massa de trabalhadores que está sendo
demitida, de desempregados, estamos vendo a precarização do trabalho, vendo a
vulnerabilidade ainda maior da figura do trabalhador”, lamenta a cineasta.
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A presença da massa de trabalhadores na rotina do sindicato |
HÁ RESISTÊNCIA
Na percepção de que aquela rotina no órgão se tornou
a vida daquelas pessoas, é difícil para o espectador (aconteceu comigo) não ser
impregnado por certo pessimismo em relação ao Brasil. Ao final, um letreiro
explica todo o processo temporal do filme e aborda o atual momento. Dea Ferraz
cita o filosofo camaronês Achille Mbembe e tal referência rima de maneira
precisa com Modo de Produção. “Eu
penso muito em Mbembe quando ele fala da necropolítica. É como se tivesse um
excedente de massa trabalhadora e quando há excedente de qualquer coisa na
economia, ele tem que ser eliminado. O que fazer com esse excedente? O
excedente de trabalhador. Acaba sendo aquele que é possível morrer, que é
possível matar. Essa é a política neoliberal que está sendo implantada hoje no
país. Uma política extremamente violenta, que desconsidera qualquer nível de
humanidade. Eu não consigo nem dizer o que é. A gente não consegue ainda nem
dizer o que é isso tudo que a gente está vivendo”, finaliza. Na frase a encerrar seu filme, uma sensação
de punhos cerrados surge quando lemos a frase Há Resistência.
Sim, há. Sempre haverá
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