terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Modo de Produção


O Peso do Labor


Modo de Produção, filme de Dea Ferraz, traz a desilusão de um Brasil 
fadado ao seu próprio passado no ascender de um desumano neoliberalismo

Por João Paulo Barreto

As imagens das carteiras de trabalho surradas pelo tempo, com páginas rasgadas e repletas de assinaturas, simbolizam bem a reflexão trazida por Modo de Produção. A cor de suas capas, desbotadas pelo constante manuseio, com os carimbos a manchar páginas e a contar trajetórias, se confunde com a necessidade do labor. Torna-se algo como a definição para a questão do “apenas” ser alguém. Ser uma pessoa que possa se dizer digna dessa definição. O trabalho se confunde com a definição do ser alguém cujo respeito por si mesmo e aquele oriundo da sociedade vira um peso esmagador em suas consciências.

Em seu documentário, a cineasta Dea Ferraz, do ótimo Câmara de Espelhos, traz a rotina no Sindicato de Trabalhadores Rurais de Ipojuca, Canela e Nossa Senhora do Ó, municípios do interior de Pernambuco. Nos dois textos a abrir o filme, as definições de cana-de-açúcar e do Porto de Suape mesclam-se quase como uma receita para o progresso na utópica “promessa de desenvolvimento econômico e social do Nordeste Brasileiro”. Claro que tal progresso, com a produção de cana sendo a força motriz movida por milhões de trabalhadores desde o Brasil Colônia, beneficiava realmente outros, não aqueles que, no suor e mãos calejadas, lhe forneciam suporte e estrutura.

O próprio Porto de Suape, cuja ilusória condição de salvador de uma economia, surge como uma miragem no início do filme. A diretora Dea Ferraz comenta essa condição do porto. “Suape era vendido como o oásis da nova economia. Quase a salvação do estado e do país. Era uma coisa meio louca na mídia hegemônica e a gente sabia que na região, aqui em Pernambuco, isso não acontecia. Trabalhadores chegavam e a maioria era de fora. Os que eram da região eram os da agricultura, da cana-de-açúcar, que acabavam ficando indo e voltando de Suape para a cana”, explica Dea Ferraz.

Dona Doralice: cortadora de cana desde os 13 anos de idade

BRASIL DE 2013 A 2020 

O filme teve suas imagens captadas em 2013. Inicialmente, a proposta era de um curta metragem integrante de uma série chamada Vulneráveis. Acabou virando um longa. “O primeiro lugar que visitamos foi o sindicato, para buscar indicações de pessoas que trabalhavam no Porto. Quando entramos, passamos um dia inteiro lá. Voltamos outras vezes e ficou muito forte para mim a sensação de que aquele espaço era realmente o filme”, salienta a diretora. Na citada rotina do sindicato, diversas queixas de trabalhadores oriundos do plantio, corte e processamento de cana são ouvidas. São pessoas que labutaram suas vidas inteiras nesse tipo de serviço. Muitas delas sem o cumprimento de diversas diretrizes de segurança ou garantias previstas em lei dos seus direitos trabalhistas.

Tais direitos, o filme traz em uma série de pontuações feitas pelos funcionários do sindicato nas suas orientações. Nestes encontros, onde cordialmente aqueles trabalhadores são ouvidos, vemos os diálogos acontecerem e a câmera de Pedro Sotero (mesmo fotografo de Bacurau) a registrar as expressões daquelas pessoas. Pessoas que vão de encontro àquela instituição trabalhista como uma síntese do lavoro. “O lugar parecia sintetizar toda uma condição de trabalho, uma condição de modo de produção do capitalismo que, no fundo, tem a ver com um modo de existência, um modo de vida de várias pessoas que ficam à mercê desses empregadores, do capital, da Justiça e do Estado”, pontua Dea Ferraz.

Sr. Amaro e o funcionário do sindicato a ouvir sua situação

Duas destas pessoas ganham destaque pela lente da cineasta: sr. Amaro e sra. Doralice. O primeiro trabalhou por décadas no cultivo da cana. Em sua necessidade, almeja trabalhar com herbicida por conta do adicional de periculosidade. Tal pedido representa a relação absurda da necessidade que o trabalho e o capitalismo causam a alguns. Dona Doralice está ali a ouvir todas as instruções do funcionário do sindicato. Trabalha desde os 13 anos no plantio de cana-de-açúcar. Não sabe ler ou escrever, precisando registrar com as digitais o documento de queixa preenchido pelo sindicato. Seu rendimento varia de 280 a 320 reais por quinzena, não chegando a 800 reais por mês.  Em um Brasil pós reforma trabalhista e com um governo que, assumidamente, governa para ricos e tem na ideia de seu “chefe executivo” que “ser patrão é uma desgraça no país, com tantos direitos trabalhistas” ou que “minorias têm que se adaptar às maiorias ou desaparecer”, pensar no peso que o registro que Dea Ferraz fez ainda em 2013 ganha contornos ainda mais brutais no Brasil de 2020.

Dentro daquela rotina de várias visitas ao sindicato, a percepção de que o local, em suas repetições de histórias semelhantes e acontecendo a pessoas distintas, mudou o filme. Uma percepção de que o doc, desde sua gênese com a proposta de abordar aquela promessa otimista de futuro advinda de Suape, foi caminhando até seu lançamento em festivais em 2017 e para sua estreia comercial em 2020, em um paralelo inverso ao Brasil. “O filme vai caminhando junto com a história do Brasil recente. E é muito triste perceber que ele nasce de um desejo que vira uma miragem porque caminhamos para trás. Estamos voltando para os séculos de escravidão. É isso que está acontecendo no país hoje. Além da massa de trabalhadores que está sendo demitida, de desempregados, estamos vendo a precarização do trabalho, vendo a vulnerabilidade ainda maior da figura do trabalhador”, lamenta a cineasta.

A presença da massa de trabalhadores na rotina do sindicato

HÁ RESISTÊNCIA

Na percepção de que aquela rotina no órgão se tornou a vida daquelas pessoas, é difícil para o espectador (aconteceu comigo) não ser impregnado por certo pessimismo em relação ao Brasil. Ao final, um letreiro explica todo o processo temporal do filme e aborda o atual momento. Dea Ferraz cita o filosofo camaronês Achille Mbembe e tal referência rima de maneira precisa com Modo de Produção. “Eu penso muito em Mbembe quando ele fala da necropolítica. É como se tivesse um excedente de massa trabalhadora e quando há excedente de qualquer coisa na economia, ele tem que ser eliminado. O que fazer com esse excedente? O excedente de trabalhador. Acaba sendo aquele que é possível morrer, que é possível matar. Essa é a política neoliberal que está sendo implantada hoje no país. Uma política extremamente violenta, que desconsidera qualquer nível de humanidade. Eu não consigo nem dizer o que é. A gente não consegue ainda nem dizer o que é isso tudo que a gente está vivendo”, finaliza.  Na frase a encerrar seu filme, uma sensação de punhos cerrados surge quando lemos a frase Há Resistência. 

Sim, há. Sempre haverá

*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 18/02/2020



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