A relevância do Terror
Apesar do tom episódico com sequências de terror,
conclusão
de It – A Coisa faz jus à grandeza do
clássico de Stephen King
Por João Paulo Barreto
Quando se inicia o capítulo dois e final de It – A Coisa, adaptação da obra
literária homônima de Stephen King, uma atmosfera específica inserida pelo
cineasta argentino Andy Muschietti desde sua primeira parte, de 2017, surge.
Trata-se da eficiente ideia de nostalgia misturada ao terror dos medos
infantis. O já comum uso de risadas de crianças para criar essa tensão
colabora, claro, mas é por conhecer a proposta de seu autor, tanto o literário
King quanto a do roteirista Gary Dauberman (que já havia explorado esses medos
no ótimo Annabelle 2), que percebemos
o quão aterrorizante é esse retorno à
infância, podendo ser representado apenas por uma saudade, mas que, aqui, se
relaciona com um genuíno pavor.
Derry, a cidade imaginada por Stephen King para ilustrar A Coisa e diversos de seus outros livros
reaparece em It – Capítulo 2 como um
presságio. Inicialmente, como uma lembrança doce. Os sons de um parque de
diversões, o cheiro da pipoca, o sorriso das crianças e os casais de mãos dadas
nos trazem isso.
Ao utilizar a nostalgia de um parque que, mesmo funcionando em
2019, remete o espectador (e o leitor) a uma visita em sua infância de muitos
anos antes, Muschietti, junto ao seu diretor de fotografia, o peruano Checco
Varese, recriam exatamente a palpável tensão marcante de sua fonte original. Mesmo
diante do medo, lá estão o ar de cidade de interior, os aromas, as cores
douradas a nos levar a períodos equivalentes de encanto. Mas, conhecendo a literatura de King,
percebe-se que o mal está incrustado em tudo, apenas esperando o momento mais
oportuno para se manifestar. Logo, essa crueldade se torna um anúncio para a
tragédia quando aquele ambiente declina para uma violência homofóbica que serve
como prelúdio para o ressurgimento do personagem central e símbolo daquele
horror.
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Perdedores em suas versões adultas |
PERDEDORES DE VOLTA
Nas versões adultas, os losers
do primeiro filme seguem em suas vidas. Alguns com sucesso, outros nem
tanto. No mais simbólico dos casos, Beverly Marsh (agora vivida por Jessica
Chastain), vive em um casamento abusivo e escapa dessa violência a partir do
chamado de Mike Hanlon (Isaiah Mustafa), o único dos “perdedores” do grupo a
ter ficado em sua cidade natal. Mike, ao perceber o retorno do símbolo daquele
horror citado, convoca os amigos a cumprirem o juramento de voltar à Derry para
enfrentar o mal representado pelo palhaço Pennywise, interpretado
magnificamente por Bill Skarsgård. Assim, lá estão de volta Bill Denbrough
(James McAvoy), Richie Tozier (Bill Hader, hilário), Ben Hanscom (Jay Ryan) e
Eddie Kaspbrak (James Ransone, em uma impressionante semelhança física com o ator
Jack Dylan Grazer, sua versão criança).
Neste reencontro, porém, é onde o filme, com seus quase 170
minutos, demonstra sua falha, algo perceptível principalmente em comparação à
sua primeira parte. Com a necessidade de abarcar os dramas de todos os personagens
junto ao terror oriundo do contato com Pennywise, o roteiro de It – Capítulo 2 acaba, em alguns
momentos, por perder seu ritmo, tornando-se episódico e expositivo na ideia de
criar sequências de terror. Assim, cada um dos adultos passa a ter uma experiência
singular com a criatura, algo que espelha um trauma vindo da infância. Diante
de tantos momentos nos quais o palhaço surge como um elemento fantasioso a
explorar o medo de cada um dos perdedores (ou otários, em sua adaptação), o
longa perde um pouco do seu impacto como filme de terror, como, por exemplo, a sequência envolvendo uma estátua gigante de
lenhador a ganhar vida.
Porém, é válido salientar que, em algumas dessas sequências,
como a que aborda o encontro de Bill e seu irmão caçula junto a um bueiro
conhecido ou o momento em que Beverly se vê de volta à casa onde morou com seu
pai molestador e alcoólatra, assustam justamente por abordar dramas onde o
terror fantasioso de Pennywise se torna uma alegoria para o real trauma
psicológico de seus protagonistas, algo muito bem explorado nessa conclusão com
outros personagens, também. Dentre eles, Stanley Uris (Andy Bean), que, em
breve participação, insere um denso tom dramático em um arco envolvendo
suicídio.
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Pennywise e sua verdadeira face |
REENCONTRO COM PASSADO
Excetuando o caráter episódico existente na ideia abordar
diversas passagens de terror em seus muitos personagens, essa conclusão de It figura como um ótimo exemplar do
gênero, e isso se deve principalmente à participação de Bill Skarsgård como
Pennywise. Aqui, inclusive, é possível um vislumbre do ator sem a pesada
maquiagem de palhaço, em uma pertinente homenagem que Muschietti faz ao seu
protagonista. E ele consegue transferir em sua versão humana horror tão sufocante
quanto o de sua persona circense e doentia.
Demonstrando uma montagem precisa em relação a mesclar
flashbacks com a trama que acontece na atualidade, trazer a continuidade da
história dos losers ainda
adolescentes e criar diversas rimas visuais de suas vidas com suas atormentadas
versões adultas, a conclusão da adaptação da obra de Stephen King (que faz uma
participação hilária em cena) coloca It –
O Filme, considerando ambos como uma obra única, como aquele tipo de
transposição para os cinemas a ocupar o mesmo lugar afetivo do seu original literário.
E ver em It e em
suas homenagens (as que abordam Carrie e
O Iluminado, ambas obras de King,
saltam aos olhos) o Terror como gênero alcançar tamanha relevância dentro de
uma onda de filmes que se repetem e se banalizam em suas propostas de causar
medo, não é algo a se menosprezar.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 06/09/2019
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