A maturidade alcançada na rotina sem encantos
Em Um Homem Fiel, diretor Louis
Garrel traz análise acerca da confiança mútua em relacionamentos
Por João Paulo Barreto
Em seu segundo longa metragem como diretor, Louis
Garrel, que também co-escreve o roteiro de Um
Homem Fiel, traz boas reflexões acerca das escolhas, arrependimentos e
segundas chances que relacionamentos são capazes de nos oferecer. Trata-se não
somente de uma comédia de costumes (sem o tom pastelão característico, friso),
mas de um filme que, com sutis toques de absurdo em sua proposta, permite ao
espectador uma pertinente análise das dúvidas que perpassam mentes inseguras
quando confrontadas por tentações ou pelo desencanto da rotina.
Com apenas 75 minutos, Garrel, que também atua,
constrói um triangulo amoroso sem julgamentos a gêneros ou privilegiando
comportamentos em detrimento do sexo oposto. Assim, concede ao seu público uma observação
acerca de três pessoas cujas dúvidas em suas vidas a levam a decisões das
quais, sim, podem se arrepender, mas são justamente tais escolhas que as levam
à precisa ideia do que seria vida, levando em consideração ansiedades,
percalços, paixões e, claro, o aterrador medo da solidão. Claro que o olhar
externo nos dá uma segurança de análise, afinal, não vivemos exatamente as
mesmas angústias daqueles indivíduos, mas a identificação com aqueles mesmos
erros é o que torna Um Homem Fiel um
filme tão cativante em seu desenvolvimento.
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Abel e seu reencontro com Marianne: mágoas passadas |
TENTATIVA E ERRO?
É deste modo que conhecemos Marianne, Abel e Eve, o
triangulo em questão. Quando Marianne decide terminar sua relação por se
encontrar grávida de um amigo em comum com quem tem um caso, a saída de Abel da
sua vida é bem direta, trazendo a percepção de um diálogo de abertura que prima
pela naturalidade e adequação a uma situação que deve, de fato, ser lidada
daquele modo pragmático, mesmo que um tanto absurdo e incomum. Mas a descrição
como absurda, citada anteriormente, só é colocada em análise a partir do
momento em que se esperaria uma reação mais enérgica do rapaz traído. Porém, o
acerto aqui reside justamente nesse choque contido, nessa ideia de que o
racional deve prevalecer. A ironia do seu título, inclusive, se apresenta logo
de cara, quando Abel deixa o apartamento de Marianne para passar a noite com
uma garota que, em suas próprias palavras, “já havia esquecido no dia
seguinte”. E é precisamente essa a ideia de vida e erros atrelados a ela que
citei anteriormente.
No reencontro com Marianne, nove anos depois e
dentro de um momento trágico, um novo envolvimento amoroso acontece, mas com o
peso de uma maturidade que acaba sendo inserida de maneira bastante orgânica. É
aqui que se encontra o principal ponto de reflexão trazido pela obra. No
surgimento da jovem Ève, que se revela apaixonada por Abel desde sua infância,
e que, finalmente, consuma seu desejo pelo rapaz, uma reflexão sobre a citada
perda do deslumbramento diante do encarar de uma certeza que parecia tão plena,
mas que tem na rotina e no amadurecimento sua principal derrocada. “Costumava
pensar nele quando estava com outros rapazes. Agora que estou com ele, em quem
posso pensar?”, reflete a bela Ève.
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Ève e sua realização amorosa com Abel: desencanto da rotina |
A segurança de amar primeiramente a si mesmo é o que
se revela como principal proposta de reflexão no roteiro de Garrel. Na personagem de Marianne, vivida por uma
Laetitia Casta em um estado de maturidade que contrasta precisamente com o
calor da juventude que a Ève de Lily-Rose Depp traz, vemos a precisa ideia de
parcimônia e ausência de impulsividade que somente o tempo lhe concede. Ao
aceitar a reconstrução de um relacionamento que em qualquer outro contexto já
teria sido deixado para trás, a mulher entende que, dentro daquela situação,
não há julgamentos ou hipocrisia, afinal, ela mesma cometera erros com Abel no
passado e teve oportunidades de corrigi-los. Aqui, apenas mais uma oportunidade
de fazer a mesma correção e seguir em frente. Se na vida real fosse tão fácil
quanto na ficção...
* Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 08/07/2019
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