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A diretora, atirz e escritora, Conceição Senna, que partiu dia 27, aos 83 anos |
LUTO Na partida da atriz, escritora e cineasta baiana, Conceição Senna, o cinema brasileiro perde o pioneirismo de uma das lutadoras pela afirmação da mulher nordestina no audiovisual
Por João Paulo Barreto e Rafael Carvalho
Faleceu na quarta-feira, aos 83 anos, no Rio de Janeiro, a
diretora, escritora e atriz baiana, Conceição Senna. Natural de Valente, Conceição
teve papel importante na filmografia baiana, atuando em obras pilares como o
censurado à época Caveira My Friend, de
Álvaro Guimarães; O Dragão da Maldade contra
o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha; o marco da ficção cientifica do baiana, Abrigo Nuclear, filme de Roberto Pires;
Coronel Delmiro Gouveia, filme de
Geraldo Sarno; A Coleção Invisível, de Bernard Attal, além
de Iracema – Uma Transa Amazônica, na
qual atuou sob a batuta do companheiro de longa data, seu esposo, o também
baiano Orlando Senna, que co-dirigiu o filme ao lado de Jorge Bodanzky.
Como diretora, Conceição teve seu foco em documentários, tendo
filmado três deles: Memórias de Sangue, de
1987, filme sobre a cidade de Canudos, local onde passou sua infância; Brilhante, documentário de 2006 sobre um
revisitar ao município de Lençóis, local onde o diretor Orlando Senna filmou,
em 1977, Diamante Bruto, longa que
tinha José Wilker como protagonista. Em 2018, Conceição lançou o terceiro e
último filme, Anjos de Ipanema,documentário
sobre o movimento cultural em torno do píer de Ipanema, local de confluência de
diversas personalidades da música, cinema teatro e literatura no Rio de Janeiro
dos anos 1970.
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Orlando e Conceição Senna em foto dos anos 1970 |
DOCUMENTÁRIO BIOGRÁFICO
Lara Belov, que co-dirigiu ao lado de Jamile Fortunato o
documentário O Amor Dentro da Câmera,
fala sobre a perda de Conceição, cuja história e parceria ao lado de Orlando
Senna se tornaram tema do longa ainda a ser lançado. “Já estamos na fase de
finalização do filme, colocando os créditos. Eu conheci Conceição ainda na
minha adolescência, quando fiz uma oficina de roteiro em Lençóis. Jamile fez
uma oficina com Orlando. Começamos uma amizade que nos ligou muito. Fui estudar
em Cuba, onde ela e Orlando viveram anos antes. Ela era apresentadora de um
programa na TV cubana chamado Ventanas al
Sul, que teve a maior audiência em Cuba nos anos 1980 e 1990”, pontua Lara.
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Conceição e a diretora Lara Belov durante gravações Foto: Jamile Fortunato |
A produtora baiana, Solange Souza, da Araça Filmes, que produziu o
documentário Brilhante,
também destaca a importância de Conceição, sua presença no audiovisual brasileiro e
luta contra o preconceito a nordestinos e mulheres. “Para mim, ela foi mais que
uma amiga. Foi uma irmã, uma mãe. Sempre dizia para gente que tínhamos que
enfrentar esse preconceito isso com a cara e a coragem. Principalmente as
mulheres. Sempre estava presente em negociações do audiovisual brasileiro.
Como atriz, escritora, diretora e roteirista. No período em que Orlando foi
secretário de Cultura, as reuniões sempre aconteciam em sua casa. Ela e Orlando
foram importantes articuladores na Cultura do audiovisual”, afirma Solange.
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Foto do acervo pessoal da produtora Solange Souza com Conceição |
Em 2018, por ocasião do Cine Ceará, A TARDE conversou com
Conceição por telefone acerca de sua trajetória e sobre filme, Anjos de Ipanema, que seria exibido no
festival. Sobre seus dois filmes anteriores, Conceição trouxe lembranças
preciosas. “Quando Orlando esteve lá em Lençóis para filmar Diamante Bruto, a cidade estava
desmoronando. Ele captou muito da beleza do lugar. O filme deu muita
visibilidade a Lençóis. Tanto que, hoje, trata-se de um dos pólos turísticos
principais do Brasil. Quando voltei lá para filmar Brilhante, eu quis abordar o mote do ‘pode um filme transformar uma
cidade?’, uma vez que foi justamente isso que o trabalho de Orlando fez”,
declarou a cineasta à época.
Com o último filme, Anjos de
Ipanema, Conceição revisitou memórias afetivas de uma época intensa, quando
viveu o movimento cultural e hippie na capital fluminense dos anos 1970, lugar
onde viveu até os últimos dias. Na mesma conversa, ela me falou que havia
encerrado sua contribuição cinematográfica com Anjos. “Esse é o meu
terceiro e último filme. Nos três, eu busquei de alguma forma abordar as
transformações que passavam as cidades onde vivi, Canudos, Lençóis e Rio. Mas,
sendo baiana, quis homenagear a Bahia presente no Rio, cidade que escolhi
passar meus dias. Aqui tem o chamado ‘Quadrilátero Baiano de Ipanema’,
quarteirão formado por ruas cujos nomes levam homenagens a heróis da História da
Bahia e após homenagear Canudos e Lençóis nos meus dois primeiros filmes,
foquei no Rio”, disse-me Conceição com empolgação naquele dia.
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Honra de ter entrevistado Conceição durante Cine Ceará em 2018 Foto: Luiz Zanin |
Tendo vivido os anos 1970 na capital fluminense em toda uma
efervescência cultural que escapava do cabresto dos anos de chumbo, Conceição
se recorda de uma resistência dentro da arte. “Foi uma época marcante
culturalmente, onde as pessoas falavam muito de amor, paz, solidariedade,
coisas em falta nos dias de hoje”, disse-me com certo pesar na voz, mas que não
deixava seu sorriso fugir por inteiro.
Autora do romance autobiográfico A Menina, a guerra e as almas (que deve se tornar filme pelas mãos
da diretora Manuela Dias), na mesma
conversa, Conceição disse que planejava encerrar sua carreira como diretora
para focar na literatura.
É dessa serenidade que vou me lembrar.
*Texto originalmente publicado no Jornal A Tarde, dia 29/05/2020
Linda mulher criativa Conceicao Senna
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